O bocejo…

João Marcos

Durante os anos de 2007 e 2008, ministrei vários cursos sobre ovinocultura de corte aos alunos da Faculdade de Zootecnia da Universidade Estadual de Ponta Grossa. A UEPG!
Resgatava nas aulas, minha identidade de acadêmico retrocedendo ao tempo do tempo, que havia muito tempo se fora…
Via em alguns alunos muita semelhança de alguns colegas de turma… Pelo jeito de falar, pelo andar, pelo fenótipo…
O termômetro da temperatura das aulas era a conversa dos alunos na hora do cafezinho. Eu calibrava os ouvidos para ouvir os comentários, se a aula estava interessante ou não. Se o termômetro apontava febre, eu pedagogicamente dava um antitérmico.

Mudava o estilo para prender a atenção dos discentes. E funcionava! Era só mudar a aula com cara de segunda-feira e deixar com cara de sexta-feira! Uma dinâmica de grupo, umas pitadas de humor, eram um santo remédio! Às vezes eu dizia: “Vou falar mais baixinho para não acordar o moço ali”… Nas risadas, o dorminhoco acordava. E por incrível que pareça, não dormia mais.
As aulas mais febris eram as das segundas-feiras, onde os jovens ainda estavam com a cabeça no travesseiro e o corpo na balada do fim de semana. Tudo normal. Eu já tinha visto este filme…
Bem… numa destas aulas uma moça que estava na terceira cadeira da primeira fila, encostada à parede, bocejava com tanta vontade que estava desviando a atenção dos outros alunos que engoliam o bocejo. Inclusive eu.

Embora eu entendesse aquela situação, os insistentes e repetitivos bocejos começavam a me atrapalhar. Desviava minha atenção e por algumas vezes não me continha e bocejava também. Para o “vírus do bocejo” não tem vacina. O tratamento é bocejar ou dormir!
Para dar um jeito naquela situação, cada vez que a aluna bocejava eu abria os braços, em um ângulo de 90 graus. Assim como o Cristo Redentor.
Cada bocejo, uma abertura dos braços… Claro que todo mundo notou. Ninguém entendeu. Via-se a curiosidade no olhar dos alunos em saber o porquê daquele gesto.
Lá pelas tantas, a moça não se conteve e perguntou:

– Professor… Por que cada vez que eu bocejo o senhor abre os braços em forma de cruz?
Ironicamente e com olhar de vingança falei:
– PARA VOCÊ NÃO ME ENGOLIR!


A risada foi geral! Astutamente, ela com muita perspicácia, esperou pararem os risos e em voz bem alta e bom som soltou:

– O SENHOR NÃO SE INCOMODE. NÃO TENHA MEDO. EU NÃO COMO CARNE DE SEGUNDA!
Putz… o endereço da frase foi certeiro. Me atingiu em cheio! A turma riu pra dentro. Eu não tinha outra alternativa. Comecei a rir alto. A turma toda gargalhou. Fiz sinal com as mãos aprovando os risos. E riram mais alto ainda.

Afinal, as risadas eram pra mim!

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