Se prometer, cumpra!

João Marcos


No palco empoado da vida ficam nossas lembranças representando o teatro que muitos chamam de destino. Por vezes somos os próprios autores, às vezes, a plateia assistindo à peça da nossa própria existência!
Esta história é verídica, emocionante e trágica, que a pedido da autora não vou citar nomes reais ou fictícios.
Esta senhora saiu da plateia, subiu no palco e assim contou-me a sua história, que perplexo, passo a narrar agora.

Em 1980 ou 1981 quando ainda mocinha, fazia parte da rotina do seu cotidiano ir na casa da sua vizinha de frente, tomar chimarrão e assistir a novela “Os Ricos também Choram”.
Sua vizinha e grande amiga tinha um irmão que gostava muito dela. Insistente e perseverante sempre lhe pedia um beijo, que obviamente era negado, mas para a surpresa do rapaz, numa tarde da vida recebeu um sim!

– O quê?
– Sim, mas desde que seja um beijinho no rosto!
– No rosto? No rosto não, tem que ser na boca! Vai ser assim! – e com um olhar de lobo faminto beijava sua própria mão, dando um ar romântico e sensual no momento.

Claro que não! E tal qual uma flor quando perde as pétalas, o olhar brilhante do pedinte apaixonado ficou caído, opaco, uma tristeza só. Diante de tal semblante e com pena do rapaz, finalmente a mocinha concordou com o beijo na boca.Com muita alegria e a baixa estima elevada, o rapaz assuntou! Era deveras insistente, não obstante, muito educado e gentil. Afinal, não poderia cair antes de tropeçar. Ali na sua frente estava a mais bela moldura para o seu quadro!
O tempo foi passando e o beijo evaporando. A novela chegou ao fim e ela não fora mais à casa da amiga.
Pelo traçado do destino o rapaz foi morar em outra cidade, em outro estado, deixando um beijo recrudescido, prometido e não cumprido.

Passado um longo tempo o rapaz voltou. Tudo estava diferente e a amizade já não era a mesma. No fundo da existência, o beijo prometido e jamais esquecido.Era uma tarde outonal, céu cinzento e o frio pertinente da estação. Silêncio sepulcral. Um tiro forte e estampido de revólver quebrou o momento! O rapaz matou-se com um tiro certeiro no coração.
Correria, desespero e gritos de pavor ecoavam na rua e na vizinhança. Pânico total, polícia, vizinhos aos prantos…
Com uma tristeza profunda e o coração choroso e baldio, a moça foi dormir na casa de uma prima que morava próximo. Mas, dormir de que jeito?
Com as pálpebras pesadas e inchadas pegou no sono. Eram quase 6 horas da manhã quando sua tia bateu na porta do quarto e a chamou:

_ Levante, ele está aqui! Quer falar com você.

Ela, então, chegou perto e perguntou:

– O que você faz aqui? O que você quer?
– Lembra do beijo que você prometeu? Vim buscar, pois vou embora e nunca mais vou voltar.
– Sim…sim está bem! Mas só se for no rosto.
– Então deixe.

Cabisbaixo, com os ombros curvados para a frente, balançando a cabeça foi embora.
Ela voltou para o quarto, olhou o relógio que marcava 6 horas em ponto. Estava sonhando. E no sonho, assim que se deitou acordou muito assustada.
Olhou pela janela do quarto, uma neblina intensa. Caiu na real… e entre muitas lágrimas lembrou que ali do outro lado da rua, estava sendo velado o seu amigo que viera se despedir e cobrar o beijo prometido.
Foi no velório, aproximou-se do caixão e pensou em dar o beijo. Faltou-lhe coragem.
Dias depois foi ao cemitério, orou e pediu perdão pelo beijo prometido e não cumprido. Me contou, que isto ficará marcado para sempre em sua memória! E que ficou a grande lição: se você prometer, cumpra!

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