Um dia é do peixe…

João Marcos


Nestes confins à beira do Rio Miranda em Mato Grosso do Sul, a noite vai adentrando na madrugada e com uma réstia sutil, a lua parece colocar uma tiara nas águas caudalosas, dando um ar místico e feminino à paisagem…
Três cachorros me olham intrigados digitando o tablet como se dissessem com espanto nunca terem visto algo igual. E acho que nunca viram mesmo. Maior ainda é o meu espanto em ver seus espantos. Que coisa!
Enquanto o sono não vem, calibro meus ouvidos para escutar a conversa de algumas aves noturnas, o coaxar de uns sapos, o cantar dos galhos das árvores onde o vento é o maestro, o piscar matreiro de algumas estrelas e o cantar desafinado e descompassado de alguns grilos… e os minutos correm no relógio como eu corro atrás do sono que não alcanço. Assim vou exercitando a mente para produzir mais uma crônica, que aliás, não faço há algum tempo.
Continuando, sob os olhares agora não tão curiosos, os quadrúpedes pulguentos parecem já terem se plugado nos avanços tecnológicos da era digital. Estão on-line!
De repente os cachorros saem em disparada, latindo, vão na direção do barco, barranco abaixo, que está apoitado no rio. O que seria tal manifestação? Algum bicho procurando comida? Não sei. Nada vejo. Usei o termo manifestação, porque a palavra de ordem agora é esta. De qualquer sorte é uma manifestação. Mesmo que canina é uma manifestação.

A temperatura está amena, gostosa, e o cheiro da mata que envolve o ambiente me remove à infância, com gosto de infância mesmo, em um interior saudável, onde a criançada andava de mãos dadas com a vida… “Criança feliz, feliz a cantar”… Quem viveu nesta geração sabe e canta esta canção! O que passou, passou. Já era. Foi…
mas a expectativa e a ansiedade da espera era revistar ao amanhecer, os “anzóis de galho” que no final da tarde foram amarrados nas árvores debruçadas sobre o rio, com as tuvíras, muçuns, lambaris e jejuns. Todos vivos para despertar o apetite dos jaús, cacharas, dourados…
No dia anterior, nada de peixe. Bem… peixe nada mesmo…
Opa! Estou alcançando o sono. Se não agarrá-lo agora, nem os cachorros o pegarão.
Volto amanhã para contar o resto. Boa noite pra mim. E para os cães, que agora já estão off-line…

Amanheceu… Fotografo o sol despertando e fito a paisagem paradisíaca. Café tomado, rumo ao barco revistar os “anzóis de galho” que de longe já se via, estavam inertes, isto é, sem o produto da pesca: o peixe. Mas quem sabe, rio abaixo, alguma galhada vergando, avisando que ali estaria um belo exemplar fisgado, pois os habitantes do “poço do jaú” são de grande porte. Tão grande quanto a nossa esperança de abraçar um deles!
Mas… nada. O negócio era agora tentar com os molinetes. Quem sabe? Esperança de todo pescador. Mas só a esperança mesmo…
Sol a pino, calor forte, estômago roncando mais que o motor de popa. Hora de voltar ao rancho para o almoço…
O compadre Jorge revelou-se um grande piloteiro. No barco e no fogão. Seus dotes culinários continuam o mesmo: excelente! Uma coisa ele perdeu pra mim. No ronco.
Mas como falei, peixe que é bom… nada. Faz parte de qualquer pescaria.
Lembrei do velho ditado: “Um dia é da caça e o outro do caçador”. No nosso caso, foi “um dia do peixe e outro também”.

OBS.: Por incrível que possa parecer, esta é uma história verídica de pescador. Só que sem peixes. Dá pra entender?
O uso do “anzol de galho” era registrar a pescaria com uma foto! Mas…não foi desta vez!

A crônica que foi ao ar quando o blog completou 1 ano: Vereador Amadeu Mario Margraf
Leia a crônica de número 100, publicada aqui no blog: E agora?
Leia a primeira crônica publicada do blog: Mundo cão
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