Um quadro… uma história!

João Marcos


Há muito tempo, lá pelos anos de 1994, eu estava pescando no majestoso Haras Nice, do saudoso amigo Lineu Ristow. Somente algumas pessoas tinham permissão para tal. Eu era uma delas. Privilégio de poucos, vontade de muitos.
Além da beleza paradisíaca e arquitetônica, o haras tem um lago de aproximadamente 40 mil metros quadrados com as bordas cercadas de pedras, onde o próprio Lineu contou-me que para transportá-las, seu caminhão fez mais de 300 viagens do Porto Amazonas até lá, numa distância de uns 12 km, mais ou menos.
No centro do lago, tem uma torre de tijolos à vista de 20 metros de altura, com um grande relógio sobressalente. Lindo mesmo! É um carrilhão, e marca sonoramente os quartos de hora e a hora cheia.
Lembro tão bem daquela tarde de sábado de ar primaveril, quando eu armava algumas linhas de pesca para garantir a carpa ou as carpas para a janta, quando dois meninos desceram correndo até a beira do lago onde eu estava com meu cachorro Nick, um poodle branco que sempre me acompanhava.

Os meninos, Renan e Fernando, filhos do Irineu e netos do Lineu e Nice, haviam chegado de Curitiba para passar o fim de semana com seu pai e avós. Aproximaram-se meio desconfiados pela presença do Nick que queria brincar, mas que por um momento, vi que estavam com um pouco de receio da reação canina…
Começava exatamente neste instante, uma amizade que criou raízes que estão fincadas até hoje em nossos corações. E no coração do Nick também.
A partir deste momento, quase todos os sábados ou às vezes aos domingos, íamos lá passar horas muito agradáveis, pescando, olhando a paisagem e observando os biguás (pássaros que tiravam do lago seu sustento comendo filhotes dos peixes), verdadeiros predadores. Fazem parte da cadeia alimentar. Temos que entender a natureza. Prazerosamente se ouvia o trinar dos canários-da-terra, o solfejo afinado do sabiá e as vozes roucas das gralhas de plumagem azul e amarela que cruzavam os ares. Alguns patos selvagens cortavam as águas mansas num formato da letra “V”, e se perdiam no horizonte. Borboletas dançavam desritmadas, enfeitando o ambiente, dando um toque especial àquela tarde.

Ainda sinto o aroma do laranjal florido, e o colorido das hortênsias, que a Dona Nice dava atenção especial. Era um verdadeiro cartão postal. Parecia uma tela de um grande pintor. Aliás, a Dona Nice tinha este dom. Realmente uma artista do pincel.
De repente, a boia da linha afundava ou uma vara com molinete vergava, às vezes quase encostando ao chão, sinal que uma grande carpa estava fisgada. A emoção de tirar um peixe destes, só quem pesca sabe avaliar… Sensação de um atleta vencedor de uma maratona ou de uma olimpíada. A adrenalina sobe e o coração acelera. Não estou exagerando não, isto acontece quando um bom peixe é pescado. Qualquer pescador confirma esta emoção!
Nunca trouxemos mais que dois exemplares. Praticávamos a pesca esportiva. Soltávamos as carpas de volta ao lago. Eram dois prazeres: o primeiro de pescar e o segundo de soltar. Era uma alegria só. A festa era total! Pulos, risadas e abraços! O Nick participava latindo, saltitando e balançando o rabo pitoco… Tenho em mente até hoje o sorriso de contentamento do Renan e do Fernando. Era uma conquista! Uma vitória mesmo! Vitória do peixe fisgado. E eu ainda como prêmio, ganhava o olhar brilhoso dos dois moleques.

Às vezes, o Ignezel ou o Emilinho iam junto. Um de cada vez. Sabe como é, eu não podia abusar, e tinha medo de perder aquele privilégio. O Ignezel era especialista no preparo das massas para fazer a isca. Às vezes fazia a massa com batata cozida. Era infalível… Arremessava o molinete e…batata!
O lago era por demais piscoso, e entre um peixe e outro, contávamos causos, falávamos das atividades escolares dos meninos, de esportes e de anedotas também, é claro.
Enfim, jogávamos muita conversa dentro. Criamos o hábito de assar um filé ou uma linguiça com pão. Quando não, a refeição era a própria carpa, fresquinha, pescada na hora! Sempre apanhávamos belos exemplares. Havia bastante carpa mesmo, das variedades húngara, prateada e capim. O sabor era inigualável, sem o gosto de terra como acontece com estes peixes que habitam os rios.

Num sábado da vida, na beira do lago, qual minha surpresa quando fui presenteado pelo Renan, com um quadro que ele mesmo pintara. Era seu primeiro quadro: uma praia, duas canoas, em uma delas, uma rede de pesca. Mais adiante, o mar, que no infinito se juntava ao céu. No canto direito da tela, o nome do pintor: Renan Ristow.
Confesso que fui tomado por uma forte emoção. Aquele menino me entregando um presente, um quadro pintado com óleo em tela, seu primeiro trabalho artístico. Este quadro foi mais que um presente. Era a vida me premiando, selando uma forte amizade.
O tempo passou e foi tomando outros rumos, alterando as rotinas da existência… Os meninos cresceram, se formaram e seguiram seus destinos.
Hoje, o Fernando é um destacado tenista profissional e mora nos Estados Unidos. Está entre os melhores tenistas de lá, nas Terras do Tio Sam. Coleciona títulos e medalhas. Dá aulas do nobre esporte em uma Universidade. Fico imensamente feliz pelo seu sucesso!

Certo dia o Irineu aparece em minha casa em Palmeira, com um envelope nas mãos. Era o convite de casamento do Renan com a Cristiane. Ao abrir, rapidamente passou um filme em minha mente, daquele menino, sorriso manso, de educação refinada e uma amizade de fidelidade canina! Internamente, misturei as lágrimas do momento, com aqueles de quando ganhei o quadro… No mesmo instante confirmei nossa presença na cerimônia. Lamentavelmente não pudemos ir. A Sonia fora operada um dia antes. Não teve como antecipar ou adiar a cirurgia.
Para nossa surpresa e contentamento, o jovem casal foi morar em Balneário Camboriú.
O Renan formou-se em Hotelaria e Turismo e hoje é empresário do setor de eventos que atende toda a Costa Catarinense. A Cristiane é advogada.
Nós, também morando no Balneário! Era a vida, nas suas voltas, nos aproximando novamente!

Certa noite convidamos o jovem casal para jantar lá em casa. Momento de matar as saudades, relembrar um passado alegre que estava vivamente marcado nas nossas mentes. E nos corações também!
Depois de algumas doses de uísque, nos sentamos para o jantar, que, com muito esmero a Sonia preparou…
Na parede, do lado esquerdo deles, um quadro. Óleo em tela, com duas canoas, uma rede de pesca, o mar azul se juntando ao mar do infinito…
Papo vai papo vem, a Cristiane observou bem o quadro e exclamou em alto em bom som:

– Renan, tua assinatura no canto direto da tela! Foi você mesmo que pintou? Que lindo!

Neste instante o jovem pintor me falou com seu olhar… ficou mudo, emocionado.

– Meu Deus, você guardou o quadro. Eu era um menino e lembro bem do dia que lhe presenteei.

– Sim, Renan. Este quadro sempre me acompanhou. Tenho o maior carinho por ele. Faz parte da minha história, da minha vida…

– E o Nick? Lembrei dele agora -exclamou!

Levantei da mesa, fui até o quarto e trouxe o velho Nick no colo. Agora cego, diabético, surdo e com limitações no andar…

– Não acredito no que vejo. O Nick ainda vivo! Quanta saudade deste cachorro!

As lágrimas rolaram… impossível contê-las. Um momento de rara emoção, onde o tempo e o destino foram parceiros.
Hoje, o jovem casal espera a chegada do Pietro, seu primeiro filho, que vai nascer em novembro.
Espero que daqui uns oitos anos, eu possa estar sentado novamente à beira daquele lago, e o Pietro venha correndo ao meu encontro para podermos pescar e começar uma outra história de vida…
Com os olhos marejados pela emoção, encerro e dedico esta crônica às pessoas que fizeram parte destes inesquecíveis momentos, com os votos de que a vida possa ofertar ao Pietro muitas emoções como esta que vivemos! E a nós também!
Saudade de todos!

OBS.: Esta crônica escrevi em outubro de 2012.

 

A crônica que foi ao ar quando o blog completou 1 ano: Vereador Amadeu Mario Margraf
Leia a crônica de número 100, publicada aqui no blog: E agora?
Leia a primeira crônica publicada do blog: Mundo cão
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