Aumento do consumo de álcool e outras drogas na pandemia: uma chamada para a ação!

Piti Hauer


Aumento do consumo de álcool e outras drogas na pandemia: uma chamada para a ação!

Por Alessandra Diehl

Psiquiatra, mestre e doutora pela UNIFESP, especialista em dependência química, vice-presidente da ABEAD.

 

A nova doença do coronavírus (COVID-19) apareceu inicialmente em Wuhan, província de Hubei, China, em dezembro de 2019, mas já evoluiu para uma pandemia como todos nós sabemos e que se espalhou rapidamente pelo mundo gerando grande impacto econômico em muitos países e, principalmente, na saúde pública. Além disto, imensos desafios e possibilidades de transformações sociais para a humanidade vêm sendo colocados à prova para toda a população mundial já que se tornou o”inimigo público número 1″ e potencialmente mais poderoso que o terrorismo. Para evitar a sobrecarga dos sistemas de saúde e retardar a disseminação do coronavírus, vários países implementaram ou estão implementando medidas de restrição social, que vão do fechamento de escolas, estabelecimentos comerciais, restrições de atendimento ao público em serviços de saúde até as quarentenas locais e nacionais.

 

Com isto, o consumo de álcool em lugares públicos diminuiu. No entanto, houve aumento do número de pessoas famosas ou não fazendo lives e bebendo durante as transmissões como uma nova forma de seguir divulgando marcas de bebidas. As happy hours virtuais, reuniões de amigos em aplicativos de videoconferência como o Zoom, geralmente com drinks diversos – apelidados de “quarentinis” – se tornaram uma tendência em diversos países, incluindo o Brasil. Também observamos um disparo no número de bebidas alcoólicas vendidas através de delivery. O Grupo Pão de Açúcar por exemplo, registrou alta de quase 30% nas vendas de vinho durante o feriado da Páscoa de 2020, em suas lojas físicas e no e-commerce, na comparação com o mesmo período de 2019. Já a Evino, verificou aumento de 19% na quantidade de garrafas vendidas na comparação entre os meses de fevereiro e março de 2019 para 2020. Segundo o e-commerce, o volume de pedidos cresceu 20%, com um incremento de 30%, entre fevereiro e março deste ano que passou, das solicitações feitas por novos clientes em relação ao total.

 

Apesar de trazer uma sensação de relaxamento, o consumo de bebidas alcoólicas possui um efeito colateral: pode agravar os quadros de depressão e ansiedade – principalmente em tempos de isolamento social e com tantas incertezas sobre quando será a “minha vez a receber a vacina” ou se “vou conseguir manter meu emprego” ou ainda se “as crianças vão voltar ara escola ou não”! Portanto, buscar refúgio na bebida alcoólica nessa pandemia está longe de ser uma solução para aliviar os sintomas de tristeza, solidão e ansiedade provocados pelas incertezas destes tempos sombrios que vivemos.

 

Mas será que, de fato, houve aumento de consumo de álcool e outras drogas durante a pandemia que infelizmente ainda estamos vivendo? A resposta é sim! A edição especial do Global Drug Survey (GDS) na pandemia da COVID-19 foi desenvolvida como parte de um esforço global para entender melhor o impacto da pandemia na vida das pessoas, com foco específico no uso de álcool e outras drogas, saúde mental e relacionamentos. Mais de 55.000 pessoas participaram desta amostra não probabilística que durou 7 semanas em (maio – junho de 2020) e incluiu a participação de brasileiros. Os dados nos mostram que com relação as drogas no Brasil, observou-se que 17.2% aumentou  o consumo de maconha fumada, 14.7% aumentou o consumo de outros produtos de maconha, 3.75% aumentou os estimulantes tipo anfetaminas, 7.4% aumentou  o consumo de cocaína e 12.7% aumentou o consumo de benzodiazepínicos (ex. Diazepam, clonazepam, alprazolam) e Z -compostos (ex. Zolpidem). Com relação ao consumo de álcool, segundo o GDS, 34,4% relataram que estavam começando a beber mais cedo do que o habitual e que 13,5%, da média global de respondentes disseram que aumentaram  o seu consumo de álcool durante este período. No Brasil este aumento foi de 13,1%, apenas um pouco abaixo da média mundial. Países como Irlanda, Nova Zelândia e o Reino Unido lideraram o aumento do consumo variando de 21,8% a 20,6%. Estudo recente do grupo da Dra. Nora Volkow do National Institute on Drug Abuse (NIDA) mostrou que pacientes com COVID-19 e dependência química tiveram resultados significativamente piores (+ morte: 9,6%, + hospitalização: 41,0%) do que pacientes com COVID-19 sem dependência química).

 

Portanto, as evidências disponíveis têm sugerido que o consumo de álcool e outras substâncias aumentou durante a pandemia da COVID-19. Assim como, as evidências têm mostrado que pacientes com diagnóstico de dependência química estão em risco significativamente aumentado de exposição à infecção. Desde o início da pandemia a recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS) tem sido de restringir a venda e o consumo de álcool durante este período e recomendou para que os países adotem restrições do consumo de bebidas alcoólicas durante a pandemia. O Center of Desease and Control (CDC), órgão do governo americano semelhante à ANVISA no Brasil, também alertou quanto ao risco de aumento do consumo de álcool e outras drogas durante o isolamento social. No entanto, apesar da forte recomendação da OMS e de outros órgãos, no Brasil, encontra-se pouquíssimas normativas técnicas de órgãos públicos da saúde com qualquer posicionamento sobre a questão.

 

Os achados reforçam a importância de fornecer suporte para o tratamento e recuperação de indivíduos com problemas relacionados ao uso de drogas e álcool, uma vez que a dependência química deve ser considerada uma condição que aumenta o risco de resultados adversos, impulsionadas por fatores sociais e econômicos que colocam certos grupos em maiores riscos para os problemas com álcool e outras drogas como para a aquisição e complicações da COVID-19. Destaca-se a necessidade de triagem e tratamento destes indivíduos com como parte da estratégia para controlar a pandemia, garantindo que não haja disparidades raciais, de gênero e econômicas no acesso a assistência médica e psicossocial.

 

Fontes:

 

WINSTOCK AR, DAVIES E, GILCHRIST G, ZHUPARRIS A, FERRIS JA, MAIER LJ, BARRATT MJ. GDS SPECIAL EDITION ON COVID-19 INTERIM REPORT BRAZIL 02/06/2020.

 

WANG QQ, KAELBER DC, XU R, VOLKOW ND. COVID-19 risk and outcomes in patients with substance use disorders: analyses from electronic health records in the United States. Molecular Psychiatry 2020. https://doi.org/10.1038/s41380-020-00880-7

Previous ArticleNext Article
Presidente da Comissão de Políticas sobre Drogas da OAB-PR. Vice-presidente no Conselho Estadual de Políticas Públicas sobe Drogas do Estado do Paraná representando a OAB-PR. Especialista em Dependência Química pela UNIFESP. Professor na Faculdade Bagozzi. 1° Vice-Presidente da Fepact - Federação Paranaense das Comunidades Terapêuticas.
[post_explorer post_id="744207" target="#post-wrapper" type="infinite" loader="standard" scroll_distance="0" taxonomy="category" transition="fade:350" scroll="false:0:0"]