Entrevista com Alessandra Diehl sobre Drogas e Sexualidade.

Piti Hauer



O PARANÁ PORTAL inicia hoje uma série de 5 entrevistas com MULHERES que atuam na área do fenômeno das drogas, quer seja no cuidado, na prevenção e na formulação de Políticas Publicas sobre Drogas. A primeira entrevistada é a Psiquiatra Alessandra Diehl.
“ESSAS MARAVILHOSAS MULHERES E SEU TRABALHO COM AS DEPENDÊNCIAS E SEU CUIDADO” é uma forma de homenagearmos à TODAS que fazem desse tema a sua Vida.

 

QUEM É ALESSANDRA DIEHL?

Londrinense, Médica formada pela Universidade Federal de Pelotas em 1998, completou sua residência psiquiátrica pela mesma Universidade em 2000 e em 2001 especializou-se em Dependência Química pela UNIFESP. Fez mestrado em 2007 na Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) sobre estudo multicêntrico colaborativo juntamente com a Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre trauma e uso de substâncias em salas de emergência. Organizou e coordenou uma enfermaria exclusiva e pioneira de atendimento para dependência química destinada a homens e a mulheres não grávidas e gestantes que usam crack e outras drogas de 2009 a 2012 no grande ABC.

Especialista em Sexualidade Humana na Universidade de São Paulo (USP) em 2009 com a monografia “Abuso e dependência de substâncias psicoativas em homossexuais e bissexuais: revisão de literatura “ e a partir daí o seu conhecimento e curiosidade no campo das sexualidades só cresceu, sendo uma apaixonada e entusiasta. Em 2014, obteve o Diploma em Saúde Sexual e Reprodutiva e Sexualidade de Adolescentes pela Geneva Foundation for Medical Research and Evaluation (GFMR) na Suíça e neste mesmo ano recebeu o prêmio de mérito de distinção pela “Contribuição para a Sexologia na América Latina”. Em 2016, concluiu seu doutorado na Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), Departamento de Psiquiatria, cuja tese de defesa foi intitulada “Disfunção Sexual, Aborto, Diversidade Sexual, Comportamento Sexual de Risco e Crime em uma amostra de não usuários de drogas injetáveis”.

Alessandra Diehl tem várias publicações em revistas especializadas em todo o mundo. Além disso, Alessandra é revisora de diversas revistas científicas, possui mais de 60 capítulos de livros, muitos deles relacionados a agenda de gênero, sexualidade, consumo de substâncias, e atualmente faz parte do grupo de estudos em Sexualidade Humana do Centro Universitáro Salesianos (UNISAL)/CNPQ e da Unidade de Aperfeiçoamento Profissional em Psicologia e Psiquiatria (UPPSI) e é a Vice-Presidente da ABEAD.

 

 

Paraná Portal 1- Pode-se afirmar que as SPA estimulam mais a libido das Mulheres do que a dos Homens? Qual o motivo?

 Alessandra Diehl: Não se pode afirmar isto. Uma vez que apenas algumas substâncias podem estar atreladas ao aumento de libido, tais como as anfetaminas e doses baixas de cocaína, enquanto outras como o uso crônico de álcool tende a diminuir. Além disto, isto pode ocorrer igualmente em ambos os gêneros e não somente em mulheres.

Paraná Portal 2- O que é mais frequente a compulsão sexual que leva às drogas ou a compulsão as drogas que leva a compulsão sexual?

Alessandra Diehl: Está é uma pergunta interessante e que não parece ter uma resposta única. Gosto de pensar que ambos os fenômenos (compulsão por substâncias e por sexo) ocupam o mesmo substrato neurobiológico, ou seja, ambos têm uma interface com o nosso sistema de recompensa cerebral (nosso centro do prazer) onde os mesmos neurotransmissores, tais como a dopamina atuam para o desenvolvimento de um ou de outro fenômeno. Na prática clínica vemos com muita frequência esta sobreposição e nem sempre facilmente identificada pelos profissionais da área, os quais não parecem estar suficientemente preparados para lidar com ambos fenômenos. Tanto a compulsão sexual, quanto à compulsão por drogas devem ser abordadas concomitantemente. Uma abordagem inclusiva, respeitosa e que lance mão de um leque de opções, incluindo os grupos de mútua ajuda, tais como Narcóticos Anônimos (NA) e Dependentes de Amor e Sexo Anônimos (DASA).

Paraná Portal 3- O que deve ser implementado urgentemente em rede para o cuidado da Mulher que faz uso abusivo de Drogas?

Alessandra Diehl: Embora cresça o número de mulheres com uso e dependência de álcool e outras drogas, elas ainda permanecem como alvo não prioritário na tomada de decisão dos gestores de políticas públicas. De longe, a substância mais utilizada por mulheres no mundo todo é o álcool. Ainda que a dependência de álcool seja mais comum entre os homens, a diferença entre os gêneros vem caindo sistematicamente. Ainda com relação às drogas lícitas, principalmente medicamentos como “calmantes” (benzodiazepínicos) e “inibidores do apetite” (anfetaminas), a prevalência, que já era alta, vem se mantendo entre as mulheres, que apresentam números mais elevados de dependência do que os homens. Assim, é urgente o treinamento de equipes de saúde da atenção primária, principalmente a enfermagem, para identificação precoce do consumo de substâncias em todas as linhas de cuidados para as mulheres

Paraná Portal 4- Sexo e Drogas ainda são temas tabus como devem ser discutidos com adolescentes?

Alessandra Diehl: Independentemente da complexidade do serviço de saúde que recebe adolescentes para tratamento, certamente o profissional da saúde irá se deparar com a temática da sexualidade e uso de drogas. O uso de álcool e outras drogas, a atividade sexual sem proteção e o sono insuficiente são os comportamentos de risco de jovens que devem funcionar de alerta para os profissionais da saúde por representarem fatores de risco preditores de morbidade e mortalidade nessa população. Desse modo, são comportamentos que exigem políticas urgentes de prevenção e tratamento. Diálogo aberto, de forma acolhedora e inclusiva, sem julgamentos, informativo e baseado em evidências. Adolescentes têm direitos sexuais e devem receber a melhor orientação possível em consonância com as boas práticas clinicas já bem estabelecidas para esta faixa etária. Jovens que recebem educação sexual, em geral, postergar a sua “primeira vez”, escolhendo sua parceria sexual e se prevenindo de forma assertiva para esta ocasião em geral muito especial para muitos jovens. Portanto, educação sexual emancipatória, vale a pena!

 

Previous ArticleNext Article
Piti Hauer
Presidente da Comissão de Políticas sobre Drogas da OAB-PR. Vice-presidente no Conselho Estadual de Políticas Públicas sobe Drogas do Estado do Paraná representando a OAB-PR. Especialista em Dependência Química pela UNIFESP. Professor na Faculdade Bagozzi. 1° Vice-Presidente da Fepact - Federação Paranaense das Comunidades Terapêuticas.