Entrevista com Laura Fracasso sobre Acolhimento de Mulheres em Comunidades Terapêuticas

Piti Hauer


Segunda Entrevista da série “ESSAS MARAVILHOSAS MULHERES E SEU TRABALHO COM AS DEPENDÊNCIAS E SEU CUIDADO”

 

Laura Fracasso é Psicóloga clínica, especialista em Dependência Química e Mindfulness pela Universidade Federal de São Paulo, atuando nas cidades de São Paulo e Santos. Conselheira do Conselho Deliberativo da Federação Brasileira de Comunidades Terapêuticas (FEBRACT). Gestora técnica por 17 anos no Instituto Padre Haroldo onde implantou o método Comunidade Terapêutica na abordagem de tratamento aos pacientes com transtorno de uso de substâncias (masculino e feminino). Gestora também do Programa Meninos em Situação de Rua durante 5 anos. Sua trajetória em Comunidades Terapêuticas iniciou-se em 1991, no Centro Italiano de Solidariedade (filiado à Federação Italiana de Comunidades Terapêuticas), em Pádua (Itália), onde fez experiência durante 4 meses como residente da comunidade e depois trabalhou por 4 anos.

 

Paraná Portal: 1- Por que é tão difícil Comunidades Terapêuticas para Mulheres? Tabu ou há uma maior complexidade no acolhimento?

Laura Fracasso: A afirmação de que trabalhar com mulheres usuárias de substâncias psicoativas (spa) é mais difícil deve-se ao fato de não termos equipe especializada para tratar as demandas de saúde da população feminina em geral. Em se tratando da mulher que faz uso de spa, existe maior complexidade do agravamento da doença, o que demandará cuidados específicos para cada caso, tanto física como psíquica e socialmente. Outro elemento dificultador é que a mulher, mesmo em uso, habitualmente é a responsável pelos filhos e existem poucas Comunidades Terapêuticas para acolhê-la com seus filhos. A população feminina usuária de spa é vista com maior julgamento e discriminação em comparação com a masculina, inclusive pelos próprios usuários de spa, por uma questão cultural. Temos também a maior vulnerabilidade em relação às doenças sexualmente transmissíveis e às dificuldades de acesso à rede de saúde. Essas são apenas alguns apontamentos que nos remetem a reflexões de como cuidar da população feminina, considerando as especificidades desse público e salientando a necessidade de políticas públicas que, de fato, atendam às demandas para que possamos ter resultados efetivos e não apenas paliativos. Dessa forma, desconstruiremos a crença de que é mais difícil tratar das mulheres usuárias de spa.

 

Paraná Portal: 2- O melhor e o pior em uma Comunidade Terapêutica, em sua opinião?

Laura Fracasso: O melhor em uma CT é a possibilidade da convivência entre os pares e o exercício intenso de mudança de estilo de vida que se dá tanto entre as usuárias como com a equipe que deve servir de referência, modelo no processo de recuperação (considerando que seja uma comunidade terapêutica dentro do modelo e método da abordagem). O pior é ter uma equipe formada por pessoas que não estejam comprometidas com o tratamento das usuárias. Nos 17 anos de gestão no Instituto Padre Haroldo, a equipe sempre foi meu maior desafio pela falta de profissionais competentes e íntegros.

 

Paraná Portal: 3- Quais os três principais requisitos/condições necessárias para uma Comunidade Terapêutica Feminina?

Laura Fracasso: Posso citar a necessidade de especialização na área, comprometimento com a causa feminina e compaixão para com as mulheres e suas necessidades. É importante auxiliarmos as mulheres a interromperem o ciclo de violência física, moral e sexual a que estão submetidas para que possam resgatar a dignidade e a vontade de viver em sobriedade. Participar deste processo é muito especial porque podemos acompanhar um ser humano no exercício de sua cidadania e em plena capacidade de autonomia.

 

Paraná Portal: 4- Quais as maiores dificuldades encontradas em uma Comunidade Terapêutica Feminina? Falta de apoio da gestão pública? Preconceito e estigmatização da Mulher Dependente Química?

Laura Fracasso: As maiores dificuldades estão na falta de políticas públicas para esta população considerando suas necessidades específicas, na ausência de trocas de experiências exitosas e divulgação dos programas com eficácia para que se possa ampliar a rede de atendimento às mulheres e seus filhos e na falta de parceria com a rede de saúde em alguns estados e municípios devido ao posicionamento contrário à abordagem Comunidade Terapêutica por questões ideológicas, desconsiderando o ser humano e seus familiares que necessitam de tratamento.

Quero registrar que essas são algumas das dificuldades com a população feminina e que não estamos considerando a diversidade de gênero nessas discussões e reflexões. No entanto, essa questão está batendo à nossa porta e é imperativo que olhemos para essas necessidades com mais atenção. Uma vez que já há dificultadores para as mulheres cisgêneros e heterossexuais, podemos considerar que são muito maiores e frequentes para quem não se encontra dentro dos padrões ditos convencionais por todo o preconceito que essa população sofre.

 

 

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Piti Hauer
Presidente da Comissão de Políticas sobre Drogas da OAB-PR. Vice-presidente no Conselho Estadual de Políticas Públicas sobe Drogas do Estado do Paraná representando a OAB-PR. Especialista em Dependência Química pela UNIFESP. Professor na Faculdade Bagozzi. 1° Vice-Presidente da Fepact - Federação Paranaense das Comunidades Terapêuticas.