Novo relatório da UNODC sobre as drogas sintéticas e a pandemia

Piti Hauer


Redação do texto por:

Nino César Marchi, psicólogo do Centro de Pesquisas em Álcool e Drogas (CPAD) de Porto Alegre e associado da Associação Brasileira de Estudos sobre o Álcool e Outras Drogas (ABEAD).

Alessandra Diehl, psiquiatra e vice-presidente da Associação Brasileira de Estudos sobre o Álcool e Outras Drogas (ABEAD).

 

Edição do texto: Paraná Portal/UOL, coluna Vamos falar sobre Drogas

 

 

N0 final do ano a UNODC (United Nations Office on Drugs and Crime) divulgou um novo relatório, mais aprofundado, de uma avaliação sobre as drogas sintéticas. O documento é um complemento da análise divulgada no mês de junho e que trazia informações sobre o uso de substâncias no mundo no período compreendido entre 2017 e 2018. As drogas sintéticas, correspondem a uma variedade de substâncias, produzidas em laboratórios e que, em geral, são conhecidas pelas diversas siglas, tais como: MDMA (93,4-methylenedioxy- methamphetamina); NBOMe (N-2-Methoxybenzyl- 2,5-dimethoxy-phenethylamina); GHB (ácido gamma-hydroxy butirato, LSD (Dietilamina do ácido lisérgico), entre outras.

O relatório aponta que nos últimos anos, mais de 1.000 novas substâncias psicoativas (NSP) surgiram nos mercados de drogas ilícitas. O grande número de substâncias e a natureza dinâmica do mercado de NSP representam importantes desafios para a oportuna identificação e o desenvolvimento de respostas adequadas às ameaças emergentes para a saúde pública relacionadas a essa tendência de aumento de drogas sintéticas.

O mercado de drogas sintéticas é único devido à simplicidade, flexibilidade e escalada de fabricação; a disponibilidade de uma ampla variedade de precursores e rotas das drogas sintéticas; a existência de uma grande indústria química e farmacêutica lícita, globalizada, que utiliza substâncias e métodos de produção semelhantes; e sua independência das estações de cultivo e condições ambientais. Com isso a acessibilidade, a disponibilidade e a pureza das drogas sintéticas aumentaram, assim como os danos à saúde associados ao seu uso. A natureza sintética dessas substâncias também permite que os traficantes as comercializem em formas de apresentação cada vez mais diversas, tais como: pós, comprimidos, cápsulas, líquidos, selos, sprays e na forma cristalina. As drogas sintéticas podem, portanto, serem ingeridas, fumadas, inaladas, vaporizadas, cheiradas, injetadas, aplicadas por via sublingual ou usadas como adesivos, supositórios, colírios ou sprays nasais.

O mercado de metanfetaminas se expandiu globalmente durante os últimos anos, sendo que as apreensões mais do que dobrou de 100 toneladas em 2013 para 228 toneladas em 2018. O aumento nas quantidades apreendidas, juntamente com a queda dos preços de varejo e aumento da pureza, apontam para uma dinâmica e crescimento de mercado para esta classe de drogas. No mesmo período, as quantidades anuais globais de anfetaminas apreendidas flutuaram entre 45 e 71 toneladas.

A intenção da UNODC, entre outras finalidades, é investigar como a pandemia interferiu nesse quadro de drogas sintéticas. Ainda não existe um estudo científico epidemiológico concentrado na questão drogas e Covid-19, porque a pandemia é algo recente, mas algumas questões já estão sendo debatidas pelas entidades e especialistas em dependência química.

Assim como os outros mercados, o comércio ilegal de substâncias precisou se reinventar para driblar o confinamento e outras medidas de enfrentamento à Covid-19. Já é possível afirmar que o fechamento das fronteiras causou escassez dos precursores utilizados na fabricação destas substâncias. Esse fator fez os preços de compostos e drogas sintéticas aumentarem. A pureza desses produtos também foi alterada. Imagina-se que, mesmo com dificuldades com o envio de mercadorias pelo correio, o comércio internacional de drogas tenha continuado. A atividade encontrou fluxo por vias marítimas, em grandes contêineres, e aéreas, por meio de jatos particulares, graças ao poder dos cartéis que atuam na venda ilegal desses produtos.

O relatório aponta também que os jovens, as mulheres e as classes sociais menos abastadas, estão entre as populações que pagam o preço mais alto quando o assunto é o consumo de drogas e pandemia. Isto porque a pandemia trouxe uma instabilidade no que diz respeito à saúde física- mental e à empregabilidade sendo que essas ameaças tornaram a camada populacional mais pobre ainda mais vulnerável ao uso de substâncias. O tráfico, inclusive, acaba sendo uma forma de sustento encontrada por algumas pessoas, que enxergam nesse mercado obscuro uma maneira de alavancar a renda.

Esse mercado, por sua vez, também é cíclico e passa por “ondas” e “modismos”. A metanfetamina é uma droga sintética (uma substância psicoativa de ação estimulante do sistema nervoso central, conhecida como como Ice, Tina, Meth, cocaína de pobre, Speed ou cristal) cuja apreensão expandiu nos últimos anos, como aponta o estudo da UNODC. A consequência é o disparo no preço e a pureza do produto, já que esse mercado também está sujeito às falsificações. O uso de compostos desconhecidos pelo público consumidor, torna essas substâncias ainda mais perigosa à saúde. O relatório também mostra que houve crescimento na apreensão de anfetaminas, em formatos de comprimidos, e do ecstasy. O levantamento baseou-se no desmantelamento de laboratórios de drogas sintéticas, em análises epidemiológicas e, também, em técnicas analíticas sofisticadas no sistema de esgoto dos bairros residenciais para averiguar o consumo dessas substâncias.

Outro fenômeno importante que vale ser mencionado é que com o surgimento da pandemia, o distanciamento social como mediada sanitária, o fechamento de bares, boates e eventos de música eletrônica contribuíram para o menor consumo de NSP por jovens nestes espaços, mas provavelmente não impediu este consumo em festas clandestinas e as famosas “resenhas” – reunião de amigos em casas e condomínios, apartamentos e pavilhões abandonados- onde se reúnem para tal prática.

A pandemia causa um “efeito cascata” quando falamos de dependência química. Sabe-se que a Covid-19 causou grande tensão nas relações familiares, exacerbadas com o confinamento, além do temor da crise econômica e da letalidade do vírus, que não permite aos familiares se despedirem de um ente querido em caso de óbito. O estresse causado pelo coronavírus interferiu na busca por medicamentos para combater a insônia, transtornos de ansiedade e pânico. A escassez de opioides farmacológicos também fizeram com que os dependentes desses medicamentos migrassem para o uso de substâncias como álcool, benzodiazepínicos e drogas sintéticas.

Apesar do consumo do ecstasy ter se mantido estável, essa é a droga sintética mais traficada do mundo e a mais manufaturada nas Américas. Além disso, a versão mais recente do levantamento da UNODC traz outra informação alarmante: mais de 1000 novas substâncias psicoativas emergiram no mercado. Isso traz novos desafios para quem trabalha em emergências médicas e também aqueles que trabalham no controle de demanda e oferta de substâncias ilegais. Essas drogas ilícitas são fabricadas de forma caseira e clandestinamente. Com isto tem se descoberto novos compostos que essas substâncias contêm e juntamente com eles também uma infinidade de reações adversas que causam ao organismo. São convulsões, danos neurológicos, cardio-toxicidade, além de desidratação, hipertermia e problemas psiquiátricos. Daí a dificuldade de manejar esses riscos, reduzir danos e prevenir que novos usuários jovens façam uso e experimentação que pode evoluir para dependência.

 

A Pandemia exige novo olhar para a dependência

 

Os governos, no mundo todo, e especialmente no Brasil, precisam olhar para medidas sanitárias e intervenções médicas para proteger essas pessoas. “Notamos, na última década, redução de verbas para prevenção e tratamento ambulatorial para dependência química. E não é só isso. A Covid-19 trouxe com ela a crise no sistema de saúde. Faltam leitos, diminuíram as consultas, equipamentos, médicos e outros especialistas. Entre os dependentes, entre 15% e 20% têm a possibilidade de receber tratamento adequado, mas nem essa porcentagem consegue ser contemplada neste momento.

Sobre a adoção de políticas públicas que podem ser aplicadas para diminuir a prevalência de uso de drogas sintéticas sugere-se a interface entre pesquisas de universidades, com verbas públicas e de instituições privadas. Precisamos de projetos coordenados por especialistas em toxicologia, drogas, políticas públicas, profissionais de perícias, especialistas forenses sobre técnicas para detecção rápida, triagem e confirmação e melhorar o diagnóstico precoce, e também envolver aqueles que estão no front de atuação no controle e prevenção- as famílias e os educadores.

A segunda orientação diz respeito às questões sócio econômicas: a queda da pobreza, acesso à educação de qualidade e o fortalecimento do estado de direito poderá contribuir e arrefecer a diminuição do mercado de drogas ilícitas, queda da violência, entre outros problemas interligados ao uso de substâncias e tráfico de drogas.

 

O relatório pode ser acessado na integra no link abaixo:

https://www.unodc.org/documents/scientific/Global_Synthetic_Drugs_Assessment_2020.pdf

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Piti Hauer
Presidente da Comissão de Políticas sobre Drogas da OAB-PR. Vice-presidente no Conselho Estadual de Políticas Públicas sobe Drogas do Estado do Paraná representando a OAB-PR. Especialista em Dependência Química pela UNIFESP. Professor na Faculdade Bagozzi. 1° Vice-Presidente da Fepact - Federação Paranaense das Comunidades Terapêuticas.