O APARTHEID CURITIBANO

Piti Hauer

  Desigualdade social …

      Um morava na Rua do Meio.
      O outro no meio da rua.

                                  Jessier Quirino

 
 
Na madrugada desta sexta para sábado um incêndio arruinou, devastou a Vila Corbélia na CIC. A prefeitura afirma que 100 habitações foram queimadas, já o Corpo de Bombeiros relata a devastação de quase 300 casas pelo fogo. No dia anterior a destruição da Vila um policial foi assassinado e, o que se seguiu, foi uma forma de expulsar seus moradores daquela localidade, já que esta era de ocupação mas, a corrente dominante, é que o incêndio foi uma retaliação aos traficantes, segundo depoimento de Tenente da PM, ou seja, este foi o “MOMENTO SUBLIME DE COMBATE ÀS DROGAS EM CURITIBA.”
As imagens, filmagens e fotografias do ocorrido me remetem a uma época triste da História Humana, o Apartheid na África do Sul, aquele regime de segregação ocorrido durante os anos de 1948 a 1994. A lembrança vem, não somente pela semelhança do fogo nos barracos, mas, principalmente, pela privação da cidadania, da Saúde, da Educação e de diversos outros serviços públicos que o Estado e o Município deveriam oferecer e, o principal, o direito à moradia consolidado em nossa Constituição em seu artigo 6º “São direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia…”.  Ademais, é objetivo fundamental, conforme artigo 3° de nossa Carta Magna, “Erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais.” 
    
É até irônico essa barbárie na Vila Corbélia verificar-se de sexta para sábado, logo após o encerramento da Conferência Municipal sobre Drogas de Curitiba e, embora o evento tenha primado pela organização e debate de ideias, o que prevalece, infelizmente, é o direcionamento, viés da bala e da borracha, o negócio é enquadrar e se não der mais para enquadrar…mete fogo, literalmente. Nunca antes houve tanta miséria e desigualdade social e esses dois fatores são a mola mestra para a proliferação do tráfico, este se reproduz como coelho entre crianças e adolescentes que não têm nada, em que o Estado nada oferece e, na oportunidade, de ganhar um bom dinheiro na operacionalização no mercado de drogas frente a um estudo e trabalho, é lógico, que essas crianças e adolescentes preferem o primeiro, pois a segunda é uma miragem, uma fake news. Ninguém nunca lhes deu alguma coisa, mas o traficante lhe dá uma chance e uma arma… é tudo o que desejam.
 
Então, nesta época de confraternização e de Paz, o que vemos? Curitiba está sublime em sua iluminação, temos desfiles majestosos, shoppings suntuosos em suas decorações, árvores Natalinas magníficas, trens e caminhões imponentes em suas andanças pelo novo asfalto da cidade. SIM, temos tudo isso (e que bom), mas toda esta festa acaba, no máximo, no dia 06 de janeiro, dia dos Reis, esses mesmos Reis que presentearam Jesus em sua manjedoura, e qual o presente que os munícipes curitibanos irão receber e herdar? A ausência de Políticas Sociais Inclusivas, uma Política Pública de Drogas baseada na repressão e não no tratamento, no cuidado e prevenção continuada, a segregação e estigmatização de usuários de drogas, a supressão de serviços de Saúde Mental, a falta de segurança pela insuficiência de educação e de locais próprios para o ensino e a intolerância de gestores. Fica difícil desejar Feliz Natal, pois como dizia Saramago: “Se tens um coração de ferro, bom proveito. O meu, fizeram-no de carne, e sangra todo dia”.
Post anteriorPróximo post
Piti Hauer
Presidente da Comissão de Políticas sobre Drogas da OAB-PR. Representante da OAB-PR no Conselho Estadual de Políticas Públicas sobe Drogas do Estado do Paraná. Especialista em Dependência Química pela UNIFESP. Professor na Faculdade Bagozzi. 1° Vice-Presidente da Fepact - Federação Paranaense das Comunidades Terapêuticas.
Comentários de Facebook