A covid depois da alta hospitalar: pacientes têm acompanhamento por seis meses

Martha Feldens

Covid tem acompanhamento por 6 meses

Teve covid-19, recebeu alta, testou negativo para o coronavírus mas ainda sente muitos efeitos da doença? Você não está só. Grande parte dos infectados que desenvolvem a doença mantém sintomas por muito tempo. Um estudo divulgado esta semana pelo Hospital São João, do Porto, em Portugal, acompanhou 2 mil pacientes após a alta hospitalar. E concluiu que entre 25% e 30% deles sentem os efeitos da covid mesmo depois de 8 meses da alta hospitalar. 

 

Por aqui ainda não temos um estudo preciso, mas a preocupação com os sintomas que seguem com os pacientes liberados já provocou iniciativas para um melhor acompanhamento do pós-covid. O Complexo Hospitalar Cajuru, em conjunto com a faculdade de medicina da PUC, criou um ambulatório especialmente dedicado a esse acompanhamento. O trabalho é feito no Hospital Nossa Senhora da Luz, no Rebouças, e agora está aberto a pacientes que foram atendidos em hospitais do SUS.

 

Estudo da covid em todas as fases

 

Quem coordena o ambulatório da PUC é a médica pneumologista Rebecca Stival. Estudiosa da doença desde que ela apareceu no Brasil no começo do ano passado, ela foi médica voluntária em Manaus na primeira onda da covid. Tem trabalhado no atendimento a pacientes em praticamente todas as esferas, desde a domiciliar, passando pela emergência, enfermaria, terapia intensiva e no acompanhamento pós alta.

 

Com essa bagagem, Rebecca juntou um grupo de profissionais para fazer frente às muitas necessidades desses pacientes que recebem alta. Na equipe, além dela, há médicos especialistas em neurologia, nefrologia, dermatologia, oftalmologia e cardiologia, além de profissionais de fisioterapia, fonoaudiologia, nutrição e psicologia, entre outros. “Para cada paciente, há de 20 a 30 profissionais envolvidos na sua recuperação”, conta Rebecca.

 

“Uma parcela dos pacientes tem sintomas persistentes, tanto que se fala em síndrome pós-covid. Por isso é necessário esse acompanhamento”, explica a coordenadora do ambulatório da PUC. Já se sabe, por exemplo, que a doença pode afetar por mais tempo, além dos pulmões, o coração, o olfato, o paladar, a capacidade de deglutição e a fala ( principalmente nos pacientes que passam por intubação). Além disso, normalmente quem deixa o hospital após longa internação está muito fraco e precisa de um intenso trabalho de fisioterapia.

 

O profissional mais demandado da covid é o psicólogo

 

Nem todos os pacientes precisam de todos os profissionais da equipe. Mas entre todos os integrantes dessa equipe interdisciplinar, segundo Rebecca, o profissional que precisa estar presente no atendimento em 100% dos casos é o psicólogo. “O doente traz consigo uma carga emocional muito forte. Tem muita ansiedade, insônia”, conta a médica. 

 

Mais que isso, traz consigo um sentimento grande de culpa por ter ficado doente e às vezes transmitido o vírus, ou a necessidade de achar um culpado por ter contraído a doença. “Todo paciente lida com a culpa”, diz.

 

Como funciona o ambulatório

 

Para o acompanhamento após a doença, o paciente deve ser encaminhado pelo médico responsável pela alta hospitalar. No caso de pacientes que já estão em casa há mais tempo, mas ainda queiram fazer esse trabalho, o encaminhamento poderá ser feito pelo médico da Unidade Básica de Saúde. Não são aceitos pacientes que procurem diretamente o ambulatório.

 

Em uma primeira consulta, o paciente passa por exames e por profissionais de acordo com sua necessidade, ele volta para casa com indicação de tratamento e exercícios. Dois meses depois, ele retorna e repete exames e consultas. A mesma rotina se dá após seis meses da alta.

 

A função social do paciente

 

Rebecca Stival explica que mais que atender aos pacientes, o ambulatório serve como local de aprendizado dos médicos, profissionais e estudantes da PUC. “Estamos todos aprendendo. O paciente da covid tem também uma função social de ensinar aos profissionais sobre uma doença que ainda está em estudo”, diz ela.]

 

A médica reforça que a covid não tem tratamento, nem antes, nem durante, nem depois da internação. “O que nós oferecemos é suporte para que paciente enfrente a doença. Tanto nos hospital, durante a internação, como no ambulatório, depois, o que fazemos é dar suporte para que o doente consiga se curar. E isso sempre é feito com uma equipe que envolve muita gente. Não há apenas um médico responsável, um único profissional que resolva a situação. Não tem milagre”, explica.

 

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