Alemães criam mais de mil palavras para expressar situações da pandemia

Carolina Vila-Nova, Folhapress

alemães inventam palavras sobre pandemia

O vaivém de decisões sobre abrir ou fechar determinado tipo de estabelecimento ou setor da economia para frear a pandemia de Covid -e a consequente confusão criada na cabeça das pessoas- não foi exclusividade brasileira. Na Alemanha, a prática ganhou um termo próprio: “Auf-zu-auf-zu”, ou “Yo-yo”.

Os alemães também não gostaram desse lockdown que sofre sucessivas extensões, o “Salamilockdown”. A palavra inglesa, aliás, não só foi adotada como virou verbo germanizado: quem ficou de lockdown ficou “Gelockdownt” -em português seria algo como “lockdownzado”. E ganhou algumas variáveis, como “Flockdown”: quando neva tanto que você tem que ficar dentro de casa de qualquer maneira.

Com a vacinação a passos lentos, sob o ponto de vista da expectativa da população -11,3% receberam uma dose até 31 de março- e devido à polêmica em torno da aplicação do imunizante da Oxford/AstraZeneca, andou rolando por lá uma certa dose de “Impfneid”: inveja de quem já foi vacinado.

Pelo seu comportamento de não usar máscaras em locais públicos, provocar aglomerações e dificultar a aquisição de vacinas, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) provavelmente seria chamado de “Virusbomber”: aquela pessoa ou instituição que ajuda na disseminação da Covid.

A língua alemã é conhecida por ter palavras imensas e impronunciáveis, normalmente formadas pela junção de duas ou mais para descrever algo novo de maneira específica e expressar emoções complexas. Na pandemia, os alemães parecem ter sentido a urgência de se comunicar de modo ainda mais preciso.

O Instituto Leibniz de Língua Alemã (IDS) compilou mais de 1.200 novas palavras relacionadas à crise da Covid-19 surgidas apenas em 2020 (o leitor deve aguardar atualizações ao fim deste ano). Normalmente, são compiladas cerca de 200 palavras novas por ano.

Muito dessa nova linguagem reflete práticas que surgiram com a pandemia: “Abstandbier” (tomar cerveja mantendo o distanciamento), “Geisterveranstaltung” (eventos “fantasma”, sem a presença de público), Autokonzert (shows de música que você pode acompanhar de dentro do carro), “Coronafrisur” (aquele corte de cabelo feito em casa) ou ainda “Schaufenster shopping” (comprar só olhando pela vitrine).

As variações em torno da palavra máscara são inúmeras. Aquele seu vizinho que se recusa a usá-la é o “Maskenmuffel” (resmungão da máscara) ou “Maskentrottel” (idiota da máscara). E o que cobre só a boca vai ser chamado de “Nacknase”, nariz pelado.

O artefato mesmo pode ser chamado de “Mundschutz” (proteção bucal) ou ainda “Mundnasenschutz” (proteção orofacial). Uma máscara improvisada será chamada de “Behelfsmundnasenschutz”, e ainda surgiu o termo “Gesichtskondom”, camisinha facial.

“Não consigo pensar em nada, pelo menos desde a Segunda Guerra, que tenha mudado o vocabulário tão drasticamente e tão rapidamente como a pandemia”, afirmou o professor de linguística da Freie Universität Berlin Anatol Stefanowitsch ao Washington Post. “Posso pensar em muitos exemplos em que uma grande mudança cultural modificou o vocabulário alemão. Mas não em questão de meses.”

Stefanowitsch explica que nem todas essas palavras serão dicionarizadas. Para ele, aquelas com significado mais preciso têm mais chance de prosperar, como “Kontaktbeschränkungen”, restrições de contato, e “Ausgehbeschränkungen”, restrições de circulação.

“Essas palavras são interessantes porque mostram a função da linguagem e o potencial da linguagem de criar distinções cada vez menores para tentar dizer as coisas corretamente.”

Já para a colunista da revista Der Spiegel Samira El Ouassil, as novas palavras são um reflexo do espírito alemão que ama ordem, organização e estabilidade. “Palavras como ‘checagem do distanciamento’ e ‘higiene da tosse’ (…) são o vocabulário de uma sociedade que deveria navegar por uma pandemia muito melhor do que o faz”, escreveu. “Talvez aí esteja o problema: essa administração sólida, de que a Alemanha se orgulha, é incompatível com uma situação de crise fluida, que exige ajuste imediato.”

A nova linguagem também evidencia aspectos emocionais importantes relacionados à pandemia. “Coronamüdigkeit” (cansaço do corona), “Pandemüde” (cansado da pandemia) e “Coronaangst” (medo ou ansiedade do corona) foram algumas das expressões compiladas.

“Quando coisas novas acontecem no mundo, buscamos um nome para elas”, afirmou Christine Möhrs, pesquisadora do Leibniz, ao jornal britânico The Guardian. “Coisas que não têm um nome podem provocar medo e insegurança nas pessoas. Mas se falamos sobre as coisas e damos um nome a elas, então podemos nos comunicar. Especialmente em momentos de crise, isso é importante.”

A equipe da qual ela faz parte compila palavras a partir de menções na mídia, nas redes sociais e na internet de modo geral. “A linguagem tem poder. Vemos repetidamente como é importante formular com precisão e ser muito cuidadoso com as palavras que escolhemos. Palavras transmitem não apenas conteúdo, mas emoções e sentimentos. E os falantes devem ter consciência disso.”

A palavra preferida dela é “CoronaFußgruß”, para quando duas pessoas se cumprimentam tocando os pés -devido à sonoridade e porque mostra “o desejo humano por uma conexão”.

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