Aplicativo do Ministério da Saúde estimula usar hidroxicloroquina para tratar Covid até em bebês

Raquel Lopes - Folhapress


Na contramão do que dizem entidades médicas, o Ministério da Saúde lançou neste ano o aplicativo TrateCOV, que sugere a prescrição de hidroxicloroquina, cloroquina, ivermectina, azitromicina e doxiciclina, a partir de uma pontuação definida pelos sintomas do paciente após o diagnóstico de Covid-19.

O aplicativo, indicado para auxiliar os profissionais de saúde na coleta de sintomas e sinais de pacientes contra a Covid-19, receita hidroxicloroquina em qualquer idade, não importa se for bebê ou idoso.

Entretanto, a Associação Médica Brasileira (AMB) e a Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) alertaram em uma nota conjunta que as evidências científicas demonstram que nenhuma medicação tem eficácia na prevenção ou no tratamento precoce.

“Pesquisas clínicas com medicações antigas indicadas para outras doenças e novos medicamentos estão em andamento. Atualmente, as principais sociedades médicas e organismos internacionais de saúde pública não recomendam o tratamento preventivo ou precoce com medicamentos, incluindo a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária)”, disse em nota.

No site do Ministério da Saúde a informação é de que o TrateCOV sugere algumas opções terapêuticas disponíveis na literatura científica atualizada, sugerindo a prescrição de medicamento. A intenção é oferecer um tratamento precoce com uso de medicações antivirais.

O próprio ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, lançou o aplicativo em Manaus. Até o momento, 342 profissionais já foram habilitados. A intenção é ampliar o uso para outras regiões do país.

Apesar do lançamento, o ministro tem mudado o discurso. Ele disse, nesta segunda-feira (18), que a pasta não tem protocolo sobre uso de medicamentos como a hidroxicloquina contra a Covid-19.

“Nós defendemos, incentivamos e orientamos que a pessoa doente procure imediatamente o posto de saúde, procure o médico. E o médico faça o diagnóstico clínico do paciente. Este é o atendimento precoce. Que remédios o médico vai prescrever, isso é foro íntimo do médico com seu paciente. O ministério [da Saúde] não tem protocolos sobre isso, nem poderia ter. Não é missão do ministério definir protocolo para o tratamento. Tratamento é uma coisa, atendimento é outra”, declarou Pazuello, em coletiva de imprensa.

Uma das primeiras missões de Pazuello quando assumiu a Saúde interinamente foi ampliar o uso da hidroxicloroquina para o tratamento contra a Covid, o que havia levado à saída de seu antecessor, Nelson Teich.

A pasta também já divulgou um gráfico em que associava, de forma errônea, a redução de mortes por Covid a uma primeira versão do documento (de maio do ano passado), citando como “tratamento precoce”.

O presidente Jair Bolsonaro é um defensor do uso de cloroquina, ivermectina e azitromicina para o tratamento contra a Covid.

No sábado (16), o Twitter marcou como enganosa e potencialmente prejudicial uma publicação do Ministério da Saúde que colocava o “tratamento precoce” como estratégia de combate ao coronavírus.

Na manhã desta segunda, mesmo após diretores da Anvisa terem dito no domingo (17) que não há alternativa terapêutica contra a doença, Bolsonaro voltou a defender o tratamento precoce.

“Não desistam do tratamento precoce. Não desistam, tá? A vacina é para quem não pegou ainda. E esta vacina que está aí [Coronavac] é 50% de eficácia. Ou seja, se jogar uma moedinha para cima, é 50% de eficácia. Então, está liberada a aplicação no Brasil”, disse Bolsonaro a apoiadores.

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