Após batalha contra a Covid-19, dentista cria projeto que ajuda pacientes com sequelas

Mirian Villa


Após um ano que a OMS (Organização Mundial da Saúde) declarou a pandemia da Covid-19, e o Brasil registrar a marca de 12.489.232 casos confirmados e  310.694 mortes, uma parcela da população ainda acredita que apenas pessoas com comorbidades sentem na pele os sintomas mais graves do vírus.

Raquel Trevisi, de 39 anos, foi infectada pelo coronavírus no dia 7 de setembro de 2020. A dentista levava uma vida considerada saudável antes da contaminação: realizava exercícios físicos regularmente, não bebia e se alimentava de maneira equilibrada. Além disso, não tinha doenças pré-existentes.

“Eu me cuidava muito e fazia isolamento social, até os treinos eu realizava em casa. No dia 7 de setembro percebi que havia algo errado com o meu corpo”, detalha.  Os primeiros sintomas foram febre e dor no corpo. Após 48 horas, os indícios de contaminação pioraram e ela precisou de atendimento médico.

No total, foram 30 dias de internação, 20 deles na UTI (Unidade de Terapia Intensiva). A dentista teve 85% dos pulmões comprometidos, trombose no braço e na perna, infecção e foi intubada duas vezes.

Reprodução Instagram/Raquel Trevisi

Ainda no hospital, uma das questões que assombravam Raquel era os tratamentos que teria que realizar após receber alta. Em uma conversa com a chefe de enfermagem do hospital, ainda no leito, ela percebeu que muitas pessoas não recebem a assistência necessária pós-covid.

“Tive alta apenas movimentando o pescoço, posso até dizer que saí com um quadro de tetraplegia temporária”, relembra.

Raquel recebeu alta com 25 quilos a menos e sem conseguir andar sozinha. Em sua casa, o tratamento continuou: ela fez fisioterapia, teve auxílio de uma nutricionista para adequar sua suplementação, além de uso contínuo de remédios.

“Calculo que só no primeiro mês fora do hospital, gastei em torno de R$ 10 mil. Eu tenho consciência de que fui muito privilegiada porque tenho minha família, plano de saúde”, explica.

PROJETO COM.VIDA: DENTISTA AUXILIA 

Depois que conseguiu voltar a andar e se recuperou 90% da Covid-19, Raquel foi surpreendida com a notícia de que seu pai havia sido infectado pelo novo coronavírus. Assim como a filha, Hugo Trevisi, de 72 anos, não tinha comoborbidades.

Apesar de todos os esforços médicos, seu pai não sobreviveu. E apenas dez dias depois ela criou o Projeto Com.Vida. A ideia que surgiu durante sua internação atende, agora, mais de 12 famílias.

“Eu sempre me preocupei com quem não tinha acesso a tudo isso. Pois uma situação como essa adoece a família inteira, desestabiliza e desestrutura a todos. Era como se cuidar da dor dos outros amenizasse a dor de perder o meu pai”, justifica.

O objetivo do projeto é possibilitar que pessoas que não possuem meios financeiros também recebam atenção e cuidado que merecem. “Somente quem passa por essa doença, e dessa forma mais grave, sabe a angústia e o sofrimento que é. Quanto é preciso, além da recuperação, o acolhimento, amor e esperança.”

Os pacientes atendidos pelo Projeto Com.Vida recebem atendimento de fisioterapeutas, fonoaudiólogos, psicólogos, médicos, enfermeiros, nutricionistas, além de medicamentos e exames. “Tudo sem custos e de forma voluntária”, explica Raquel.

Mas o auxílio vai além, os familiares -que são a rede de apoio-também recebem atendimentos, já que eles também sofreram com a incerteza da internação. “Uma situação como essa adoece a família inteira, desestabiliza e desestrutura a todos”, diz a dentista.

De acordo com a psicóloga voluntária Luciana Deutscher, o trabalho é realizado em conjunto para a família para que o tratamento seja mais efetivo. “Muitas vezes a família fica com medo e não deixa o paciente fazer coisas simples, como lavar uma louça. Por isso é tão importante o estímulo, o olhar do outro, o apoio.”

As famílias recebem apoio do Com.Vida por 30 dias e depois, dependendo da avaliação dos profissionais, a pessoa é indicada a continuar o tratamento no serviço público de saúde, já que alguns pacientes precisam entrar com medicação.  “Nesse um mês a gente tenta deixar o paciente o mais confortável possível, para conseguir avançar mais essa etapa da Covid-19”, diz Luciana.

De acordo com Raquel, mais de 100 pacientes já realizaram o pré-cadastro para participar da triagem realizada pela equipe de voluntários. A ficha, preenchida pela internet, é analisada pela dentista e um médico.

“Observamos se ele se encaixa nos critérios que estabelecemos porque, infelizmente, é impossível atender a todos. Em seguida, avisamos no grupo com profissionais para ver quem pode atender o caso”, explica.

Um dos critérios é atender pacientes que tiveram sintomas graves da Covid-19 e ficaram com sequelas. Por enquanto, a maioria dos atendimentos é feito por telemedicina, mas a ideia de expandir o projeto para outras cidades é estudado.

“Não sou a mesma pessoa e nem almejo ser quem eu era antes. É preciso aceitar que, depois da doença, a gente realmente renasce e nada vai ser do mesmo jeito”, finaliza Raquel.

Você pode acompanhar o Projeto Com.Vida e se inscrever através das redes sociais (clique aqui). Também é possível se inscrever como voluntário ou fazer doações.

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