Coronavírus
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Autópsia: cientistas buscam com os mortos caminhos para entender a covid-19

Por meio do procedimento conhecido como autópsia minimamente invasiva, cientistas buscam com os mortos respostas que pos..

Martha Feldens - 18 de julho de 2021, 08:00

Foto: Carol Garcia/GOVBA
Foto: Carol Garcia/GOVBA

Por meio do procedimento conhecido como autópsia minimamente invasiva, cientistas buscam com os mortos respostas que possam ajudar os vivos a abrir caminhos para o tratamento da covid-19, doença que já matou mais de 540 mil brasileiros.

Uma equipe de 12 pessoas, entre pesquisadores, médicos, estudantes e funcionários de áreas técnicas e de assistência social da Fiocruz Bahia e do hospital Instituto Couto Maia, em Salvador (BA), trabalha para ajudar a ciência a entender o que acontece com os órgãos de quem morre por covid-19. Trata-se do projeto COVPEM.

Órgãos examinados e o que a equipe da Fiocruz/BA encontrou até agora:

  • Pulmão: comprometimento do tecido pulmonar. Tem alguma semelhança com lesões provocadas por outras condições virais ou sepse, ou ainda por situações que quase afogamento, queimadura ou inalação de substâncias tóxicas. Lesões relacionadas com a covid-19.
  • Baço: observada redução de linfócitos responsáveis pela defesa imunológica, com graves consequências ao paciente, que fica com a defesa debilitada. Também relacionada com a covid.
  • Coração: lesões e alterações que podem não ter relação direta com a covid. Há apenas suspeitas de que a covid-19 possa estar envolvida nas lesões observadas.
  • Rins: alterações que também não se têm certeza de que advenham da covid. Podem também ter relação com o tratamento dos casos mais graves da doença.
  • Fígado: como no baço, foram observadas alterações em relação ao sistema imune. Mas ainda não foi encontrado qualquer fenômeno que pode ser associado à covid.
  • Pâncreas: foi feita coleta de tecido pancreático em apenas três casos. A análise histológica nesses casos não revelou algum aspecto importante. Um desses três casos precisa de análises adicionais para entender melhor o que foi encontrado.
  • Músculo-esquelético: foram colhidas amostras de diafragma e músculos das pernas e braços. A equipe encontrou fibras lesionadas ou em fase de recuperação de lesão; inflamação crônica, provavelmente relacionadas à covid.
  • Cérebro: foram examinadas amostras de apenas dois casos. Equipe não encontrou alteração que possa atribuir diretamente à covid-19. Mesmo em relação a alterações em vasos sanguíneos, já descritos no acompanhamento de pacientes, não houve comprovação.
  • Pele: de maneira-geral, foram encontrados casos de dermatite discreta, que pode estar relacionada à doença. Também houve trombose de vasos da pele.

O futuro do projeto

A equipe liderada por Washington Santos pretende estender o prazo do projeto COVPEM além do período da pandemia de covid-19. A intenção é que a autópsia siga sendo utilizada para identificar consequências de outras doenças. Segundo Geraldo Gileno, a ideia é treinar equipes para usar a técnica em vigilância epidemiológica na região.

“Precisamos de dados baseados na região. Vivemos uma região com características diferentes, uma comunidade com o maior contingente de afrodescendentes do país, com seu perfil genético”, Washington Santos, coordenador da pesquisa da Fiocruz/BA