Covid-19: a dor do luto de famílias que entraram para a estatística

Mirian Villa


Nesta segunda-feira (15), o Brasil registrou 528 novas mortes por Covid-19. A Sesa (Secretaria do Estado da Saúde) divulgou no último boletim que 27 pessoas perderam as vidas em decorrência da infecção causada pelo vírus.

Desde março do ano passado, 239.773 brasileiros morreram por causa do coronavírus. No Estado, 10.683 paranaenses deixaram seus familiares, amigos e colegas depois de lutar contra o Sars-CoV-2.

Raquel Pereira Shono, de 63 anos, entrou para uma estatística que ninguém quer entrar: perdeu seu filho para o coronavírus. Luis Felipe, de 31 anos, foi contaminado com o vírus quando realizava tratamento para leucemia, em julho de 2020.

“Muitas pessoas falam assim “ah, mas ele estava doente”, “ele estava debilitado”. Não…quem matou foi a covid, ele é vítima da covid”, argumentou Raquel.

Manaus - covid - coronavirus - sepultamento - cemiterio
Manaus 15.05.20 -Sepultamento de vítimas da Covid-19 no Cemitério Nossa Senhora Aparecida (Alex Pazuello/Semcom)

O processo de luto e a despedida também foram  modificados em meio à pandemia da Covid-19. Como protocolo do Ministério da Saúde, “os velórios e funerais de pacientes confirmados ou suspeitos não são recomendados”.  Além disso, a urna funerária deve ficar fechada durante toda a cerimônia.

Para a professora da UFPR (Universidade Federal do Paraná), Joannelise de Lucas Freitas, que coordena o projeto “Luto: vivências e possibilidades”, não ver o corpo do ente querido e se despedir adequadamente impacta no processo.

“A gente tinha isso, normalmente, em casos de acidente de automóvel que é violento ou quando a pessoa desapareceu. A gente já sabia que não ter contato com o corpo, não poder se despedir adequadamente, causava impacto e isso começou a aparecer com bastante clareza nos enlutados pela Covid-19.”

“A CADA PESSOA QUE MORRE, QUATRO PESSOAS TEM SOFRIMENTO DE LUTO”

O projeto da UFPR existe há 10 anos e reúne enlutados, que participam de até seis encontros, uma vez por semana e dividem o processo de perder um familiar.

Com o início da pandemia da Covid-19, Joannelise pensou no impacto da pandemia sobre a saúde mental, na questão do enlutamento, por isso, abriu turmas para familiares das vítimas fatais do vírus.

“Eu percebi nessas conversas que tinha alguma coisa diferente no luto da Covid e pensei “a gente pode calcular que a cada pessoa que morre, quatro pessoas tem sofrimento de luto. Aí pensei “Por que não juntar o projeto com o luto da Covid-19 para entender e conseguir instruir os profissionais.”

A professora deixa claro que cada pessoa vive o luto de uma forma, não existem regras. Durante as conversas com os enlutados do coronavírus, a rapidez de como a morte chegou é um dos grande questionamento.

“Os enlutados falam muito sobre a rapidez com que a pessoa morre. “Ela entrou bem no hospital e depois eu nunca mais a vi” ou “a sensação que eu tenho é que meu parente foi arrancado”. Isso produz um luto que acaba se tornando mais difícil, a sensação de que tudo vai voltar ao normal.”

Esse é um dos pontos, segundo a professora, que fica mais forte e mais difícil a aceitação da morte pela Covid-19. Outro aspecto recorrente é o questionamento sobre os cuidados para não ser contaminado, que a conscientização da vítima fatal e dos familiares não foi suficiente.

“Existe uma sensação de que há coisas que poderiam ter sido feitas para que a gente evitasse tantas mortes e não foi feito. Houve uma omissão geral da sociedade como um todo, não só dos governos. As pessoas que sentem essa omissão se sentem revoltadas, elas dizem “vejo em volta e as pessoas não se cuidam, será que as mortes não valeram de nada?”.”

Daniela Justino de Lima perdeu seu marido para a Covid-19 logo após dar à luz ao filho do casal. “Apesar de tomar os cuidados de distanciamento, usar máscara e higienizar as mãos, ele contraiu a doença. Não sabemos ao certo como foi.”

Outro ponto importante são as fake news, segundo a professora, notícias falsas de que caixões estavam com pedra ou de pessoas que tinham “ressuscitado” após a morte não facilitam o luto.

“Quando você não concretiza, não vê o corpo, não pode se despedir, você cria espaço para fantasias, que são normais no luto. Notícias sobre gente que não tinha morrido colocam em foco pensamento como “será que eu enterrei o meu parente?”, “era ele/ela mesmo?”. Os outros enlutados sentem isso, mas de maneira rápida. Para os Covid, essa sensação é mais persistente, de que a pessoa pode voltar a qualquer momento”, explicou.

APOIO DE FAMILIARES E AMIGOS COM O ENLUTADO DURANTE A PANDEMIA DA COVID-19

O apoio de familiares e amigos durante a pandemia da Covid-19 também foi modificado. Antes, abraços expressavam muito mais que palavras, mas agora o distanciamento é um sinal de amor, por isso, telefonemas e mensagens são alternativas que restaram.

Reprodução/Cartilha – Como ajudar alguém em luto

“Todo luto progride melhor com apoio social, mas muitas pessoas não sabem como dar esse apoio sem estar do lado. É muito difícil manter em uma ligação uma conversa mais acolhedora. Essas pessoas ficam sem suporte, sem apoio, sem escape, e isso também influencia no luto, na rapidez.”

Pensando nisso, alunos da UFPR produziram uma cartilha para auxiliar pessoas que queiram dar suporte para os enlutados, que lembra que cada luto é individual e não existe uma regra para sentir essa dor e atravessá-la.

“Sofrer por uma perda é normal. Mesmo que se queira, não controlamos tudo o que sentimos. Chorar, falar somente
sobre o luto, pensar nisso o dia inteiro é natural e faz parte do processo. Por isso, tentar evitar que o enlutado sofra,
nem sempre ajuda”, relembra o material.

COMO AJUDAR UMA PESSOA EM LUTO?

  • quando a pessoa falar como se sente, escute com atenção;
  • pergunte como a pessoa tem se sentido;
  • não se preocupar em saber o que falar, o importante é mostrar que você está junto da pessoa enlutada;

Outro ponto importante no momento da ajuda é não fazer exigências ou pressionar algum tipo de ação no enlutado. “Parece que tudo o que o enlutado faz, não serve. As pessoas começam a cobrar ações e é nesse sentido que eu digo “se conheça, permita que o seu sentimento seja expressado, não tenha medo, eles não normais.”

“O enlutado precisa expressar o sentimento, ter espaço para falar. O ideal é que ela tenha alguém que possa confiar, que possa escutá-la de verdade”, reforça Joannelise.

Leia a cartilha “Como ajudar alguém em luto” clicando aqui!

PRECISAMOS FALAR SOBRE A MORTE

De acordo com uma pesquisa realizada pelo Sincep (Sindicato dos Cemitérios e Crematórios Particulares do Brasil”, em 2018, falar sobre a morte é considerada um tabu para mais de 73% dos brasileiros.

A pesquisa escutou mil brasileiros, dos quais 48,6% não estavam preparados para lidar com a morte de outra pessoa; 30,4% têm muito medo de morrer e 30,4% não sabem como ou com quem falar sobre a morte.

Dez por cento acredita que falar sobre a morte, pode atraí-la. Os dados mostraram que 32,5% de pessoas com mais de 55 anos conversavam sobre a morte, entre os jovens, o número cai para 21%.

“A morte, apesar de estar presente em nossas vidas, é pouco falada e quando acontece, nos abala profundamente. Acredito que se fosse melhor discutida, talvez teríamos uma melhor aceitação”, contou Daniela.

Para Raquel, o luto e a morte parece um tabu. “Poucas pessoas falam sobre isso, ainda parece um tabu. Eu acredito que tem que ser discutido, falado mais. Eu mesma, depois de participar do grupo sou mais aberta. Aceitar a morte é difícil, ninguém está preparado, mas falar sobre ajuda.”

O projeto “Luto: Vivências e Possibilidades” está com as inscrições encerradas. A expectativa é que uma próxima turma seja aberta a partir de maio. Quem tiver interesse, pode acompanhar informações através da página do Facebook (clique aqui).

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