Coronavírus
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Falas de Bolsonaro incentivam crimes contra a Anvisa, diz chefe da agência

Antes conselheiro do governo na pandemia, o contra-almirante e chefe da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária..

Raquel Lopes - Folhapress - 01 de janeiro de 2022, 10:01

BRASÍLIA,DF,10.11.2020:ANVISA-COLETIVA-SOBRE-TESTES-CORONAVAC - O diretor-presidente Antônio Barra Torres durante coletiva de imprensa da Anvisa sobre a CoronaVac, em Brasília (DF), nesta terça-feira (10). (Foto: Fátima Meira/Futura Press/Folhapress)
BRASÍLIA,DF,10.11.2020:ANVISA-COLETIVA-SOBRE-TESTES-CORONAVAC - O diretor-presidente Antônio Barra Torres durante coletiva de imprensa da Anvisa sobre a CoronaVac, em Brasília (DF), nesta terça-feira (10). (Foto: Fátima Meira/Futura Press/Folhapress)

Antes conselheiro do governo na pandemia, o contra-almirante e chefe da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), Antonio Barra Torres, tem elevado o tom das críticas ao presidente Jair Bolsonaro (PL).

Em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, ele afirmou que a campanha do mandatário para minar a imunização das crianças estimula grupos antivacina e ameaças à vida de funcionários da agência reguladora.

Após a Anvisa aprovar o uso das doses da Pfizer contra a Covid para o grupo de 5 a 11 anos, Bolsonaro prometeu expor nomes de servidores do órgão e disse ser "inacreditável" a decisão.

"Não tenho dúvida que as duas falas contribuíram sobremaneira para o número aproximado de 170 ameaças de morte, agressão física, violência de todo tipo contra servidores e seus familiares que a Anvisa tem recebido", disse Barra Torres.

Ele também considerou inadequadas a consulta pública e a proposta do ministro Marcelo Queiroga (Saúde) de cobrar prescrição médica para imunizar os mais jovens. "Não guarda precedentes no enfrentamento da pandemia e está levando, inexoravelmente, a um gasto de tempo", disse Barra Torres.

O chefe da Anvisa afirmou que há sensação de "desamparo" na agência, que ainda aguarda resposta da Polícia Federal sobre o pedido de proteção aos funcionários. Declarou que os servidores trabalham "no limite" e disse temer pela saída de técnicos -de um total de 1.600, 600 têm tempo suficiente para se aposentar, segundo Barra Torres.

No começo da crise sanitária, o militar chegou a ser usado pelo presidente como contraponto ao ex-ministro da Luiz Henrique Mandetta e esteve, sem máscara, em ato de viés golpista e pró-governo. Após as ameaças, Barra Torres disse que se afastou de Bolsonaro, mas mantém o respeito pelo mandatário.

PERGUNTA - Como o senhor avalia o trabalho da Anvisa em 2021?

ANTONIO BARRA TORRES - Foi um ano que começou muito bem, eu diria trouxe dificuldade desnecessária, criou ambiente de insegurança, dificultou o trabalho de enfrentamento da pandemia de sobremaneira. Essa ação acaba por influenciar a relação pessoal.

Respeito sempre será mantido. Agora, evidentemente, em face dos últimos acontecimentos, há um distanciamento sim, não poderia ser diferente. Mas nunca houve por parte do presidente nenhum tipo de ação, insinuação, influência, sobre nenhuma das decisões da Anvisa. E ainda que houvesse não teria efeito. Não é assim que trabalhei durante 32 anos na Marinha.