Falhas de planejamento, atraso em compras e mudanças no processo emperram vacinação contra Covid

Claudia Collucci - Folhapress, Diana Yukari - Folhapress e Flavia Faria - Folhapress

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Uma série de entraves como falhas entre os sistemas de informação de saúde, problemas de logística, falta de cadastro prévio dos grupos prioritários e a pulverização da vacinação pelo país em um momento de escassez de doses tem atrasado a campanha de imunização contra a Covid-19, iniciada em 17 de janeiro.

Atualmente, são aplicadas cerca de 220 mil doses por dia. A título de ilustração, o ritmo é muito mais lento que o praticado em campanhas de vacinação contra a gripe. Apenas na primeira quinzena da campanha em 2020, realizada já em meio à pandemia da Covid-19, foram imunizadas cerca de 23 milhões de pessoas, ou 1,3 milhão por dia, aproximadamente.

Se houvesse imunizantes e se fossem adotado o passo de 2020 e os mesmos critérios, todos os brasileiros com mais de 18 anos seriam vacinados até outubro deste ano -evitando milhares de novas mortes.

Mas o ritmo tem sido outro, embora ele comece a ganhar fôlego. Na quinta (11), ao ser criticado pela lentidão atual durante sessão do Senado, o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, afirmou que espera vacinar metade da população até junho e o restante até o fim do ano.

Por ora, o estoque atual de vacinas contra o coronavírus distribuídas aos estados é de cerca de 12 milhões de doses, com as quais é possível imunizar quase 6 milhões (4% dos brasileiros adultos). A expectativa é que no fim deste mês a oferta de vacinas aumente. O Butantan diz que a instituição passará a entregar 600 mil doses diárias da Coronavac a partir do dia 23.

Até a quinta, 2/3 desse público, ou 4 milhões de pessoas, haviam recebido a primeira dose, segundo balanço do consórcio de veículos de imprensa formado por Folha, UOL, O Estado de S. Paulo, Extra, O Globo e G1. Os dados são coletados junto às secretarias estaduais de Saúde.

A lentidão na divulgação dos números por muitos estados, contudo, prejudica uma avaliação precisa da evolução do ritmo da vacinação. Como muitas secretarias não informaram o número de vacinados na primeira semana, é difícil dizer se a imunização foi se intensificando ao longo do tempo ou se havia problemas nos dados.

Segundo especialistas ouvidos pela Folha sobre a demora no processo, à escassez de vacinas somam-se falhas de estratégias do Ministério da Saúde, dos estados e municípios.

Para a epidemiologista Carla Domingues, que coordenou o PNI (Programa Nacional de Imunizações) de 2011 a 2019, nunca se começou uma campanha nacional com tão poucas vacinas e com tanta falta de organização, planejamento e orientação por parte do Ministério da Saúde.

A médica afirma que o fato de o ministério ter decidido pulverizar as escassas doses das duas vacinas pelo país também é um outro fator que tem gerado problemas na ponta do sistema.

“Seria mais efetivo se tivessem concentrado, por exemplo, as 2 milhões de doses da vacina da AstraZeneca nos municípios da região Norte, onde a carga da doença está alta, com novas variantes do vírus circulando. Como a vacina tem um intervalo de até três meses para a aplicação da segunda dose, há mais velocidade na vacinação e a logística é mais simples” diz.

“Existem áreas no Norte às quais demoro 15 dias para chegar de barco. Se eu usei a Coronavac, tenho que fazer isso de novo em 30 dias.”

Proporcionalmente, quem mais vacinou a população maior de 18 anos foi o Amazonas, mas o percentual ainda é baixo: 6% até a quinta-feira. O estado recebeu doses extras em razão do colapso que vive no sistema de saúde, com UTIs lotadas e recorde de mortes.

Outros estados da região questionam os critérios de distribuição. É o caso do Pará, que enviou ofício ao Ministério da Saúde pedindo que o cálculo fosse reconsiderado. Vizinho ao Amazonas, o estado foi um dos que menos recebeu doses quando levada em conta sua população.

Na opinião de Domingues, a campanha começou sem regras de priorização de municípios mais afetados. “Nesse momento de escassez, municípios com baixa incidência não deveriam receber a vacina.”

A médica epidemiologista Fátima Marinho, pesquisadora sênior da Vital Strategies e professora da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), concorda.

“A meta não tem que ser só vacinar a população [prioritária], mas as regiões onde tem mais vírus circulando, para impedir a cadeia de transmissão, e populações mais vulneráveis socialmente. Com isso, eu potencializo o impacto, mesmo com pouca vacina”, diz.

A exigência de registro nominal dos vacinados também tem atravancado a imunização. Em muitas unidades de saúde, os profissionais precisam preencher manualmente os registros em planilhas, com nome, número de documento e endereço do vacinado, para só depois lançar as informações nos sistemas das secretarias estaduais e o Ministério da Saúde.

É a primeira vez que isso acontece. Nas campanhas anteriores, bastava somar o número de vacinados. “Você vê por aí as pessoas anotando manualmente em planilha. Tem letras que são uns garranchos, outra pessoa vai digitar aquilo depois sem ter o documento do vacinado para conferir, vai ter erro, vai ter dificuldade. Como isso vai ser colocado no sistema?, questiona Domingues.

Para a epidemiologista, a campanha poderia ter ganho velocidade se o Ministério da Saúde tivesse feito um pré-cadastro online, uma vez que já sabia que seria necessário o registro nominal.

Ela também cita o fato de haver duas vacinas diferentes, com necessidade de duas doses cada uma como desafio. “Hoje eu recebo a AstraZeneca, amanhã a Coronavac, depois a AstraZeneca de novo. As vacinas não são intercambiáveis. Quem vai segurar a pressão se o vacinador não puder aplicar a vacina que está na geladeira porque não é a mesma tomada pela pessoa antes?”

Para o epidemiologista Paulo Lotufo, professor da USP, a pulverização da vacinação em tantas unidades de saúde é a principal responsável pela lentidão.

“Em São Paulo, a distribuição para 480 unidades básicas e hospitais é uma coisa insana. Imagina: tem o estoque da Coronavac no Butantan, a secretaria define para onde vai. O município leva para uma central, que começa a distribuir para as unidades de saúde. As unidades não funcionam no fim de semana. Olha o tempo que se gasta com isso!”

Segundo ele, desde o início, o município deveria ter usado locais amplos, como os estádios de futebol, para funcionarem como centros de vacinação, de segunda a domingo. “Você consegue montar linhas de produção, reúne pessoal e dá velocidade ao processo.”

Questionado pela reportagem, o secretário-executivo do Conass (Conselho Nacional de Secretários de Saúde), Jurandi Frutuoso, coloca a culpa da lentidão na insuficiência de doses. “Se mais tivesse, o SUS seria capaz de acelerar o processo e imunizar em tempo adequado.” Para ele, o atraso não é em relação à vacinação em si, mas sim no registro das informações.

Sobre a crítica dos epidemiologistas em relação à falta de priorização das regiões mais afetadas, Frutuoso afirma que todos os estados estão com a pandemia em crescimento acelerado, sendo que 14 deles registram taxas de ocupação de leitos hospitalares acima de 70%.

O governo de Jair Bolsonaro, no segundo semestre de 2020, recusou três ofertas do Butantan para a compra da Coronavac e só se decidiu no mês passado, quando o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), ganhou popularidade com a vacinação.

Também abriu mão de encomendar ao menos 70 milhões de doses do imunizante da Pfizer, e não quis negociar com a Johnson & Johnson. E as negociações para a importação de 10 milhões de doses da Sputnik e 20 milhões da indiana Covaxin só começaram no início do mês.

Em nota, o Ministério da Saúde diz que a pandemia da Covid-19 dificulta a comparação com outras campanhas de vacinação, “além de se tratar de uma vacina nova, com produção limitada, com cronogramas de entrega irregulares e necessidade de duas doses”.

O ministério afirma também que a campanha contra a Covid-19 é a primeira no país iniciada com vacinas com uso de registro do vacinado nominal, e houve necessidade de reestruturação do sistema de informação e da interoperabilidade com outros sistemas, de formar a abarcar diferentes realidades das regiões (sistemas próprios, informatização das salas de vacina e conectividade).

“O sistema tem enfrentado períodos de instabilidade e foram identificadas algumas dificuldades na interoperabilidade das diferentes formas de entrada de dados.”

Por fim, o ministério diz que a vacinação regionalizada foi considerada nas discussões técnicas do PNI, mas que o país se encontra em transmissão comunitária em todo seu território, com registro de casos graves e óbitos em todas as UF.

Entretanto, reforça o ministério, diante da criticidade do estado do Amazonas, foi acordada uma reserva de fundo estratégico de 5% das doses de vacinas que venham a ser entregues ao Ministério da Saúde, visando beneficiar regiões com maiores necessidades, a exemplo da região Norte.

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