Infectologistas dizem que vão passar os festejos de fim de ano em casa

Phillipe Watanabe

Boletim Covid-19 - Brasil

Durante quase todo 2020, os infectologistas aconselharam que as pessoas evitassem situações de risco de transmissão de Covid-19, como jantares fora de casa, festas e as diversas formas de aglomerar existentes. No fim de ano, esses profissionais, em sua maioria, pretendem seguir seus próprios conselhos.

Foi isso, pelo menos, que afirmaram à reportagem 67 médicos membros da SBI (Sociedade Brasileira de Infectologia), que participaram de uma pesquisa informal sobre os planos para o fim de ano.

A categoria foi uma das que estiveram na linha de frente contra a Covid-19, tanto na prática quanto no aconselhamento. A atuação na orientação levou até a uma abertura de inquérito por parte de um procurador que costuma fazer postagens de terapias sem eficácia contra a doença.

A reportagem perguntou aos infectologistas como seriam o Natal e o Ano-Novo e se seus planos mudaram com o recente e acentuado aumento de mortes e casos de infecção pelo novo coronavírus.

Cerca de 70% dos que responderam à enquete dizem que vão passar o Natal em sua própria casa, somente com pessoas com quem convivem diariamente. Em seguida, cerca de 18% dos médicos afirmaram que vão passar a festa com a família que vive na mesma cidade, mas não mora na mesma casa.

Já no Ano-Novo, a porcentagem dos infectologistas que vai ficar em casa cresce bastante e chega a 81%.

A reportagem também questionou se a atual situação crítica do país influenciou nos planos dos médicos. Cerca de 55% responderam que não, porque iriam ficar somente perto de gente que já faz parte de sua “bolha” diária.

Outros 39%, porém, disseram que tinham planos de viagem, por exemplo, mas que tiveram que mudar pelas circunstâncias epidêmicas, que muitas vezes batem à porta.

Tânia Vergara, presidente da Sociedade de Infectologia do Rio de Janeiro, viu seus planos natalinos, cuidadosamente feitos para trazer o mínimo de risco possível, desfazerem-se na quinta-feira (17).

“É a festa de que eu mais gosto”, afirma Vergara. “Eu gosto de reunir minha família. Fazemos o Natal na casa da minha mãe e é muito alegre, com Papai Noel entregando presente, com a gente cantando. Esse ano não vai ser assim.”

A família não conseguiu convencer a matriarca de 84 anos. Ela queria passar a festividade com a família, como de costume. Então, começaram os preparativos para o Natal pandêmico.

Ninguém iria cear em uma única mesa. Os três núcleos familiares que se encontrariam iriam se servir, todos de máscara, em uma mesa com o bufê natalino, e cada núcleo iria para um canto, no qual ficariam próximos somente daqueles com quem convivem diariamente. Nessa “bolha”, poderiam tirar a máscara, comer e msilêncio e, depois, voltar a colocar a máscara.

A especialista diz ainda que tudo isso seria possível porque a casa da mãe tem espaço para comportar o plano.

Seria possível.

Uma funcionária que trabalha para a idosa relatou não sentir cheiros há algum tempo. Um PCR apontou o motivo: Covid. Na idosa, o exame deu negativo, mas agora ela precisa ficar em observação e sem a desejada festa de Natal, que já não contaria com Papai Noel, pelo bom velhinho estar em quarentena –fato já relatado às crianças da família.

Vergara afirma que, assim como a maior parte dos seus conhecidos, não vai fazer nada no Ano-Novo. “Fazer o que numa pandemia? Inclusive vou dormir, eu acho”, diz a infectologista, relatando o cansaço dos atendimentos online de Covid, que não cessam.

O plano de diminuir o ritmo entre o Natal e o começo de 2021 também não foi realizado. Na última semana, além dos pacientes que já acompanha, começou a atender outros quatro novos casos. “Os pacientes viram membro da sua família”, diz a infectologista, que relata estar vendo infecções de muitos núcleos familiares e uma situação, no momento, mais grave do que a do primeiro semestre. “Estamos muito pior.”

Já a festa de Natal de Raquel Stucchi, pesquisadora da Unicamp e membro da SBI, foi cancelada há mais tempo. Basicamente, quando ela e sua família perceberam que a pandemia não cessava no Brasil com o passar dos meses, que a primeira onda parecia não acabar.

A festa com os irmãos e com a mãe de 93 anos não vai acontecer em 2020. “Cada um vai ficar na sua casa, sem nenhum tipo de comemoração presencial”, diz Stucchi.

Em sua família, porém, alguns dos mais jovens, na casa dos 30 anos –faixa na qual se percebe um aumento nas infecções– resistiram ao cancelamento e passaram a ser aconselhados por ela a não fazerem encontros.

“Prefiro não ser informada do que eles vão fazer e acreditar que vão ouvir a tia Quel”, afirma Stucchi.

A dica da pesquisadora para as festas de fim de ano é: “Quem está pensando em fazer, pense em não fazer”.

A melhor forma de ao menos tentar ter um Natal em 2021 é deixar para lá as comemorações de 2020, afirma Leonardo Weissmann, consultor da SBI.

“O pessoal está cansado da situação e quer passar o tempo em família. Mas existe a consciência de que não dá”, afirma o especialista.

O Natal de Weissmann –neste ano em casa– costuma ser composto de plantões, que ele se dispunha a fazer por não comemorar a festividade, já que é judeu.

Para a possibilidade de um 2021 melhor, todos os especialistas indicam que é melhor evitar ou diminuir ao máximo a socialização com pessoas de fora da sua “bolha” de convivência.

As dicas residem nas indicações básicas de prevenção: ventilação, máscara e distanciamento.

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