Pesquisadores avaliam efeitos do lockdown em Curitiba: “medidas precisam ser mantidas”

Redação

De acordo com os pesquisadores, o pico no número de mortes pela Covid-19 deve acontecer nos próximos dias
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Pesquisadores da UFPR (Universidade Federal do Paraná) e do HC (Hospital de Clínicas) avaliaram como positivos os efeitos do “lockdown” em Curitiba, decreto no início de março, já que houve redução da mobilidade de pessoas na capital.

Além disso, também foram encontrados indícios de queda nos casos positivos, o que gera expectativa de redução da fila de espera para o internamento e mortes em decorrência da Covid-19.

“Há indícios de queda na positividade dos testes. Temos um pico aparente no número de casos, mas é ainda precoce para avaliar uma tendência mais consolidada. Os próximos indicadores seriam a fila de espera para internamento e já tivemos um pico também nesta fila”, avalia Bernardo Montesanti Machado de Almeida, infectologista do Serviço de Epidemiologia Hospitalar do Hospital de Clínicas (HC) da UFPR.

De acordo com avaliação de Almeida, após o pico no número de mortes, que deve ocorrer na próxima semana, Curitiba deve entrar em uma queda, tanto em casos confirmados, tanto em óbitos.

CURITIBA: MEDIDAS SÃO MAIS BRANDAS E NÃO UM LOCKDOWN

Nos dias 12 e 19 de março o prefeito de Curitiba publicou os decretos 565  e 600 com medidas restritivas mais rígidas na cidade.  Mas, apesar de terem ficado conhecidas como lockdown, tecnicamente as medidas são mais brandas.

“Lockdown subentende fechamento de fronteiras e restrição obrigatória da circulação de pessoas. Isso não aconteceu. O que houve foi um forte desestímulo à mobilidade, através de fechamento e restrição de horários de setores, de comércio e de varejo em geral”, esclarece Bernardo.

Na avaliação do professor Emanuel Maltempi de Souza, professor titular do Departamento de Bioquímica e Biologia Molecular da UFPR, “as medidas precisam ser mantidas por mais algumas semanas, até que o sistema de saúde tenha alguma folga.  Lembrando que ainda há fila para leitos Covid-19 e certamente pacientes devem estar morrendo nessa fila”.

REDUÇÃO DA MOBILIDADE DE PESSOAS NA CAPITAL

A análise do Google Mobility, por exemplo, mostrou uma redução drástica na mobilidade na capital já a partir das medidas restritivas decretadas pelo governo estadual. Depois de 12 de março, data do decreto número 565, os níveis caíram ainda mais e ficaram parecidos com os de março de 2020, o primeiro ‘lockdown’ antes da primeira onda.

Dados do Google mobility para a cidade de Curitiba durante o lockdown.
Dados do Google Mobility, individualizado pelos diferentes setores, a partir de 01/11 em Curitiba.

TAXA DE POSITIVIDADE PARA O CORONAVÍRUS COMEÇOU A CAIR

A taxa de positividade para coronavírus atingiu o pico no dia 10 de março. Depois os números começaram a cair, conforme mostram os gráficos abaixo.

Vale lembrar que o secretário estadual da Saúde, Beto Preto, admitiu que há chances de subnotificação pela defasagem dos testes.

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Taxa de positividade diária e por semana epidemiológica pelo IBMP (Instituto de Biologia Molecular do Paraná).

FILA DE ESPERA PARA INTERNAMENTO

A fila de espera para internamento em Curitiba começou a cair, depois de atingir pico no dia 15 de março. No Paraná, a queda começou depois do pico no dia 16 de março.

Fila de demanda para internamento (enfermaria e UTI) em Curitiba/PR
Fila de demanda para internamento no estado do Paraná

PICO DE MORTES DEVE ACONTECER NOS PRÓXIMOS DIAS

O pico de mortes por dia deve acontecer nos próximos dias e depois deve começar a queda. A projeção foi realizada pelo professor Roberto Tadeu Raittz, do Programa de Pós-Graduação em Bioinformática do Setor de Educação Profissional e Tecnológica (SEPT): “podemos fazer suposições baseadas nas análises e nos modelos de que dispomos e a respeito de algumas variáveis. Em um dos modelos que utilizamos, por exemplo, seriam necessárias mais uma ou duas semanas para começar a diminuir a média diária de óbitos no Paraná, uma vez mantidas as condições de agora”.

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Gráfico prevê aumento de casos e óbitos para os próximos dias, após o lockdown.

MANUTENÇÃO DA QUEDA DE INFECTADOS E ÓBITOS

De acordo com os especialistas da UFPR, com as quedas nos números de infectados e de mortos, o desafio passa a ser a manutenção da queda. “Talvez seja o maior desafio. Ao enfrentar uma situação de crise e colapso do sistema de saúde é fácil convencer as pessoas a aderirem às medidas. Agora, quando está em queda e o sistema de saúde entra em um período mais tranquilo, começa o desafio de manter a sustentabilidade desta queda para evitar novas ondas”, analisa Bernardo.

É neste ponto que entram as medidas de prevenção, que devem ser seguidas rigorosamente pela população: uso de máscaras, evitar interações pessoais desnecessárias, manter distanciamento de 1,5 metro dos indivíduos, reduzir tempo de interação e evitar ao máximo a permanência em ambientes fechados, como mercados e estabelecimentos comerciais. Já o poder público deve massificar os testes na população e “usar os testes não apenas para diagnosticar, mas como instrumento de rastreamento populacional, com função epidemiológica”, explica o infectologista do Hospital de Clínicas.

“Felizmente, e finalmente, foram tomadas essas medidas que estão salvando vidas. Acho que precisamos explorar o momento e promover a tomada de consciência das pessoas que também devem fazer a parte delas. Por outro lado, não é hora de retroceder – tudo indica que o benefício será muito maior se as medidas forem mantidas”, finaliza o professor Roberto, da UFPR.

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