“Você vai para a UTI”. A frase que é o “gatilho de todos os medos” na covid-19

Martha Feldens

Covid-19 - vagas exclusivas de UTI crescem

Se fisicamente a covid-19 é considerada uma doença grave, seus efeitos emocionais não ficam muito atrás. Pacientes internados com a doença, sobretudo os que vão para a terapia intensiva, precisam cada vez mais de um acompanhamento psicológico sistemático durante o tratamento e até depois da alta. Além do fato de estarem completamente isolados num leito de UTI, o medo e a angústia por terem contraído a doença em sua forma mais agressiva leva esses pacientes a um estado emocional crítico, que pode atrapalhar o tratamento.

A psicóloga intensivista Rosane Melo, que atende na UTI do Hospital Marcelino Champagnat, diz que a “demanda emocional cresceu muito com a covid”. Com a experiência de quem atende desde março do ano passado uma média de 300 pacientes por mês, ela observa que um momento particularmente crítico é quando o paciente (e sua família) fica sabendo que irá para terapia intensiva.“Quando vem a informação, é o gatilho de todos os medos. Passa aquele pensamento de que dali ele não sai”, conta Rosane.

A partir daí, o trabalho cresce. Em pacientes que se mantêm conscientes, mas isolados, a psicologia atua diretamente com eles e faz a ponte com a família. “Tentamos aproximar os familiares do doente por meio de videochamadas, mantendo o contato familiar”, explica a psicóloga.

Contato familiar para todos

A demanda aí é muito variável, conta ela. Um esforço é para controlar a ansiedade do doente. “Quando o paciente está mais equilibrado, conseguimos fazer uma videochamada a cada dois dias. Mas há outros que não aguentam e precisam falar com a família todos os dias, até duas vezes no mesmo dia”, conta Rosane.

Mas engana-se quem pensa que o contato vale só para quem está consciente. No Marcelino Champagnat, a equipe estimula que familiares de pacientes de UTI intubados e sob sedação participem dessas chamadas com palavras de apoio e orações.

No caso desses doentes sedados, aliás, o trabalho maior da psicologia é o atendimento à família. “Essas famílias de pacientes que estão na UTI recebem informações somente uma vez por dia. É muito difícil esperar. Nós acabamos entrando no circuito tentando ajudar a enfrentar essa angústia. Precisamos dar a essas famílias um momento de escuta”, diz.

Na UTI, conversas combinadas. Celular para alguns

A psicóloga explica que todas as conversas são previamente combinadas entre a equipe, os doentes e as famílias. “A conversa tem que ser benéfica para o paciente. Não algo que traga mais angústia ou preocupação”, justifica.

Da mesma forma, a equipe avalia quais os pacientes da UTI que poderão manter consigo seus próprios aparelhos celulares. “Isso varia de caso a caso. Se o paciente tem condições emocionais e físicas, ele até pode ficar com seu telefone. Se não, os contatos são exclusivamente com aparelhos da equipe de psicologia”. O telefone, muitas vezes, diz ela, vira fonte de mais angústia, com constantes perguntas sobre o estado de saúde do doente.

Depois da alta, reaprender a viver

Rosane Melo conta que muita gente deixa a UTI e o hospital e precisa de acompanhamento psicológico por um bom tempo depois. “Eles saem fracos, se sentindo incapazes, perdem força muscular, precisam reaprender a andar, a comer, a falar. É um trauma muito grande. É muito difícil voltar à normalidade”, diz.

Para todos, ela tenta deixar uma mensagem de estímulo: “Ninguém está sozinho. Ame e respeite o próximo e não hesite em pedir ajuda. Estamos todos juntos”.

 

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