Crônica das Sextas
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Andando na praia

No último dia de 2007, saí para uma caminhada matinal pelas areias de Guaratuba...Havia horas que eu acordara e vi o sol..

João Marcos - 04 de janeiro de 2019, 05:04

No último dia de 2007, saí para uma caminhada matinal pelas areias de Guaratuba...

Havia horas que eu acordara e vi o sol se espreguiçando, chamando seus raios como se estivesse fazendo ginástica, se aquecendo para bronzear a pele das moças que mais tarde ali estariam para morenarem seus corpos.

Uf! Respirei fundo! Dei o primeiro passo com o propósito de calibrar meu olhar e enxergar, escutar e ouvir tudo o que fosse passar pelo meu andejo trajeto.

Fitei o mar que na sua calmaria espumava as ondas, como a espuma do champagne que logo mais à noite espumaria meus pensamentos etílicos com desejos de muitas realizações...

Este mar com seu poder hipnótico de muitas histórias, lendas e presságios, inebria nossa alma na magia do vai e vem das ondas que suavemente refrescam a areia...

Ao longe vi o Morro do Cristo observando e abençoando os pescadores e veranistas da orla...

Aproveitei o momento para meditar, orar e agradecer pelo ano que estava começando o seu estado terminal...

À frente, caminhava uma cinquentona que ganharia qualquer concurso para miss celulite. Nunca vi tanta, por centímetro quadrado...

Em sentido oposto um ancião garboso, exibido, a passos largos simpaticamente cumprimentava os transeuntes marinhos daquela manhã...

Sentado, o menino gorducho fazia buraco na areia com um olhar fixo, distante, contemplando a água que minava na sua escavação...

O salva-vidas armava seu guarda-sol para mais um dia laborioso, orientando e salvando vidas como os médicos de plantão...

O céu azul e a brisa suave, brindavam e recebiam as outras pessoas que por ali chegavam...

O rapaz de físico bombado, se exibia com a prancha de surf para as gazelas adolescentes que aos risos retribuíam um olhar maroto ao “exibido” das ondas...

Uma senhora com olhar de megera, repreendia a moça de pele branca cheirando a leite, que passeava com seu cachorrinho de estimação...

Ali, obviamente não era lugar para o quadrúpede pulguento curtir suas merecidas férias onde semearia o bicho geográfico, o qual se hospedaria no menino gorducho, no ancião simpático, no salva-vidas de plantão, no garoto da prancha, ou na bunda celulítosa da cinquentona...

Muitos passos adiante e voltei há algumas décadas. Abri o baú de recordações do meu passado na mesma areia, no mesmo morro, no mesmo mar...

Ah, o tempo!  Encontrou-me... estava demorando...  Em vez de brigar com ele, recebi-o com um sorriso sutil e agradeci pela sua companhia. Afinal, o tempo é uma conquista e não uma derrota. O bom é não perder tempo... Assim, amigos para sempre, de mãos dadas e irmanados no novo e confortante conceito de tempo, continuei meu trajeto deixando as marcas do pé chato na areia praiana...

Aí, o suor já trilhava alguns caminhos do meu corpo avisando que era hora de voltar...

Assim, deixo registrada esta crônica esperando que meu amigo tempo seja bondoso e permita que o menino gorducho, daqui a muitos anos ao fazer sua caminhada matinal, olhe um ancião garboso, exibido, andando com passos largos, cumprimentando os transeuntes marinhos e diga: “Aquele que vem lá é o João Marcos!”.

Feliz Ano Novo!

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