Crônica das Sextas
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Nonato al Horno

Então... Lembro que era inverno. Antes de terminar a década de setenta, o Antonio Roberto Bacila ( Antoninho) e eu, fomo..

João Marcos - 17 de fevereiro de 2017, 00:05

Então... Lembro que era inverno. Antes de terminar a década de setenta, o Antonio Roberto Bacila ( Antoninho) e eu, fomos ao Uruguai para aprender uma técnica cirúrgica para fazer a histerectomia (esterilização) em vacas.

As vantagens deste procedimento eram inúmeras e muito pouco conhecidas no Brasil.

Após alguns dias estagiando com o Dr. Marco Dutto, passamos a dominar a técnica. Da campanha uruguaia fomos a Montevidéu comprar o instrumental cirúrgico.

A noite estava gelada e o minuano contribuía para aumentar a sensação térmica. Fomos a uma churrascaria para os prazeres da carne...

A carne uruguaia? Excepcional! Igual a carne da Argentina. Isto pela semelhança das forrageiras, solo, clima e evidentemente das raças bovinas.

Gentilmente o garçom veio à nossa mesa... Argumentei:

- Sabemos da qualidade da carne uruguaia. Mas gostaríamos de saber qual a carne mais tenra, mais mole...Qual sugere?

- Tenemos Nonato al Horno! Muy rico! Muy bueno!

- Nonato al Horno?

-  Sí... si!

- Bem, vamos experimentar!

Entre umas taças de vinho e uma conversa animada, esperamos pela indicação do garçom!

Sorridente e cantarolando baixinho uma música brasileira para nos agradar, o gentil garçom se aproximou, destampou a baixela e ali estava fumegando o Nonato al Horno!

Uma carne muito tenra, esbranquiçada... Absolutamente,não tinha gosto de carne.

- Que estranho isso... Uma carne que não tem gosto de carne?  E ainda por cima no Uruguai, famoso pela boa carne!

Entre as papas fritas e os goles do vinho, fomos "degustando" o tal Nonato...

Meio confuso com o paladar, chamei o garçom para saber o tempero usado, tempo de fogo, enfim, papo de churrasqueiro... Quis saber também qual a parte da carcaça, o corte da carne, e especialmente se o nome tinha uma tradução...

- “No nato”... “No nato”... Que ainda está dentro de sumadre...

- Como assim?  “ No nato" ... Não nascido? Por nascer?

- Sí... Sí!

- Caraca! É o bezerro que está na barriga da vaca, em vida placentária. O bezerro que ainda nem nasceu. Estamos comendo um feto bovino! Que nojo! Nem um pedaço a mais.

O garçom notou nosso descontentamento e logo justificou:

- Es la carne más blanda que tenemos!

Bem... se você for ao Uruguai, "Nonato al Horno” ou "Feto ao Forno", não recomendamos!

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