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Professora usa funk para ensinar Marx, é afastada da escola, e vídeo viraliza

“Os burgueses não moram na favela. Estão nas empresas explorando a galera. E para os proletários o salário é uma miséria..

Jordana Martinez - 20 de julho de 2016, 07:51

“Os burgueses não moram na favela. Estão nas empresas explorando a galera. E para os proletários o salário é uma miséria. Essa é a mais-valia vamos acabar com ela”.

A música de protesto, que cita Karl Marx em ritmo de funk, foi gravada por alunos do ensino médio dentro da sala de aula. O vídeo foi publicado nas redes sociais pela professora de sociologia Gabriela Viola, que coordenou o trabalho. A paródia viralizou, e a professora acabou afastada por uma semana da escola estadual Maria Gai Grendel, na periferia de Curitiba.

O vídeo é resultado de um trabalho sobre Karl Marx, conteúdo que faz parte da grade curricular obrigatória do primeiro ano de sociologia do ensino médio. Nas redes sociais, o material gerou polêmica. A iniciativa foi elogiada, criticada e a professora foi ofendida e até ameaçada.

A secretaria justificou o afastamento "para proteger a professora" e por conta da escolha da música "Baile de Favela". Explicou ainda que "o acompanhamento não tem o objetivo de virar um policiamento de conteúdo".

A professora afirmou que considera "a letra original machista" e que isso também foi questionado e debatido em sala de aula.

“Eu quis trabalhar com aquilo que os alunos já tinham de bagagem, dando um novo significado à música. Para mim, a educação deve respeitar a realidade do aluno”.

Veja o vídeo

Veja a entrevista da professora Gabriela Viola concedida ao Brasil de Fato e ao Mídia Ninja:

Em pouco tempo, o vídeo com a paródia “Karl Marx é baile de favela”, feita pelos seus alunos, viralizou nas redes sociais e seu caso ganhou repercussão nacional. Você poderia explicar melhor o que aconteceu?

Gabriela Viola – O vídeo foi um trabalho realizado em sala com os alunos do primeiro ano do ensino médio. Dentro das diretrizes curriculares, é preciso estudar os clássicos da sociologia como Marx, Weber e Durkheim. Buscando uma aproximação com a realidade dos alunos, resolvi trabalhar a paródia, que foi divulgada na internet como uma forma de mediação, uma forma de incentivo aos alunos. Como já tinha sido divulgada a paródia da outra sala . Eu passei a minha infância, minha adolescência, minha juventude ali, e hoje eu atuo enquanto educadora nesse mesmo ambiente. Então, dessa realidade escolar e da realidade social, eu compreendo muito bem, porque eu faço parte dela.  Eu tive contato com a educação por meio de movimentos populares voltados à educação. Estudei, ingressei na universidade por meio do Prouni. Fui bolsista e, dentro da universidade, sempre defendi que ela deve se pintar de povo. A gente precisa de mais pessoas como eu dentro da universidade, que vão ser atuantes dentro da comunidade posteriormente.

Vivemos em um mundo dinamizado, com muitas interações e rapidez na troca de informações, que deve afetar também o ambiente escolar. Como é a sala de aula nesse século XXI e, a partir disso, por que a escolha de trabalhar o funk como instrumento pedagógico?

Quando você entra em sala de aula você não está dentro de um quadrado. Os alunos têm conhecimento do mundo. É só ele fazer uma busca na internet que ele pode buscar qualquer pessoa em qualquer outro lugar do mundo. O problema é que você entra numa sala de aula com pessoas com a mente do século XXI e encontra uma escola arcaica, uma escola tradicional, uma escola com os moldes do século XIX. Esse processo contraditório reflete no ensino.

A partir dessa compreensão é que vem a ideia de trazer a abordagem por meio da realidade social na qual o aluno está inserido. E é aí que vem a proposta do uso do funk. Nós não escutamos música clássica, nós escutamos outros estilos musicais. O papel da sociologia é trazer a ressignificação daquilo que já é posto. Qual foi o objetivo desse trabalho? A gente desconstruiu aquilo que foi construído. A gente construiu o novo em cima disso. A gente pegou uma música de funk, um estilo musical que é marginalizado e transformamos em teoria. Foi isso. A partir do momento em que a gente fez a junção do funk com Marx, a gente transformou o funk em uma forma de disseminação de conhecimento.

A junção do funk com Marx acabou virando uma bomba e a repercussão disso propulsionou o debate sobre o programa “Escola Sem Partido”. Qual a sua opinião sobre esse programa que defende uma “escola sem ideologia”, mas que está promovendo um verdadeiro patrulhamento ideológico?

A ‘escola sem partido’ nada mais é do que a escola de um partido só. Essa escola não respeita o que está dito na Constituição, que é a pluralidade de ideias. Respeitar a pluralidade de ideias é respeitar o sistema democrático, em que todos nós podemos pensar e agir de maneiras diferentes. A partir do momento em que você pauta apenas uma ideologia, você está privando os alunos do conhecimento das outras. É a construção de um estudante que aceita tudo como está. Mas o papel da educação é trazer ao estudante um pensamento crítico, é fazer com que o estudante se torne um cidadão, saiba que tem direitos, mas que tem deveres também.