Autópsia: cientistas buscam com os mortos caminhos para entender a covid-19

Martha Feldens

autópsia minimamente invasiva na covid-19

Por meio do procedimento conhecido como autópsia minimamente invasiva, cientistas buscam com os mortos respostas que possam ajudar os vivos a abrir caminhos para o tratamento da covid-19, doença que já matou mais de 540 mil brasileiros.

Uma equipe de 12 pessoas, entre pesquisadores, médicos, estudantes e funcionários de áreas técnicas e de assistência social da Fiocruz Bahia e do hospital Instituto Couto Maia, em Salvador (BA), trabalha para ajudar a ciência a entender o que acontece com os órgãos de quem morre por covid-19. Trata-se do projeto COVPEM.

Autópsia minimamente invasiva em mortos por covid
Washington Santos/ Reprodução Zoom

Comandada pelo pesquisador-médico Washington Santos, essa equipe fez, de fevereiro para cá, 14 autópsias em vítimas da doença. Washington e Geraldo Gileno, também médico-pesquisador da Fiocruz Bahia, atenderam ao pedido do Paraná Portal e contaram os objetivos da pesquisa e o que foi descoberto até agora. Veja a seguir os principais pontos destacados por eles:

  • Por que fazer autópsia – e por que minimamente invasiva

Com o exame dos órgãos de quem morreu e portanto teve a doença na forma grave, é possível identificar condições não percebidas pelos clínicos, aprofundando o conhecimento.

A autópsia minimamente invasiva é menos agressiva, tem mais aceitação das famílias e ainda ajuda na proteção dos pesquisadores contra a infecção pelo novo coronavírus.

  • Diferença entre a autópsia convencional e a minimamente invasiva

Na autópsia convencional, são feitos cortes cirúrgicos desde a região do pescoço até o púbis e da região do pescoço a cada um dos ombros, de tal forma que se possa remover os órgãos do corpo para exame externo. Além disso, faz-se um corte e abre-se o cérebro com serra quando há exame do encéfalo.

Já na autópsia minimamente invasiva, o médico é guiado aos órgãos por ultrassom até aqueles que pretende examinar. Com agulhas e cânulas, coleta amostras desses órgãos para exame externo.

O procedimento é bem mais rápido que uma autópsia convencional e é feito no próprio hospital em que o paciente esteve internado. No caso dessa pesquisa, no Instituto Couto Maia, em Salvador.

No Brasil, essa técnica foi desenvolvida na USP, em São Paulo, pela equipe do professor Paulo Saldiva, com quem Geraldo Gileno fez treinamento.

“Quem faz contato com os familiares é o setor de assistência social do hospital. Não temos tido dificuldades na aceitação pelas famílias. O processo não leva à mutilação e nem se percebe que foi introduzida uma agulha no corpo. Se houver sangramento, faz-se um ponto cirúrgico”, Geraldo Gileno, médico-pesquisador da Fiocruz/BA

Autópsia minimamente invasiva em covid
Geraldo Gileno/Arquivo pessoal

Órgãos examinados e o que a equipe da Fiocruz/BA encontrou até agora:

  • Pulmão: comprometimento do tecido pulmonar. Tem alguma semelhança com lesões provocadas por outras condições virais ou sepse, ou ainda por situações que quase afogamento, queimadura ou inalação de substâncias tóxicas. Lesões relacionadas com a covid-19.
  • Baço: observada redução de linfócitos responsáveis pela defesa imunológica, com graves consequências ao paciente, que fica com a defesa debilitada. Também relacionada com a covid.
  • Coração: lesões e alterações que podem não ter relação direta com a covid. Há apenas suspeitas de que a covid-19 possa estar envolvida nas lesões observadas.
  • Rins: alterações que também não se têm certeza de que advenham da covid. Podem também ter relação com o tratamento dos casos mais graves da doença.
  • Fígado: como no baço, foram observadas alterações em relação ao sistema imune. Mas ainda não foi encontrado qualquer fenômeno que pode ser associado à covid.
  • Pâncreas: foi feita coleta de tecido pancreático em apenas três casos. A análise histológica nesses casos não revelou algum aspecto importante. Um desses três casos precisa de análises adicionais para entender melhor o que foi encontrado.
  • Músculo-esquelético: foram colhidas amostras de diafragma e músculos das pernas e braços. A equipe encontrou fibras lesionadas ou em fase de recuperação de lesão; inflamação crônica, provavelmente relacionadas à covid.
  • Cérebro: foram examinadas amostras de apenas dois casos. Equipe não encontrou alteração que possa atribuir diretamente à covid-19. Mesmo em relação a alterações em vasos sanguíneos, já descritos no acompanhamento de pacientes, não houve comprovação.
  • Pele: de maneira-geral, foram encontrados casos de dermatite discreta, que pode estar relacionada à doença. Também houve trombose de vasos da pele.

O futuro do projeto

A equipe liderada por Washington Santos pretende estender o prazo do projeto COVPEM além do período da pandemia de covid-19. A intenção é que a autópsia siga sendo utilizada para identificar consequências de outras doenças. Segundo Geraldo Gileno, a ideia é treinar equipes para usar a técnica em vigilância epidemiológica na região.

“Precisamos de dados baseados na região. Vivemos uma região com características diferentes, uma comunidade com o maior contingente de afrodescendentes do país, com seu perfil genético”, Washington Santos, coordenador da pesquisa da Fiocruz/BA

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