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João de Deus é indiciado sob suspeita de violação sexual mediante fraude

A Polícia Civil de Goiás concluiu a primeira investigação sobre João de Deus e o indiciou sob suspeita de violação sexua..

Folhapress - 20 de dezembro de 2018, 23:57

O médium João de Deus chega à Casa Dom Inpacio Loyola, em Abadiânia. Marcelo Camargo/Agência Brasil
O médium João de Deus chega à Casa Dom Inpacio Loyola, em Abadiânia. Marcelo Camargo/Agência Brasil

A Polícia Civil de Goiás concluiu a primeira investigação sobre João de Deus e o indiciou sob suspeita de violação sexual mediante fraude.

O relatório final do inquérito sustenta que em 24 de outubro, a pretexto de fazer um tratamento espiritual, o médium molestou uma mulher de cerca de 40 anos na Casa Dom Inácio de Loyola -espécie de hospital de cirurgias espirituais em Abadiânia (a 78 km de Goiânia).

O depoimento dela à polícia foi publicado nesta quinta (20) pela Folha. "É um estelionato sexual. A vítima foi lá para ser curada. Ele se aproveitou dessa situação, a enganou e abusou dela sexualmente", afirmou o delegado Valdemir Pereira.

O indiciamento significa que a polícia considera os indícios colhidos na investigação suficientes para que o suspeito seja denunciado. O caso segue para o Ministério Público de Goiás, que decidirá se apresenta a acusação à Justiça.

Se condenado, João de Deus pode pegar entre 2 e 6 anos de prisão em regime fechado.

Procurada, a defesa do médium não se pronunciou até a conclusão desta edição.

O médium prestou depoimento no domingo (16), dia de sua prisão, e negou ter molestado pacientes em seu centro espiritual. Questionado sobre o atendimento de 24 de outubro, ele confirmou ter recebido a mulher, mas negou a violência sexual e disse que ela teria de provar o que disse.

Em depoimento, a denunciante disse que, após a violação na Casa Dom Inácio de Loyola, o médium teria pedido que ela não relatasse o ocorrido a ninguém e a teria presenteado com dois quadros religiosos e um cristal. "Isso ficou muito claro, é uma prática dele: abusa sexualmente da vítima e depois dá presentes", disse o delegado.

Também nesta quinta, a polícia instaurou novo inquérito contra João de Deus por posse ilegal de armas. Na terça (18), foram apreendidos três revólveres, uma pistola e uma garrucha, todos sem registro, no quarto dele, em Abadiânia.

O caso que embasou o indiciamento também foi usado para requerer a prisão preventiva do médium.

A mulher diz ter ido com o namorado e a cunhada à Casa Dom Inácio. Enquanto aguardava na antessala, afirma, João de Deus teria se aproximado e pedido que os acompanhantes saíssem, pois ela precisava de "atendimento individual".

O médium, então, teria apagado a luz, a colocado de costas e começado a passar as mãos em suas costas, braços e barriga. Em seguida, teria passado a massagear seu baixo ventre, ao mesmo tempo em que pedia que mexesse o quadril.

A denunciante contou ter tentado se esquivar. Relatou que pedia calma a si própria mentalmente e que determinou que encerraria a sessão se percebesse que o médium tinha uma ereção.

João de Deus teria acendido a luz e perguntado o que a paciente achava estar acontecendo ali. Ela disse ter respondido que acreditava ser um tratamento para seu útero, ao que ele teria novamente deixado o ambiente na penumbra e solicitado que ela massageasse a barriga dele.

Segundo o depoimento, o médium perguntou se a paciente "queria outro tratamento daquele ou se só aquele bastava". Ela disse ter ficado em silêncio porque temia demonstrar que estava nervosa e gerar alguma situação agressiva por parte dele.

"Assim permaneceu, em pânico, enquanto massageava a barriga do médium, que pediu para ela continuar e que fizesse a massagem com mais amor, carinho", diz o relato do depoimento dela à Polícia Civil.

João de Deus teria pedido para a denunciante abaixar a mão, quando ela teria notado que uma parte do pênis dele estava para fora da roupa. "Ele arrumou as calças, acendeu a luz e pediu para escolher um dos quadros que estavam em cima da mesa", afirmou ela.

Ele então teria destrancado o cômodo, pedido que ela saísse e a apresentado ao público de forma elogiosa. "Pediu que ela escolhesse um dos cristais que estavam no salão. E que ela não relatasse a forma do tratamento para ninguém", concluiu a depoente.

Para os investigadores, esse e outros casos demonstram que João de Deus se aproveitava da vulnerabilidade "psicoemocional" das pacientes -fragilizadas por conta de doenças- para praticar os abusos. Para isso, usaria uma estratégia de intimidação, ao isolá-las dos demais atendidos, além de dar às violações uma roupagem de ritual de fé.

A Promotoria de Goiás diz já ter recebido mais de 500 relatos de mulheres que se dizem vítimas de João de Deus.

"Cada narrativa deverá ser analisada cuidadosamente, porque pode conter relato de violência real, ou emprego de fraude, ou, em diversas hipóteses, de vulnerabilidade da vítima, o que poderá configurar estupro de vulnerável", diz a promotora Silvia Chakian, da força-tarefa do Ministério Público de SP.

"Quem vai atribuir essa tipificação no momento da denúncia é o Ministério Público, titular da ação penal, ainda que o investigado tenha sido indiciado por crime diverso."