Acordo Mercosul e UE gera potencial de US$ 133 bilhões ao Brasil

Jorge de Sousa

Rafael Greca - Mercosul - União Europeia - Fórum de Agricultura da América do Sul

Assinado em julho deste ano, o acordo entre Mercosul (Mercado Comum do Sul) e União Europeia (UE) gera expectativa ao agronegócio brasileiro.

Com estimativa de gerar US$ 133 bilhões em receitas ao Brasil nos próximos dez anos, de acordo com dados do MDIC (Ministério da Economia, Indústria, Comércio Exterior e Serviços), as negociações ainda precisam ser aprovadas pelos 28 países do bloco europeu e os quatro do grupo sul-americano antes de serem ratificadas.

A consultora Emily Rees tem participado das negociações entre os grupos econômicos e avalia que o agronegócio brasileiro não é visto como sustentável pelo consumidor europeu.

“O Brasil é uma potência agrícola sustentável e isso precisa ser levado para essas gerações mais jovens. É preciso criar mecanismos para divulgar essas práticas e mudar essa visão da produção brasileira”, avaliou Rees.

Essa classe de 18 a 24 anos tem participado diretamente na renovação política no continente. Conhecida como “onda verde”, o movimento em prol das causas ambientais deve eleger 71 representantes para o Parlamento Europeu, número recorde para essas legendas e ocupar 9,45% das 751 cadeiras totais.

Por isso, o trabalho de relacionamento do Brasil com esse público que procura e está disposto a pagar mais por produtos que respeitem o bem-estar animal e o meio ambiente é importante para a melhora da imagem do setor no mercado europeu.

Paraná como referência

O agronegócio é parte importante da economia paranaense. Somente em 2018, US$ 14 bilhões de receitas foram geradas pelo setor, 70% do total do valor das exportações do estado no período.

Na visão do superintendente da Ocepar (Organização das Cooperativas do Paraná), Robson Maffioleti, o estado já possui uma boa base para atender a demanda europeia.

“A principal questão para esse mercado é a sanidade dentro dos rebanhos e lavouras. Algo que já recebe nosso constante investimento e procura por novas certificações para nossos produtos”, explica Maffioleti.

Recentemente o Paraná se aproximou de conseguir o status de zona livre de febre aftosa. O estado irá investir na construção de um Posto de Fiscalização de Transporte Agropecuário (PFTA) e na contratação de médicos veterinários e técnicos agrícolas. Com isso, a previsão da conquista dessa certificação é para 2021.

Maffioleti destaca que os setores de carnes, soja, milho e açúcar devem ser os mais beneficiados no agronegócio paranaense. Já o setor de lácteos deve ter que se adequar em algumas questões, principalmente com a redução das alíquotas para a importação de queijos europeus.

“O Mercosul nunca fez um acordo desse nível e por isso temos que continuar avançando em sanidade para manter essas parcerias. A União Europeia representa um mercado de 780 milhões de pessoas e 25% do PIB (Produto Interno Bruto) mundial”, finaliza o superintendente.

Giovani Ferreira - Mercosul - União Europeia - Fórum de Agricultura da América do Sul
Coordenador do Fórum, Giovani Ferreira em discurso na abertura do evento. Foto: Lucilia Guimarães/SMCS

Protecionismo pode ser obstáculo

Além da necessidade de aprovação pelos parlamentos europeu e sul-americano, outras variáveis devem ter participação na ratificação desse acordo. Uma delas é o desdobramento comercial entre China e Estados Unidos.

As potências mundiais têm aumentado as alíquotas de diversos produtos negociados entre os países, o que tem impactado no agronegócio de todo o mundo.

O Brasil, por exemplo, tem sido beneficiado no curto prazo. Na avaliação do especialista em comércio exterior da Legex Consultoria, Fabio Carneiro Cunha, os chineses buscaram suprir sua demanda com a produção brasileira.

“Quando a China deixa de comprar dos EUA surge um espaço para o Brasil, para as cooperativas paranaenses e para o estado do Paraná que tem, majoritariamente, na sua balança, um percentual significativo de exportações”, pontua Carneiro Cunha.

Mas o especialista alerta que a médio e longo prazo o Brasil precisa de parcerias mais consolidadas, principalmente pelo fortalecimento de instituições que regulamentem o mercado como a OMC (Organização Mundial do Comércio).

Atualmente China e EUA estão criando dificuldades para a OMC realizar esse controle, o que pode prejudicar o futuro de acordos bilaterais, como o do Mercosul e a União Europeia, por exemplo.

Para o diretor da Divisão de Agricultura e Commodities da OMC, Edwini Kessie, os outros países devem trabalhar para buscar defender os interesses multilaterais e combater qualquer tentativa de protecionismo dentro do mercado e destaca o trabalho do Brasil dentro dessa questão.

“O Brasil, mais uma vez, é um ator de peso, que trabalha sem descanso para o fortalecimento multilateral. Além disso, os padrões de sustentabilidade do agronegócio brasileiro são vistos de forma positiva por consumidores de outros países”, discorre Kessie.

Curitiba como palco de discussões

Rees, Kessie e Carneiro Cunha foram alguns dos nomes que participaram do 7º Fórum de Agricultura da América do Sul. O evento foi realizado entre os dias 5 e 6 de setembro em Curitiba, no Museu Oscar Niemeyer, e recebeu especialistas de diversos países, além do Prefeito de Curitiba, Rafael Greca, e do vice-governador do Paraná, Darci Piana.

O objetivo do encontro foi discutir as políticas internacionais dentro do agronegócio com foco no continente sul-americano, principal celeiro agropecuário do mundo.

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