12 produtos respondem por 75% da renda agrícola nacional

Mariana Ohde


Por Embrapa

12 produtos respondem por 75% da renda agrícola nacional. O número represente apenas cerca de 10% do total. O levantamento foi realizado por pesquisadores da Embrapa com base no valor médio da produção, nos anos de 2006 a 2008, de 122 produtos obtidos em lavouras permanentes e temporárias, na criação de animais, na produção pecuária (casulos, leite, lã, mel e ovos), no extrativismo vegetal e na silvicultura.

O estudo, liderado por Fernando Luís Garagorry, da área de sócio-economia da Secretaria de Gestão Institucional da Embrapa, com base em dados do IBGE, não produz análises sobre a dinâmica e concentração da produção agrícola, mas oferece uma fotografia das transformações ocorridas na agricultura desde o início do processo modernização tecnológica há quatro décadas.

Obtidos os valores de produção de cada item, os pesquisadores organizaram os produtos em conglomerados a que chamaram “quartéis”, pela ordem decrescente de valor. No quartel 4 estão o produtos que apresentaram maior participação na renda agrícola, no caso a carne bovina (14,57%) e a soja (14,19%), que contribuíram para a formação de pelo menos 25% dessa renda, naquele triênio. No quartel 3, estão cana-de-açúcar (9,84%), milho (7,93%) e leite bovino (7,73%), que somados aos dois primeiros, compuseram mais que 50% da renda agrícola.

Café, tão marcante em toda a história do Brasil, em 2008 figurou apenas como sexto item em importância econômica para a agricultura, abrindo o quartel 2, no qual ainda se incluem, ordenados pelo peso da contribuição, galinhas/frangos/pintos, suínos, arroz, laranja, mandioca e feijão, completando 75,52% da renda agrícola naquele triênio. Os 110 produtos remanescentes estão no quartel 1 e contribuíram com os 24,48% necessários para completar 100% da renda agrícola total.

Além da panorâmica nacional, o estudo mostra também quais produtos se tornaram mais importantes para a formação da renda regional e estadual. A comparação entre as tabelas convida a imaginar como o empreendedorismo, a busca pela eficiência e competitividade, a oferta tecnológica, restrições ambientais e as políticas públicas influíram nas resultantes do conflito entre a agricultura tradicional e extrativa e as forças de mudança e inovação.

Na região Norte, apenas 8 produtos, numa pauta de 83, explicam 76,45% da renda agrícola da região. Produtos típicos e icônicos como borracha, castanha-do-brasil, mais conhecida conhecida como castanha-do-pará, guaraná e palmito não estão entre eles. A histórica bovinocultura de corte, com roupagem tecnológica moderna, se consolidou como principal ativo e responde por 31,47% da renda agrícola da região. Com o valor da produção de madeira em tora (10,54%) e mandioca (10,27%), explorações ancestrais agora mais tecnificadas, tem-se 52,28% da renda da região. Soja é o único produto novo.

Na região Sudeste, dentre 82 produtos, apenas 9 respondem por 76,78% da renda agrícola. Soja é também novidade. Todos os demais são produtos históricos como leite, carne e milho, sendo cana-de-açúcar (20,86%) e café (13,40%) os campeões de renda. Na região Sul, numa lista de 86, 10 produtos, praticamente todos históricos, respondem por 76,38% da renda agrícola. Soja (19,42%), a exceção, é o campeão de renda. Carne (8,75%), leite (7,09%) e trigo (3,05%), ícones da colonização na região, são respectivamente apenas terceiro, quarto e décimo em termos de contribuição para formação de 75% da renda agrícola.

O Centro-Oeste e o Nordeste ocupam os extremos na marcha da concentração produtiva. Sem uma agricultura tradicional forte e totalmente dependente do uso intensivo de tecnologias tropicais para sua incorporação ao processo produtivo, o Centro-Oeste é o campeão da concentração produtiva: apenas quatro produtos respondem por 75,44% de sua renda agrícola. Soja e carne bovina geram 59,83% da renda. Milho e algodão herbáceo contribuem com o restante para alcançar essa marca.

O Nordeste é a região em que a produção é menos concentrada: 16 produtos, entre modernos e tradicionais, contribuem para gerar 76,16% da renda agrícola da região. Tradição e restrições ambientais parecem refrear o ímpeto da concentração.

Nas faixas de cerrado, onde a chuva é mais constante e generosa, prosperam tanto novidades como a soja, o algodão herbáceo, a madeira para celulose e até mesmo o café, quanto produtos históricos como carne, leite, cana-de-açucar, milho, mandioca e feijão. Na caatinga, nos nichos onde há água, convivem novidades como manga, banana, melão, uva e tomate com cultivos e criações históricas mais tecnificadas.

Nos estados, a fotografia mostra surpresas oriundas do mesmo processo de modernização agindo sobre diferentes condições de oferta ambiental, empreendedorismo, mercado e políticas públicas.

São Paulo não é mais o estado da política do café com leite: embora o estado seja o terceiro maior produtor de café e o sexto maior de leite, os produtos são apenas sétimo e oitavo em contribuição para a formação da renda agrícola. Cana de açúcar e laranja respondem por 50% da renda agrícola estadual.

Minas Gerais abraçou a inovação, mas permanece onde sempre esteve: é o maior produtor de café e de leite, que são os produtos mais importantes de sua pauta, respondendo por 39,19% de sua renda. Ainda que seja a maior produtora da amêndoa, Bahia não é mais a terra do cacau: hoje é terra de soja e do algodão herbáceo. Pernambuco, apesar de toda inovação da fruticultura irrigada, ainda é a terra dos engenhos de cana de açúcar. Cada estado reagiu de maneira distinta à pressão por inovação.

Previous ArticleNext Article
Mariana Ohde
Repórter no Paraná Portal