Dos sommeliers aos growlers, comércio inova na venda de cervejas artesanais

Mariana Ohde e Andreza Rossini

As cervejas artesanais ganharam espaço e ganharam lojas especializadas e recipientes próprios.

Elas são maioria no Paraná: entre 93 fabricantes de cervejas e chopes, segundo dados da Federação das Indústrias do Estado do Paraná (Fiep), 89 têm até 49 funcionários. São as microcervejarias, que concentram a maior parte da produção da chamada cerveja artesanal – a cerveja feita em pequena escala e, em geral, com insumos de alta qualidade.

O produto diferenciado ainda detém uma parte pequena do mercado – cerca de 1% – , mas tem um futuro promissor. Segundo o presidente da Associação Brasileira de Cerveja Artesanal (Abracerva), Carlo Lapolli, este mercado tem crescido, nos últimos anos, entre 20% e 30%, ao ano.

Para o presidente da Associação das Microcervejarias do Paraná (Procerva), Richard Buschann, o índice de crescimento alto também é percebido no estado. E o mesmo acontece com o índice de participação, que, embora seja pequeno, tem boas perspectivas, segundo Buschann.

Para se ter uma ideia, em mercados mais maduros, este índice pode chegar a 20%. “Nos Estados Unidos, por exemplo, ele gira em torno de 17%”, exemplifica Buschann. “É um país em que já tem a cultura da cerveja artesanal”.


No Brasil e no Paraná, já é possível perceber esta mudança. O público está, cada vez mais, mais interessado nas cervejas artesanais. Prova disso? Os espaços reservados para elas nas gôndolas dos supermercados, que são cada vez maiores.

O Pão de Açúcar, por exemplo, trabalha com a venda de cervejas artesanais há dez anos. “Este é um mercado em grande expansão no Brasil e notamos um aumento de vendas na rede”, afirma a consultora de cervejas especiais e sommelière Kathia Zanatta.

“Atualmente, integram o portfólio de cervejas especiais do Pão de Açúcar mais de 190 rótulos provenientes dos mais diferentes países”, conta. Segundo ela, os rótulos mais procurados são estrangeiros, como a Hoegaarden, Goose Island e Wals Session Citra, mas opções nacionais como a Colorado, de São Paulo, também se destacam.

Já no Festval, a preferência da rede são as cervejas produzidas no Paraná. “Sempre temos Klein e Way, entre outras. É um setor de vendas que cresce a cada ano”, conta Gustavo Beal, responsável pelo setor de cervejas especiais.

Segundo ele, há planos de ampliação. A rede planeja, atualmente, contratar um sommelier para auxiliar os consumidores na compra do produto, assim como já acontece no setor de vinhos. “A ideia é implantar até o final deste ano”, prevê.

Lojas especializadas

Quando Valdo Santos abriu uma loja no Mercado Municipal de Curitiba, suas prateleiras estavam apinhadas com diversos produtos. Entre eles, as cervejas artesanais. Mas, na medida em que novos rótulos surgiam e faziam sucesso entre os clientes, Santos acrescentava um espaço a mais para elas. “Quando a gente viu, só tinha cerveja”, brinca.

Hoje, seis anos depois, a Manfré Cervejas Especiais é a maior loja no Paraná especializada no produto, com cerca de 600 rótulos. Na primeira loja, no Mercado, já chegaram a ser comercializadas 4 mil garrafas por mês. “Foi o metro quadrado que mais vendeu cerveja especial no Brasil”, comemora Santos.

Com o tempo, o espaço ficou pequeno e foi aberta a segunda loja no local. “Hoje somos uma das referências do Brasil no mercado cervejeiro. Já tivemos 700 rótulos. Hoje, temos 600, o que nos coloca entre as três ou quatro maiores do Brasil. Do Sul, a gente é a maior”, conta.

A escolha das cervejas é minuciosa. Segundo Santos, o mercado, em crescimento, além de trazer diversas opções, tem os chamados “aventureiros”, que produzem produtos de menor qualidade. Santos explica que, por isso, o primeiro passo é degustar e, o segundo, ficar de olho nos fabricantes renomados.

“O Paraná, hoje, tem as melhores cervejarias”, diz. De acordo com Santos, 15% dos produtos da Manfré são do estado, mas também há rótulos de outros estados e países. Entre as cervejas, há opções que custam mais de R$ 300.

A demanda é crescente, porém, segundo Santos, o mercado ainda enfrenta dificuldades que não acometem apenas a indústria, mas também o comércio. “No Brasil, a gente tem que colocar data de validade, tem a maior carga tributária”, explica.

Outra dificuldade é a de que muitas cervejarias têm qualidade, mas enfrentam empecilhos para produzir e envasar os produtos. “Você tem muitas boas cervejarias, cervejeiros ciganos, que têm produção, qualidade boa, mas não conseguem uma planta”, explica. Este cenário, de acordo com Santos, prejudica a regularidade dos fabricantes e faz com que os rótulos não estejam tão presentes quanto poderiam estar no comércio.

“Mesmo assim, o mercado cresce 20% ao ano. O empresário, no Brasil, deveria ganhar medalha”, brinca. “Curitiba é a capital das cervejas artesanais. Para mim, tem uma das melhores escolas cervejeiras”, diz.

Negócios inovadores

O mercado da cerveja artesanal é pautado pela inovação, do campo às prateleiras. A Growler Brasil, desde 2016, trabalha com uma das principais: a venda da cerveja em growlers, enchidos na contra-pressão.

No início, a empresa operava em unidades móveis, montadas em Kombis, um modelo inspirado nos food trucks. “A estratégia era ter pontos fixos, em um circuito itinerante, dentro da cidade”, explica Vicente Vieira, proprietário da Growler Brasil e sommelier.

Mas a Kombi foi um sucesso tão grande que a ambição cresceu. A Growler Brasil se tornou uma loja e, aos poucos, as unidades móveis foram sendo deixadas de lado. A loja permite que sejam comercializadas mais opções – hoje, são dez tipos de chopes, segundo Vieira. Por mês, são vendidos até mil litros.

Os produtos são escolhidos por um sommelier e de acordo com a opinião dos consumidores, explica o proprietário. “A gente sempre tem cervejas clássicas, a gente sempre vai atrás das novidades e fica em cima das premiações”, explica.

A prioridade é para as cervejas locais. “A gente tem a política de ajudar quem está perto, que a gente vai mais longe”, afirma Vieira. “Das dez opções que tenho, no mínimo quatro ou cinco são locais”.

O produtos são vendidos nos growlers, recipientes adequados para o transporte que surgiram com a popularização da comercialização das cervejas especiais. Eles preservam, por mais tempo, características como sabor, aroma e carbonatação.

Os recipientes têm tampas especiais, de pressão. Segundo Vieira, um sistema de vedação apropriado é importante e o manuseio também. “A garrafa precisa ter sido fabricada para suportar a contra-pressão e ser vedada”, explica.

“Os growlers precisam ser enchidos na máquina apropriada na contra-pressão. Não adianta o cliente encher o growler em uma torneira de chope, por exemplo, que não vai ter o mesmo resultado”.

Samuel Cavalcanti, fundador da Bodebrown, é um dos adeptos dos growlers. A empresa promove, inclusive, um evento voltado para eles: o Growler Day.

“O uso dos growlers tem várias vantagens. É uma forma de consumo mais sustentável, pois evita as embalagens descartáveis, e ainda aproxima o artesão produtor da cerveja dos fãs, num relacionamento direto. Além disso, o preço por litro acaba saindo mais barato, pois o fabricante não tem o custo da embalagem”, explica.

Em relação aos preços, Vieira explica que os produtos são diferenciados e, por isso, têm uma variação. “Tenho cervejas aqui que custam R$ 6 e outras que custam R$ 300. Elas podem ser maturadas em um barril especial, por exemplo. Nós recebemos uma cerveja que foram produzidas só 2,5 mil garrafas para toda a população mundial, ela tinha pimenta, café especial, foi feita em barril de bourbon e, é claro, isso tem um custo”, ilustra.

Os preços são uma preocupação no comércio. Para Vieira, é importante orientar o público. “Às vezes, o cliente não quer saber o preço, quer levar uma cerveja que ele possa chegar em casa e degustar”, explica. “Eu preciso orientar o meu cliente a levar a cerveja que ele está procurando, não tentar vender pelo preço mais alto”.

Para Vieira, além do preço, as variáveis são muitas. “Não é porque é uma cerveja de fruta, com morango, que vai ser doce. Não existem cervejas especiais para se tomar no verão ou no inverno, existem harmonizações com pratos e com determinadas situações”, exemplifica.

Mas, apesar de ainda haver essa necessidade de educar o público e criar uma cultura da cerveja artesanal, as perspectivas são boas, para Vieira. “O mercado de cerveja artesanal é um dos que mais cresce no Brasil hoje, com uma expansão de quase 20% ao ano. Poderia crescer mais, mas falta incentivo do governo e profissionais da área que eduquem o cliente”, afirma.

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Mariana Ohde
Repórter no Paraná Portal
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