Paraná é líder na produção de cevada e malte

Mariana Ohde e Andreza Rossini

Na primeira matéria da série Cervejas do Paraná, conheça essas duas forças do estado.

A cerveja vem do campo. E, de campo, o Paraná entende: além de estar entre os maiores produtores nacionais de grãos e outros produtos agro, o estado é destaque em todas as etapas da cadeia produtiva desta que é uma das bebidas mais amadas no Brasil.

Com cerca de 54 mil hectares previstos para a safra 2017/2018 e produção estimada em 251,9 mil toneladas, o Paraná é o maior produtor nacional de cevada, matéria-prima do malte, um dos principais ingredientes da bebida.

E está aqui, também, a maior maltaria da América Latina: a cooperativa Agrária, de Guarapuava, que fabrica anualmente cerca de 350 mil toneladas do produto – volume destinado, integralmente, à indústria cervejeira.

Prosperidade no campo

O Brasil deve produzir, na safra atual, 427.394 toneladas de cevada, das quais 251.968 toneladas serão colhidas nos campos paranaenses – ou seja, cerca de 60% do total. A estimativa, de maio, representa um crescimento de 1,6% em relação à divulgada no mesmo período do ano passado (247.813 toneladas).


Nas projeções de maio, o Paraná é o primeiro colocado entre os produtores de cevada, seguido do Rio Grande do Sul (157.800 toneladas), São Paulo (12.432) e Santa Catarina (5.194).

Os dados são do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e do Departamento de Economia Rural do Paraná (Deral).

Segundo Marcelo Garrido, economista do Deral, a área de plantio da cevada tem se mantido estável nos últimos anos, em torno de 50 mil hectares.

Por ser uma cultura de inverno, ela tem como principais regiões produtoras Guarapuava, com produção estimada, para esta safra, de 174.225 toneladas, seguida por Ponta Grossa (41.800), Curitiba (16.998), Pato Branco (8.000) e Irati (7.200).

A prosperidade da cultura da cevada, no estado, se deve, principalmente, a fatores como a expansão da produção de malte no estado, a presença de gigantes como Heineken e Ambev, e ao crescimento das microcervejarias, fabricantes das cervejas artesanais – aquelas produzidas em pequena escala. É o que explica o diretor geral do Deral, Francisco Carlos Simioni.

De acordo com ele, o Paraná mostra maturidade na produção. “Nós temos, hoje, um produtor, praticamente integrado com a indústria de malte do Paraná, existe a perspectiva de expansão da industrialização da cevada no Paraná e nas regiões com potencial produtivo, já identificadas tanto pela pesquisa pública quanto privada”, explicou em entrevista à rádio da Agência Estadual de Notícias.

“O número de cervejarias cresceu bastante”, concorda Garrido. “Curitiba, hoje, tem uma infinidade de microcervejarias, é um nicho de mercado que cresceu muito nos últimos 5 ou 6 anos”.

Ele também aponta a presença das gigantes como fator para o sucesso da cultura da cevada no estado. “Temos a Ambev e a Heineken, que compram malte da Agrária”, exemplifica.

Malte feito aqui

Se o Paraná é líder na produção de cevada, a Agrária Malte é líder no segundo passo do ciclo de fabricação da cerveja: a maior maltaria da América Latina atende, aproximadamente, 30% da demanda do mercado brasileiro.

Mas essa história começou lá atrás. A cooperativa Agrária foi fundada em 1950 pelos imigrantes alemães, que chegaram à região no século 19. “Eram imigrantes que estavam fugindo da 2ª Guerra Mundial”, conta Rafael Mattes, coordenador comercial da Agrária Malte.

No início, o foco eram produtos como soja, milho e trigo. Em 1981, nasceu o braço da cooperativa voltado para a produção de malte a partir da cevada. “Na época, havia uma parceria com a cervejaria Antarctica; 60% Agrária e 40% Antarctica”, explica Mattes.

Ainda nos primeiros anos, a Agrária comprou a participação da Antarctica. Hoje, são 350 mil toneladas de malte por ano.

Segundo Mattes, parte da cevada consumida pela maltaria é brasileira e parte importada. “50% da nossa demanda de cevada é atendida no Brasil e os outros 50% é importada da Argentina. Mas isso varia conforme a produção de cada safra”, explica.

No Brasil, os fornecedores se concentram no Sul e Sudoeste. “[Há produtores] em Ponta Grossa, Oeste de Santa Catarina, um pouco no Norte de Santa Catarina, mas a maior parte é dos nossos cooperados”.

A Agrária conta, hoje, com 640 cooperados, ao todo. Na Agrária Malte, são cerca de 450. A expectativa de produção, para esta safra, que será colhida em novembro e dezembro, é de 49 mil hectares.

Para Mattes, o contato direto com os cooperados é essencial. “A nossa comunidade se mistura com a história da Agrária. Ela foi fundada para atender a comunidade”, afirma.

Cuidado que começa no campo

Mas a tarefa da cooperativa não se resume, absolutamente, à fabricação do malte. Segundo Mattes, a preocupação com a qualidade dos produtos começa nas sementes.

“Nós temos a FAPA, que é a Fundação Agrária de Pesquisa Agropecuária, que trabalha no desenvolvimento de cultivares propícios para nossa região”, conta.

“A única latitude no mundo em que se planta cevada é aqui no Brasil. A gente tem uma cultiva bem específica. A cevada que está sendo plantada hoje, comercialmente, no campo, levou 10 anos para ser desenvolvida e ela passou por, pelo menos, mil cruzamentos”.

A cultivar, segundo Mattes, tem o objetivo de atender o cooperado, que busca o maior rendimento. Mas ela também precisa atender a indústria. “A cevada é viável desde que atinja o padrão cervejeiro. Quando ela não atinge o padrão cervejeiro, ela tem um valor muito menor, ela é utilizada para ração”, explica, e brinca: “Nosso maior desafio é São Pedro”.

Todo o investimento, e também o trabalho constante junto aos cooperados, tem outro fator importante de motivação: mover toda a cadeia. “É um desafio grande e é a única maltaria no mundo que tem o controle de toda essa cadeia. As outras maltarias, em geral, compram cevada de diferentes produtores”, diz.

“Quanto mais cevada nacional tivermos, obviamente, mais competitividade. A gente não precisa importar e é melhor para a cadeia como um todo. Para as cervejarias também”.

Leque cada vez maior

O carro chefe da Agrária é o Malte Pilsen, mas, recentemente, o leque de produtos precisou crescer. “O paladar do consumidor de cerveja está mudando. As pessoas estão experimentando cervejas mais encorpadas, de diferentes estilos. Cervejas americanas, lupuladas, mais maltadas. Então, estão consumindo cervejas que utilizam muito mais ingredientes e diferentes matérias-primas”, explica Mattes.

Com isso, o portfólio da Agrária aumentou. No ano passado, a maltaria passou a produzir, também, maltes especiais, como o Pale Ale, Vienna e Munique.

“O grande diferencial desses maltes é que a gente produz eles somente com cevada nacional e a aceitação, o feedback do mercado tem sido excelente”, conta Mattes. Segundo ele, a cevada nacional pode ser comercializada a um preço abaixo do mercado, por não ter o custo de importação.

Em 2005, a Agrária começou a importar também malte da maior fabricante de maltes especiais, a Weyermann. Hoje, além dos maltes, a cooperativa oferece um portfólio completo para produção de cerveja, com lúpulos, fermentos secos e líquidos, extratos, entre outros.

Um dos clientes da cooperativa é a cervejaria Manicas, de Curitiba. “A gente usa, basicamente, os maltes da Agrária, que é aqui do Paraná. É um fornecedor grande que a gente tem aqui”, conta Rafael David, responsável pela elaboração das receitas das cervejas.

Hoje, cerca de mil cervejarias estão cadastradas na Agrária, muitas delas ciganas – cervejarias sem fábrica própria -, além de lojas de insumos, que atendem também quem produz o produto em casa. Entre as cervejarias cadastradas, cerca 790 são microcervejarias.

85% das cervejarias, segundo Mattes, estão no Sul e Sudeste do Brasil, com liderança do Rio Grande do Sul.

“Isso faz parte desse movimento, beba local, consuma local. Tem muitas cervejarias – são mais de 700 no Brasil – que estão espalhadas pelo país todo e cada uma utiliza um ingrediente. Tem cerveja com chimarrão, com pinhão, em Minas Gerais tem com rapadura, com ingredientes locais, valorizando a cultura local”, afirma.

“É um mercado diferente, um mercado muito criativo, que lança muita cerveja e demanda muito apoio técnico”, afirma.

E é para oferecer este apoio que a cooperativa organiza eventos – como o Dia de Experiência Agrária, em que é possível conhecer a cooperativa e a maltaria – e mantém uma cervejaria experimental, para que os clientes trabalhem as receitas. Há, ainda, oito representantes comerciais no Brasil. “Nosso grande diferencial é nossa assistência técnica”, afirma Mattes.

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Mariana Ohde
Repórter no Paraná Portal