Apesar dos desafios, microcervejarias crescem em ritmo acelerado no Paraná

Mariana Ohde e Andreza Rossini

A tributação no Paraná e a falta de conhecimento por parte do público são as principais dificuldades.

Do campo ao copo: líder na produção de cevada e malte, o Paraná movimenta uma indústria cervejeira que cresce em ritmo acelerado. O estado tem, hoje, 93 fabricantes de cervejas e chopes, segundo dados da Federação das Indústrias do Estado do Paraná (Fiep). Entre eles, duas das três maiores indústrias do setor: a Heineken e a Ambev, que detêm, juntas, cerca de 80% de participação no mercado cervejeiro nacional.

Mas o estado não é feito apenas de gigantes – pelo contrário. Entre as 93 indústrias cervejeiras, a maioria (89) tem até 49 funcionários, segundo classificação da Fiep. São as microcervejarias, que concentram a maior parte da produção da chamada cerveja artesanal; a cerveja feita em pequena escala e, em geral, com insumos de alta qualidade.

A produção menor, para consumo regional, não é novidade – foi assim que a cerveja começou a ser fabricada no Brasil. Mas, nos últimos dez anos, o Paraná viu essa forma de produção crescer e se profissionalizar. O número de microcervejarias saltou, acompanhado pelas cervejarias sem fábrica própria, que alugam plantas para produzir.

Segundo o presidente da Associação Brasileira de Cerveja Artesanal (Abracerva), Carlo Lapolli, este mercado tem crescido, nos últimos anos, entre 20% e 30% ao ano. Uma força que pode mudar o cenário para as microcervejarias e para a cerveja artesanal no país. Hoje, embora as pequenas sejam a maioria, a participação de seus produtos no mercado brasileiro fica entre 1% e 1,5%.


Segundo o presidente da Associação das Microcervejarias do Paraná (Procerva), Richard Buschann, o índice de crescimento alto também é percebido no Paraná – levando-se em consideração tanto as empresas com indústria própria quanto as que terceirizam a produção.

O mesmo acontece com o índice de participação no mercado, que, embora seja pequeno hoje, tem uma perspectiva promissora, segundo Buschann. Para se ter uma ideia, em mercados mais maduros, este índice pode chegar a 20%. “Nos Estados Unidos, por exemplo, ele gira em torno de 17%”, exemplifica Buschann. “É um país em que já tem a cultura da cerveja artesanal”.

“As chances de crescimento são altas. O Brasil é um país que aprecia cerveja”, diz Patrick Silva, membro do Comitê Macroeconômico da ISAE. Lapolli concorda: existe muito espaço ainda. “Se falarmos que as classes A e B são 15% ou 16% da população, ainda tem espaço para pessoas com poder aquisitivo comprar”, exemplifica.

Segundo o presidente da Abracerva, o mercado ainda se encontra na fase de apresentar o produto ao consumidor. “Isso é um pouco cultural. Vamos pensar o seguinte: nos Estados Unidos, eles estão com um movimento desde a década de 70, quando começaram com a cerveja artesanal. Eles já têm uma geração de consumidores que estão na idade legal de beber e já conhecem a cerveja. A gente não passou ainda por isso. A gente ainda está no começo dessa geração”, explica.

No Brasil, o público jovem, que tem maior conhecimento sobre o produto, em geral, tem um poder aquisitivo menor. Mas, para Buschann, já é possível perceber a presença dos mais jovens no mercado. “Hoje, você vê estudantes, por exemplo, nos eventos e nas lojas”.

Para ele, também, o amadurecimento do mercado deve aumentar o consumo nos próximos anos, mas as cervejarias não deixam de trabalhar ativamente para “educar” o público a respeito. “Nós promovemos eventos, como o Festival da Cultura Cervejeira Artesanal e Procervafest que, neste ano, acontece em agosto. A gente leva as cervejas aos consumidores, no centro de Curitiba”, exemplifica.

“É um caminho sem volta para aqueles que provam a cerveja artesanal”, afirma Lapolli. “A gente viveu, até agora, a pré-história da cerveja artesanal. Daqui pra frente, a gente começa a escrever o futuro”.

Microcervejarias no Paraná

Um estudo realizado pelo Sebrae/PR, Procerva e Faculdade Guairacá mapeou o setor de microcervejarias artesanais no estado. Foram identificadas e analisadas 65 microcervejarias entre setembro e dezembro de 2017 – número que, segundo a consultora Michele Riquetti Tesser, já pode ser maior.

“Esse setor é tão dinâmico que, hoje, nós já temos uma realidade distinta. Se a gente fala em capacidade produtiva, no final de 2017, 79% das indústrias tinham uma capacidade instalada entre mil e 50 mil litros/mês. Essa realidade já é diferente porque, independentemente do tamanho da cozinha, basta adicionar fermentadores e a possibilidade de produção dobra, triplica”, explica.

Hoje, 11% das microcervejarias estão há menos de um ano no mercado; 22% têm entre 1 e 3 anos; 23% têm entre 3 e 5 anos; 17% têm entre 5 e 7 anos e 27% estão há mais de sete anos no mercado.

Para Riquetti, os números mostram que há empresas maduras, porém, o ritmo de crescimento não diminuiu. “As empresas estão se estabelecendo. É um mercado que, inclusive, está se testando muito. O consumidor de cerveja busca bastante variedade, inovação. Ele, geralmente, não é fiel a uma marca só, porque está aprendendo a beber a cerveja artesanal”, conta.

Riquetti ainda esclarece que a cerveja artesanal é diferenciada pela qualidade dos insumos, podendo ser produzida por empresas de diversos portes, apesar de a produção estar concentrada nas microcervejarias.

Por isso, há o que a consultora classifica como uma “explosão” de novas marcas. “Isso já está acontecendo e não há dúvidas de que vai seguir em crescimento. O que não significa, necessariamente, que cresça, na mesma proporção, o número de microcervejarias. Você pode ter uma grande indústria tendo uma marca de cerveja artesanal e produzindo ela”, explica.

O mapeamento aponta que 58% das cervejarias produzem exclusivamente para suas próprias marcas e 34% terceirizam a produção para outras marcas. Entre os estilos mais produzidos no estado, hoje, estão a IPA (73,8%), Pilsen (64,6%), Weizen (58,5%), APA (44,6%) e Witibier (32,3%).

A capacidade de produção instalada também foi apurada. 40% dos entrevistados responderam que podem produzir entre 1.001 e 10.000 litros/mês. Outros 39% afirmaram ter potencial de produção entre 10.001 e 50.000 litros, mensalmente.

Uma delas, é a Maniacs, com sede em Curitiba. A empresa tem planta própria, e terceiriza a produção quando necessário.

A capacidade produtiva instalada total é de 2,3 milhões de litros por mês no Paraná.

A maioria das microcervejarias paranaenses está em Curitiba e região metropolitana (26) e nos Campos Gerais (11). “Curitiba se destaca, também, pela cultura de consumo dessa cerveja”, explica Riquetti. Segundo o Sebrae, há polos cervejeiros também no Norte, no Sul e Oeste do Paraná, com relevância e tradição no ramo.

“A capital do Paraná concentra um dos maiores polos cervejeiros do Brasil, com fábricas e marcas ciganas que produzem cervejas artesanais premiadas internacionalmente. Em Curitiba, destacam-se, pelo volume produzido, as microcervejarias Asgard, Bier Hoff, Bodebrown, Gauden Bier, Klein Bier, Way Beer e Wesnky Beer”, afirma o pesquisador Ricardo Telles.

Buschmann destaca a região metropolitana da capital. “Em Pinhais, por exemplo, já temos duas novas fábricas neste ano, somando um total de oito. É o que temos em toda a Grande Curitiba”, explica.

Veja o estudo completo

Tributação é a principal dificuldade

Mas o setor ainda tem algumas dificuldades que são consenso entre fabricantes e comerciantes. Carlo Lapolli, da Abracerva, aponta a principal delas: a tributação, que influencia os preços. “Enquanto as grandes têm incentivo fiscal, a gente não tem. Tem uma capacidade de produção menor, os custos são maiores e a tributação é muito maior”.

Para Richard Buschann, presidente da Procerva, o problema é maior no Paraná – estado com a maior tributação para a bebida. No início do ano, as microcervejarias foram inclusas no Simples Nacional, que unifica tributos como IRPJ, IPI e PIS/Cofins. Porém, o ICMS, que é um imposto estadual, segue sendo cobrado à parte. No Paraná, sobre a bebida produzida nas microcervejarias, incide, hoje, uma alíquota de 29%, segundo Buschann.

“Os pequenos já têm um custo de produção maior. Há o Simples Nacional, mas as vantagens não se aplicam à cerveja. Ao mesmo tempo, há incentivo fiscal para as grandes indústrias, o que torna a concorrência desigual”, explica. “Como você vai convencer o consumidor, que tem 300 ml por R$ 2, a investir em uma garrafa vendida a R$ 15?”, exemplifica.

Lapolli afirma que há um movimento nacional para “democratizar” a cerveja artesanal. “A gente tem trabalhado para equalizar um pouco a tributação da cerveja artesanal, mas ainda é o grande desafio nosso. Acredito que, para a democratização, para que [a cerveja artesanal] atinja um público maior, a gente ainda tem que trabalhar a questão da tributação”.

Para driblar o problema, muitas microcervejarias têm investido em alternativas, como a venda do chope diretamente aos bares e aos consumidores, com o chamado growler – recipiente com vedação apropriada para o transporte de chope.

“A cervejaria é mais competitiva no chope do que na garrafa, por questão de logística. Se olhar nos bares, o mercado do chope é muito disseminado pelas artesanais. Tem a vantagem de estar perto, estar próximo e ser ágil a distribuição do chope. Acredito no chope como fator de crescimento para a cerveja artesanal, o growler. Isso é o caminho que estamos vendo hoje para o mercado”.

Outras, porém, não têm alternativa senão fechar as portas. “Nós percebemos que em torno de 10% das cervejarias fecham por ano”, explica Buschann. Segundo ele, com os altos custos de produção e a tributação, a atividade se torna inviável para muitas empresas.

História

A cerveja está faz tempo no Paraná; ela chegou ao estado no século 19, e veio de longe. “Foi com a vinda dos imigrantes alemães que trouxeram consigo o hábito de fabricar e beber sua própria cerveja que esta bebida passou a ser consumida pelos curitibanos até se tornar sua bebida favorita”, conta Ricardo Silva Telles.

Pioneiros nesse setor, os imigrantes produziam para consumo próprio ou da comunidade, no início. “Alguns deles trouxeram cevada para plantar. Mas as primeiras cervejas foram feitas com milho, com arroz, trigo. Algumas com cevada, mas nunca foi uma bebida pura com cevada”, conta historiador, doutor em história econômica pela USP e sommelier, Ricardo Rugai.

A produção para o mercado consumidor, em escala, viria apenas na segunda metade do século 19. “Em São Paulo e Rio de Janeiro vão se instalar algumas fábricas, que depois se tornam famosas: a Companhia Antarctica, a Brahma, a fábrica que deu origem à Bohemia, em 1850”, conta Rugai.

Na época, as bebidas mais populares ainda eram a aguardente, vinhos fabricados aqui mesmo, licores e algumas cervejas importadas da Europa. “Além disso, [os imigrantes] fabricavam algumas bebidas artesanais a base de fermentação de gengibre, milho e outros cereais, de fabricação caseira, vendida em canecas nos bares da cidade”.

No século 20, o estado era abastecido, principalmente, pelas cervejarias Antarctica e Brahma, com suas instalações locais. A partir de 1980, foram criadas marcas como a Bavarium Park e a Alles Bier, que vieram sacudir um pouco o panorama local.

“Finalmente, a partir de meados dos anos 2000, a versão brasileira da Revolução da Cerveja Artesanal, iniciada nos Estados Unidos a partir dos anos 1980, veio produzir uma enorme diversidade de estilos mudando definitivamente o padrão de consumo para os novos consumidores cada vez mais exigentes em termos sabor, aroma, etc”, afirma o Rugai.

No Paraná, as microcervejarias curitibanas foram pioneiras na instalação de plantas modernas e eficientes. Elas se consolidaram não apenas aqui, mas também conquistaram uma ótima reputação âmbito nacional, além de terem conquistado inúmeras premiações em concursos até internacionais, segundo Rugai. “Isto em absoluto não deixa em segundo plano as microcervejarias dispersas pelo interior do estado que vieram somar suas excepcionais cervejas ao portfólio paranaense”.

Mercado cervejeiro no Brasil

Em 2017, segundo dados do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), divulgados em fevereiro, o número de cervejarias registradas cresceu, no Brasil, 37,7% em 2017. Ao final de 2016, eram 493 e, em 2017, o número chegou a 679. 8,9 mil produtos foram registrados no ano passado, uma média de 13 para cada marca.

Nos dados regionais, o estado com o maior número de cervejarias é o Rio Grande do Sul, com 142, seguido por São Paulo (124), Minas Gerais (87) e Santa Catarina (78). O Paraná é o quinto estado com maior número de cervejarias: 67.

De acordo com Lapolli, a representatividade do segmento é ainda maior. “O Mapa não considera, por exemplo, as cervejarias ciganas, que são negócios constituídos formalmente, mas que terceirizam a produção. Este número também cresceu – e muito – nos últimos anos”, explica.

Hoje, segundo os dados mais recentes, de 2016, a indústria cervejeira representa cerca de 1,6% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro. São cerca de 14 bilhões de litros produzidos por ano e cerca de 2,7 milhões de pessoas empregadas no setor.

Veja as outras matérias da série:

Post anteriorPróximo post
Mariana Ohde
Repórter no Paraná Portal
Comentários de Facebook