Microcervejarias se adaptam para receber consumidores finais

Mariana Ohde e Andreza Rossini

Consumidores finais querem ver de perto como é a produção da cerveja artesanal.

Pouco tempo depois da inauguração de sua microcervejaria em Pinhais, Alessandro Oliveira notou um movimento curioso. A fábrica da Way Beer, em uma região relativamente isolada e pacata da Grande Curitiba, de repente, passou a receber não apenas caminhões de insumos ou distribuidoras. “As pessoas batiam aqui na porta: ‘posso conhecer a fábrica?’. Todo dia, tinha gente chegando aqui”, conta Oliveira, relembrando a surpresa.

Pouco tempo após o início das operações, a fábrica precisou construir um espaço para receber os consumidores finais, que insistiam em conhecer o processo de fabricação das cervejas. Um funcionário foi incumbido de mostrar o espaço a eles. Mas não foi o bastante.

Os visitantes queriam comprar os produtos, pediam por lanches e petiscos para acompanhar as cervejas. Logo, a fábrica era também loja, bar e passou a abrir todos os sábados ao público, além de promover visitas guiadas ao longo da semana. “As pessoas têm muita curiosidade nesse sentido, ver como é uma fábrica. E quase todas as microcervejarias têm algum detalhe diferente, um equipamento. As pessoas gostam de conhecer”, afirma Oliveira.

E este não é um fenômeno isolado entre as microcervejarias paranaenses, que concentram a maior parte da produção estadual da chamada cerveja artesanal – a cerveja feita em pequena escala e, em geral, com insumos de alta qualidade. A lista de fábricas que se adaptaram para ficar mais perto dos consumidores finais só cresce. Entre elas, está, também, a Bodebrown, com sede em Curitiba.


A cervejaria foi pioneira na venda de produtos direto na fábrica. “É, principalmente, uma forma de ter contato direto com o público, trocar ideias, conhecer pessoas”, explica Samuel Cavalcanti, fundador da empresa. “A cultura da cerveja aproxima, une a pessoas. Além disso, ganhamos agilidade nos lançamentos”.

A Bodebrown também se tornou a primeira cervejaria escola do Brasil, de olho no interesse do consumidor final. “Temos cursos regulares para a formação de cervejeiros caseiros, que é o primeiro passo na viagem das artesanais”, conta Cavalcanti. “Eu acredito que quanto mais as pessoas estejam envolvidas no processo, entendendo como acontece a preparação da cerveja, mais elas vão apreciar bons produtos”.

De 2009 para cá, a escola já recebeu mais de 6 mil alunos. “Isso, sem dúvida, faz parte do crescimento da cultura cervejeira no Paraná”, comemora Cavalcanti.

Para Iron Mendes, da Maniacs, a curiosidade dos consumidores é o grande motor deste mercado. “O mercado está crescendo, ele tem ascensão natural, a cerveja é gostosa e as pessoas vão descobrindo”, afirma. “O consumidor de cerveja artesanal quer experimentar novas coisas, ele tem curiosidade, se preocupa com o que está bebendo”.

O Paraná, além de liderar a produção de malte e cevada no Brasil, está entre os estados com mais microcervejarias. Entre as 93 indústrias cervejeiras, a maioria (89) tem até 49 funcionários, segundo classificação da Federação das Indústrias do Paraná (Fiep). Uma indústria que só cresce, movida pela paixão.

Fábricas de portas abertas

Para Alessandro Oliveira, mestre cervejeiro e sócio-fundador da Way Beer, o carinho pela cerveja é uma característica forte do mercado. Quem fabrica é apaixonado, quem bebe, também. E isso beneficia, especialmente, as microcervejarias. “Nós temos um fator que ajudou muito, que é a quantidade de pessoas que fazem cerveja artesanal em casa, por hobbie”, exemplifica Oliveira. “Eu comecei a fazer assim e, então, veio a ideia de montar a cervejaria”.

A Way Beer, com sede em Pinhais, Região Metropolitana de Curitiba, foi fundada em 2010 e, hoje, mantém uma média de produção de 50 mil litros mensais. Os produtos, antes vendidos só aqui, agora chegam a 2 mil pontos de venda em todo o Brasil e são exportados para os Estados Unidos. Na capital, Curitiba, as cervejas podem ser encontradas em supermercados, lojas especializadas e na fábrica.

A American Pale Ale (APA), segundo Oliveira, é o carro-chefe, mas a Indian Pale Ale (IPA) e outras cervejas sazonais têm ganhado espaço na planta. O tempo médio de produção é de 15 a 20 dias, mas algumas cervejas levam três anos para ficarem prontas.

Em oito anos de atividades, foram produzidos mais de cem tipos de cerveja na Way Beer e, todo mês, há novos lançamentos, muitos deles temporários – como as cervejas lançadas para a Copa do Mundo da Rússia de 2018 ou para o Beer Pack, um clube de assinaturas de cerveja.

“É uma forma de fidelizar o cliente. Quem entra nesse mundo das cervejas artesanais, normalmente, tem bastante interesse pelas novidades”, conta.

Mas fabricar cervejas não é só alegria. Entre as dificuldades do mercado, Oliveira destaca a falta de conhecimento por parte do público. “Todo brasileiro tem um conceito bem formado do que é cerveja, mas é bem diferente do que vivemos na cerveja artesanal. Se temos um concorrente, é a ignorância”.

A cerveja artesanal é recente no Brasil: a bebida se popularizou há cerca de dez anos. Para Oliveira, nosso momento de consumo é diferente do de mercados mais maduros, como o dos Estados Unidos, por exemplo, onde as cervejas artesanais surgiram na década de 70.

A paixão move a indústria

Na indústria cervejeira, muitas histórias começam por amor. Foi assim com a Bodebrown, fundada em 2009, com uma produção de cerca de 10 mil litros mensais e uma cerveja apenas: a Wee Heavy. “Foi pela paixão pela cerveja. A paixão de mostrar que a cerveja pode promover uma grande viagem sensorial, de aromas, cores e paladares, e fugir daquela mesmice das cervejas comerciais”, conta o fundador Samuel Cavalcanti.

Segundo ele, as grandes cervejarias uniformizam o mercado, o que tolhe a criatividade dos cervejeiros e deixa os consumidores sem opções. “O movimento das artesanais está revertendo isso. Não queremos um produto com pouca rejeição. Queremos produtos que possam encantar diferentes públicos”.

Cavalcanti é natural de Recife (PE) e veio para Curitiba ainda na adolescência. Aqui, cursou química na faculdade e desenvolveu um interesse especial pelas matérias de fermentação e química nuclear. “Quando me formei, tinha duas opções: ou fabricar uma bomba atômica ou cerveja. Preferi a cerveja”, brinca. “A partir daí, estudei na Alemanha, visitei várias cervejarias e, em 2009, abrimos a Bodebrown”.

Cavalcanti conta com a sócia Andrea Cordeiro Pinto nesta empreitada. Juntos, eles tocam a cervejaria com produção de 50 mil litros mensais, 90 rótulos, alguns deles sazonais. A Bodebrown é também a mais premiada do estado, com títulos no “Concurso Brasileiro de Cervejas”, “South Beer Cup” e “Mondial de la bière”.

Em média, uma nova cerveja é lançada por mês. A inspiração para as receitas vem de todos os lugares, conta Cavalcanti. “Vem de viagens, de uma obra de arte, da música, da conversa com outras pessoas. Temos, por exemplo, a Cerveja do Amor, que foi inspirada numa obra de arte, e a Atomga, que foi inspirada numa banda de rock. E por aí vai!”.

A Bodebrown também mantém a venda de produtos em uma bar na fábrica, cursos, eventos e outras iniciativas para aproximar público. Uma delas é a Growler Day, lançada em 2013. O evento é voltado para a recarga dos chamados growlers – garrafas reutilizáveis desenvolvidas para acondicionar e transportar cervejas.

“Nos dias de Growler Day também há food trucks convidados e barracas de comida. A loja da Bodebrown também funciona, vendendo cervejas e produtos e insumos para quem quer fabricar em casa. O legal é que vão famílias inteiras aproveitar”, conta Cavalcanti.

Segundo ele, o uso dos growlers tem várias vantagens: é uma forma sustentável de consumo e aproxima produtores e consumidores. “Além disso, o preço por litro acaba saindo mais barato, pois o fabricante não tem o custo da embalagem”, completa.

Além dos eventos, a Bodebrown também trabalha em projetos como o Nova Fábrica Brodebrown. Por meio do site, são lançadas linhas especiais e históricas de produtos, como cervejas comemorativas e camisetas. As inovações são uma forma de contornar uma das maiores dificuldades apontadas por Cavalcanti: crescer sem perder a independência e a identidade.

“Não abrimos mão de crescer, mas queremos ficar distantes de grupos de investimento e grandes impérios. Acreditamos na força de um crescimento conectado com o trabalho artesanal e artístico, que marcam nossa essência”, afirma.

Para o cervejeiro, a proximidade com os fãs da cerveja não é só uma característica do mercado, mas a melhor forma de crescer. “São eles a razão para a Bodebrown existir e, acreditamos, o tamanho da empresa será proporcional a esta paixão. Nosso tamanho será determinado por este envolvimento. Nosso objetivo com este modelo de expansão é continuarmos independentes dos grandes grupos econômicos do segmento e investidores, preservando assim nossa liberdade criativa”, conta.

Bar e fábrica são “laboratórios”

Fundada há dois anos, a Maniacs, com sede em Curitiba, soma, hoje, 240 tipos de cervejas. A empresa tem uma fábrica “laboratório” no bairro Juvevê, na capital, onde os clientes são recebidos em um bar anexo.

No local, são desenvolvidas e testadas as novas cervejas. “Aqui era para ser só nosso laboratório. Com o tempo, na medida em que a indústria foi se instalando, que a gente colocou os equipamentos, a gente viu que sobrou um pedacinho e veio a ideia de usar esse pedaço para uma degustação”, explica Iron Mendes, um dos proprietários.

Além da Pilsen, IPA e Lager, a microcervejaria também produz cervejas sazonais, chamadas Maniacs Rebellion. “São [cervejas] encorpadas, mais alcoólicas, que não são para comercialização em grande escala”, esclarece Mendes.

O cuidado com os insumos também marca o trabalho desenvolvido na cervejaria. “Na cervejaria artesanal, nós não trabalhamos com nenhum corante, nada que falsifique o que nós queremos. Todos os maltes que dão a cor à cerveja não levam nenhum aditivo de corante ou algo do tipo”, conta o cervejeiro.

Os produtos podem ser encontrados na fábrica, em bares, restaurantes e lojas pela cidade. A Maniacs também investe em uma sistema de franquias, o Beer Station. Entre as inovações, estão, ainda, as embalagens. A empresa aposta nas latas e criou sistemas inovadores, como a lata com nitrogênio líquido, que proporciona uma cremosidade maior à bebida, e o pack dobrável, que permite o transporte das cervejas refrigeradas.

“A luz é um dos grandes inimigos da cerveja, então, a cerveja em lata é melhor, apesar de existir um preconceito”, explica.

Entre as dificuldades do mercado, Mendes também aponta a falta de conhecimento por parte do público. “Um dos desafios que nós temos é a educação, é explicar por que uma cerveja artesanal é diferente da cerveja comercial”, afirma.

Outro ponto é a alta tributação e, consequentemente, os preços elevados. “A grande indústria recebe incentivos fiscais que a pequena não recebe, e isso acaba influenciando no preço”, afirma.

Tradição alemã

Em Witmarsum, nos Campos Gerais, a UsinaMalte reúne a tradição alemã da colônia e as novidades do mercado. A produção de cerveja começou em dezembro de 2014 e a entrada no mercado veio em janeiro de 2017, segundo o sócio Ferdinando Schmeider.

“Sempre tivemos afinidade com a cerveja, principalmente as artesanais, e, há muito tempo, tínhamos vontade de fabricar”, conta Schmeider. “Um dos fatores também nos incentivou foi o fato de estarmos em uma colônia alemã e de não termos uma cerveja produzida aqui”.

Hoje, são cerca de 7 produtos fabricados por Schmeider e seu sócio, Aldecir Isbrecht. “Tem uma Pilsen que fornecemos exclusivamente para a Confeitaria Kliewer aqui de Witmarsum e que leva o nome de Kliewer. Uma APA, uma Weiss, a Oktoberfest e uma Imperial Stout”, exemplifica Ferdinando. O lançamento mais recente é de uma cerveja IPA, com um restaurante local, a Anarquista Porcadeiros, desenvolvida especialmente para acompanhar a carne de porco.

A fábrica da UsinaMalte tem capacidade, hoje, para a produção de cerca de 5 mil litros por mês. Há cerca de dois meses, começaram as visitas guiadas no local. “Como em Witmarsum a região é bem turística, a gente percebeu que as pessoas queriam visitar a fábrica. A gente começou a receber essas pessoas”, conta.

Além de vender no local, a cervejaria costuma estar presente em diversos eventos, entre eles, o Encontro de Mestres Cervejeiros dos Campos Gerais, que aumentou, neste ano, em 30% as vendas. “No evento, você chega direto ao consumidor. Não tem o lojista, que encarece o produto, não tem uma distância, você mesmo vai ao evento. O consumidor gosta de conversar direto com quem produz”.

Segundo Schmeider, no início, a ideia era fabricar para vender na capital, porém, durante a construção da fábrica, “choveu” cervejarias em Curitiba. Por uma questão de logística e para garantir o atendimento da demanda, a UsinaMalte focou em fornecer os produtos para cidades da região, onde, segundo Schmeider, há interesse e poder aquisitivo. “A gente percebe que as pessoas estão abertas a receber este novo produto”, afirma. “O mercado do interior tem crescido bastante”.

Para fugir da ressaca

Há cerca de 20 anos, cansado das ressacas, Heraldo Guillung comprou uma caixa de cervejas alemãs. Determinado, ele resolveu fazer um teste, inspirado em um conselho do pai, que dizia que cerveja, para ser boa, precisa ser da Alemanha.

As cervejas importadas foram compradas no Paraguai, pois não havia opções nas lojas brasileiras, na época. “Comprei uma caixa com 24 garrafas, para experimentar, e falei: ‘quero ver se vou ter dor de cabeça no dia seguinte’. Não tomei as 24, mas tomei 18, em uma noite. No total, 9 litros de cerveja”, conta.

No dia seguinte, Guillung acordou bem e com um novo objetivo. “Soube que era aquilo que eu queria fazer”.

Guillung é fundador e proprietário da Nat Bier, cervejaria de Palmeira. Antes de abrir o negócio, ele foi agricultor e costumava plantar cevada para fornecer o insumo à cervejaria Antarctica. Logo, bateu o interesse pela bebida. “Fiz algumas que não ficaram muito legais”, lembra. Depois do teste das cervejas alemãs, tudo mudou.

No mês seguinte, Guillung foi a São Paulo para fazer um curso de mestre cervejeiro. “Lá, mandaram por milho e açúcar na receita, que são os grandes vilões da cerveja. A ressaca e o mal-estar vêm do milho. O milho, quando fermenta, gera formol e é o formol que ataca o nosso fígado. Cerveja precisa ser puro malte”, conta.

As indicações quase o fizeram desistir. Porém, outra oportunidade bateu à porta: um curso de uma professora da Pontifícia Universidade Católica (PUC), que estudou, na Alemanha, a fermentação, e decidiu ensinar aos brasileiros as receitas sem conservantes e sem cereais não maltados.

“Fiz esse curso e comecei a fazer a cerveja, que ficou boa. Comecei a produzir só cerveja a partir de 2002, quando larguei mão da agricultura. Eu pego cevada com os meus amigos, que plantam, e faço o teste de germinação para verificar a qualidade”, conta.

Foto: Reprodução / Facebook

Hoje, Guillung mantém o foco na qualidade. “A [cerveja] que produzo é 100% malte, não tem nenhum grão de cereal, nem o prime eu faço com açúcar, como as outras fazem. Nós respeitamos a lei da pureza alemã, que diz que a cerveja só pode ser feita com quatro ingredientes: água, malte, lúpulo e levedura”.

Segundo ele, as bebidas também não levam antioxidantes, substâncias comumente usadas pela indústria para conservar o produto sem refrigeração. “Até as cervejas alemãs, que não têm antioxidantes lá, quando vêm para o Brasil, é preciso colocar. A cerveja da fábrica e da marca que você compra na Alemanha não é a mesma que você compra aqui no Brasil”.

Com todos os cuidados, cada cerveja da Nat Bier leva, em média, de 35 a 40 dias para ser desenvolvida. São cerca de 2 mil litros produzidos mensalmente, 29 tipos de cerveja. E o futuro é promissor. Para Guillung, a único grande obstáculo, nos negócios, hoje, é a alta tributação. “A nossa maior dificuldade é o governo. O imposto é um absurdo de caro, o governo é nosso maior inimigo”, lamenta.

Porém, ele percebe o interesse crescente por parte do público, mesmo com os preços mais altos. Hoje, as cervejas da Nat Bier são comercializadas no Paraná, em São Paulo e – é claro – na fábrica, onde também são servidas comidas típicas alemãs. Em Curitiba, o bar Hop’n Roll vende, também, o chope Nat Bier. “Ele foi eleito o melhor servido no bar pela revista Veja. É uma cerveja trapista, com 8% de teor alcoólico”, conta Guillung.

E, para quem vai consumir em casa, um alerta: a data de validade. “Devido ao modo de preparo, que é totalmente sem conservantes, as cervejas da Nat Bier não podem ser armazenadas fora do gelo. Para garantir a qualidade, são poucos os locais selecionados para a revenda do produto”, explica o cervejeiro.

As cervejas podem durar entre 4 e 5 anos quando refrigeradas. Porém, nada de tirar elas das geladeiras: “Pode ficar até um mês fora da geladeira, não mais do que isso, porque não tem antioxidantes, se ficar fora do gelo, altera o sabor e escurece”, afirma Guillung.

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