Carne foi destaque nas exportações paranaenses em fevereiro

A balança comercial paranaense encerrou o mês de fevereiro com um saldo positivo de 343,9 milhões de dólares. O resultad..

Mariana Ohde - 23 de março de 2017, 08:05

A balança comercial paranaense encerrou o mês de fevereiro com um saldo positivo de 343,9 milhões de dólares. O resultado é 45,9% maior do que o saldo do mesmo mês em 2016. E entre os itens de destaque está a carne. No estado, o produto apresentou aumento nas vendas de 34,30% em fevereiro, o terceiro maior aumento registrado. As carnes também estão entre os produtos que mais contribuíram para a entrada de dólares no estado, somando US$ 443,6 milhões, o que as coloca apenas atrás da soja.

Porém, o produto agora sofre com o impacto da Operação Carne Fraca, deflagrada na sexta-feira (17), pela Polícia Federal (PF). A operação mirou casos pontuais de "maquiagem" da carne em frigoríficos de empresas de grande porte, como a BRF, JBS e Seccin, alguns deles no Paraná. Foram identificados problemas nas fiscalizações de 21 frigoríficos e mais de 300 estabelecimentos.

Com a repercussão de casos de reaproveitamento de carne podre, troca de carnes, entre outras irregularidades, vários países chegaram a suspender a importação do produto.

Segundo a Federação das Indústrias do Paraná (Fiep), a indústria de carnes é uma das mais importantes para o comércio exterior do estado. "No ano passado, o setor exportou US$ 2,543 bilhões, o que correspondeu a 16,76% do total de exportações paranaenses. O estado tem 494 indústrias desse segmento – equivalente a 11,48% do total de estabelecimentos de carnes do país –, que geram 91 mil empregos diretos. Esses números mostram a importância do setor para a economia do Paraná", diz a entidade em nota.

"A Fiep acompanha com atenção os desdobramentos da operação Carne Fraca e reitera o seu apoio à elucidação dos fatos. Caso alguma irregularidade seja comprovada, a instituição defende a responsabilização dos envolvidos. No entanto, a Federação também reforça sua confiança no setor, que ocupa posição de destaque na economia brasileira, uma conquista da atuação séria e responsável de diversas empresas", esclarece.

Impacto nacional

O ministro da Agricultura, Blairo Maggi apresentou nesta quarta-feira (22) aos senadores os números do prejuízo que o Brasil pode ter no comércio internacional por causa das restrições à compra de proteínas brasileiras ocasionadas pela Operação Carne Fraca.

De acordo com ele, a recuperação do setor pode levar de três a cinco anos.

“Na exportação, se houver embargo, nós vamos levar de três a cinco anos para reconquistar esses mercados. Estamos trabalhando muito para que o problema fique restrito a essas 21 empresas, em um enfrentamento claro, direto, transparente, rápido e eficiente”, afirmou, na audiência pública conjunta das comissões de Assuntos Econômicos e de Agricultura do Senado.

Maggi disse que vai defender no governo que ele e ministros de outras pastas que se relacionam com o tema utilizem os aviões da Força Aérea Brasileira para viajarem pelo mundo esclarecendo aos compradores que o sistema de controle sanitário brasileiro é confiável.

O ministro ressaltou ainda que não tem problemas com sua equipe de fiscais e que possui o “respaldo” dos servidores do ministério. Apesar disso, ele afirmou que existem disputas internas entre grupos diversos dentro da pasta, o que gera denúncias que, segundo ele, são sempre analisadas. “Boatos sempre existem e sempre existiram”, respondeu quando foi questionado pelos senadores Gleisi Hoffmann (PT-PR) e Lasier Martins (PSD-RS) se, antes da operação, ele teve conhecimento de que havia irregularidades.

Já a Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB) calcula queda de 20% dos embarques de carne neste ano em todo o país. A exportação de carnes representou US$ 13,8 bilhões de dólares ao Brasil no ano passado.

Queda perceptível nas exportações

Dados divulgados pelo Ministério de Indústria, Comércio Exterior e Serviços revelam que o volume de exportações de carne brasileira (bovina, suína e de frango) despencou de uma média de US$ 60 milhões por dia no mês de março, para US$ 74 mil na última terça-feira (21).

Na segunda-feira o valor das exportações de carne foi de US$ 60,5 milhões, exatamente a média do mês de março, quando o valor diário das exportações variou entre US$ 39 milhões a US$ 90 milhões.

A queda é reflexo direto da Operação Carne Fraca, da Polícia Federal, que revelou um esquema criminoso envolvendo empresários do agronegócio e fiscais agropecuários que facilitavam a emissão de certificados sanitários, em alguns casos até para alimentos inadequados para o consumo humano.

O escândalo colocou sob suspeita 21 frigoríficos em todo o país, entre eles algumas das maiores empesas do setor de alimentos, como JBS, BRF e Peccin.

Por conta das denúncias, alguns dos maiores importadores de carne brasileira suspenderam as importações, como a União Europeia, a China e a África do Sul. Outros países, como o México, o Japão, Chile, Suíça, China e Hong Kong, anunciaram restrições. A Coreia do Sul chegou a anunciar a suspensão de importação de frango, mas voltou atrás.

Na segunda-feira, o Ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Blairo Maggi (PMDB), anunciou que o Brasil suspendeu temporariamente a exportação de carnes das empresas investigadas.

Produtores paranaenses devem ser prejudicados

O Paraná tem o décimo maior rebanho, com 9,2 milhões de cabeças, o que representa 4,3% do total do Brasil e é o maior exportador de proteína animal do país. Segundo o diretor do Deral, Departamento de Economia Rural do Paraná, Francisco Simioni, toda a cadeia de produção agropecuária fica preocupada com os possíveis efeitos das irregularidades denunciadas, no mercado interno e externo. “É precoce ainda estimar a extensão dos danos em relação ao mercado. O setor fica apreensivo porque é algo muito sério, desde o produtor, toda a cadeia fica preocupada. Nós esperamos aclarar as investigações e que os responsáveis sejam responsabilizados. Esperamos que o mercado reaja de forma adulta e isso tudo não afete a cadeia e as exportações”, afirma.

Para o diretor-presidente da Agência de Defesa Agropecuária do Paraná (Adapar), Inácio Kroetz, apesar do problema não ser de sanidade da matéria prima, mas de corrupção, as denúncias podem colocar em cheque toda a credibilidade do sistema: “o nome disso é corrupção, não tem o que por nem o que tirar! Mesmo assim é preocupante como o mercado, como o consumidor e o importador vão entender isso”, desabafou.

Segundo ele, a qualidade da matéria prima está assegurada: “o bovino, o suíno, as aves estão garantidos. O problema aconteceu da porteira do frigorífico para dentro, após o abate!”, explicou.

Em nota, A Federação da Agricultura do Estado do Paraná (Faep), repudia a ação criminosa de fiscais do Ministério da Agricultura (MAPA) e indústrias que manipulam produtos de origem agropecuária.

“Os produtores rurais fazem grande esforço no sentido de ter uma produção que atenda as boas práticas preconizadas e a segurança alimentar, para agora ver indústrias utilizando de suas matérias-primas de forma fraudulenta. Indústrias que deveriam estar ao lado do produtor rural e do consumidor na defesa da sanidade agropecuária. Esperamos que a justiça seja feita e que pessoas envolvidas em operações fraudulentas e corruptas sejam investigadas e punidas, para que os bons produtores, que se esforçam na produção de alimentos, não sejam julgados e condenados pelas ações de integrantes de um elo da cadeia”, diz a nota.

De acordo com a diretora do Departamento de Segurança Alimentar e Nutricional (Desan), Valéria Nitsch, o departamento não tem poder de fiscalização, mas pode enviar as demandas para órgãos específicos. “É uma coisa absurda você imaginar que isso acontece nesse nível. O que mais surpreende é que são grandes empresas, consideradas seguras pela população”,  afirmou.

Manifestações no governo do Paraná

Na Assembleia Legislativa do Paraná (Alep), vários deputados estaduais se posicionaram a respeito da operação ao longo da semana.Muitos deles se mostraram preocupados com as consequências da ampla divulgação dos fatos. O líder da Oposição, deputado Tadeu Veneri (PT) fez um alerta sobre as consequências dessas denúncias para a economia, sobre a forma como as informações foram divulgadas e também criticou o sensacionalismo com o qual o tema vem sendo tratado pela mídia.

Já o deputado Nelson Luersen, líder da bancada do PDT, fez um alerta sobre a “generalização” dos fatos, chamando a atenção para dados que comprovam que mais de 90% do setor trabalha de forma séria, cumprindo com todas as normas técnicas. Destacou a preocupação dos avicultores, suinocultores e criadores de gado, bem como das empresas que atuam nesta área, que podem ser prejudicados de forma muito grave. Luersen sugeriu que seja feita uma grande campanha em defesa de quem trabalha corretamente.

Tercílio Turini (PPS) destacou que a divulgação das denúncias prejudica, especialmente, quem trabalha de forma correta. Exemplificou citando que “nós temos setores no agronegócio, como o da avicultura, que demoraram décadas para serem organizados, e seguem normas técnicas rigorosas”. Lembrou que esse sistema criou uma grande cadeia produtiva, que envolve desde aqueles que vendem o “cepilho” (aparas de madeiras usadas para fazer a cama nos aviários), passando pelos produtores, chegando até os frigoríficos.

Pedro Lupion (DEM) classificou de “irresponsável” a forma como os resultados da operação da PF foram anunciados. Lupion sublinhou que essa grande cadeia produtiva envolve pequenos produtores, que atuam de forma integrada, e sofrem impactos negativos imediatos. Ele acredita que prejuízos serão também sentidos pelos comerciantes de outros setores. “Quem conhece sabe que temos um sistema de rastreabilidade que garante a qualidade da carne. São casos isolados”, concluiu.

O deputado Luiz Claudio Romanelli (PSB) repudiou a forma como foi conduzida a operação. Para ele o objetivo foi o de “espetacularizar" a questão. Disse que devem "punir aqueles que cometeram os delitos", mas que o trabalho da PF "transbordou para uma megaoperação desnecessária", ao utilizar mais de mil policiais, e questionou se no país não existe tráfico de drogas e outros crimes que a PF poderia combater com esse efetivo. Lamentou que a condução “desastrosa” do caso vai fazer com que o Brasil perca mercado, com prejuízos que o país demorará anos para recuperar.

Outros parlamentares procuram soluções para a crise de imagem do setor. O vice-presidente da Alep, Guto Silva (PSD), iniciou nesta terça-feira (21) um movimento para resgatar a imagem da produção de carnes do Brasil junto aos compradores internacionais. O parlamentar tratou do assunto com o embaixador da Alemanha, Georg Witschel, e com cônsul honorário em Curitiba, Andreas Hoffrichter, que visitaram a Casa. “Não há dúvida de que os culpados devem ser punidos. Mas não podemos generalizar o problema e colocar os fiscais e produtores que atuam dentro das normas no mesmo quadro. O Brasil levou anos para conquistar boa imagem no mercado”, ressaltou.

"Devemos fazer um trabalho forte com nossas embaixadas e desenvolver estratégias para reverter a situação, trazendo missões sanitárias dos países compradores, por exemplo”, afirmou o deputado. “O dano para quem trabalha com seriedade é enorme”, alertou.

Witschel lembrou que a desinformação e o exagero nas interpretações diminuem a força do Brasil frente aos concorrentes internacionais. “Eu prefiro o bife brasileiro”, salientou o diplomata.

O deputado Luís Corti (PSC), que é médico veterinário, também lamentou as consequências dos fatos apontados pela PF, fez um relato dos prejuízos que devem atingir toda a cadeia agropecuária, e destacou a importância do volume de exportações, da geração de empregos e de renda. Corti chamou a atenção sobre os rigorosos procedimentos fitossanitários adotados pela avicultura, setor onde atuou profissionalmente. E propôs que seja avaliada a possibilidade de criar uma Comissão Parlamentar Mista para investigar essas ocorrências.

Alguns deputados também mostraram apoio às ações da PF. É o caso do deputado Felipe Francischini (SD). Ele criticou o discurso de autoridades que colocaram a culpa na PF pela situação de caos no setor agropecuário. E destacou que é função da polícia justamente investigar. O deputado disse ainda que, após as investigações, será possível ver avanços para o país, realçando que todos precisam dar apoio às instituições públicas de investigação.

O deputado Marcio Pacheco (PPL) concorda que “o formato da divulgação do caso foi equivocado”. No entanto, fez a ressalva de que não apoia as manifestações que questionam o trabalho da Polícia Federal, que vem atuando firmemente no combate à corrupção.

Exportações e importações paranaenses

Além das carnes, os itens que apresentaram as maiores taxas de crescimento nas exportações foram produtos de petróleo e derivados, que tiveram um aumento 744,14%; material de transportes, com acréscimo de 62,19%; e mecânica com aumento de 29,63%.

Os itens que mais contribuíram para a entrada de receitas em dólar para o estado foram os produtos do complexo soja, que somaram US$ 478,5 milhões; material de transportes US$ 280,5 milhões; e madeira US$ 151,1 milhões.

As exportações paranaenses tiveram um crescimento de 15,30% no primeiro bimestre, se comparado ao mesmo período do ano anterior, atingindo US$ 2,161 bilhões em mercadorias vendidas.

Os principais mercados consumidores de produtos paranaenses foram: a China, que comprou US$ 247,8 milhões em soja; a Argentina, que movimentou US$ 92,1 milhões na aquisição de automóveis de passageiros; os Estados Unidos, que importaram do Brasil US$ 23,8 milhões em madeira perfilada; e a Arábia Saudita, que comprou US$ 93 milhões em carnes e miudezas.

Os países que tiveram as maiores taxas de crescimento nas compras de mercadorias paranaenses nos dois primeiros meses do ano foram a economia iraniana, com aumento de 356% e a Angola que importou do Paraná 137%.

Já as importações continuam crescendo no ano e movimentaram US$ 1,8 milhão em aquisição de mercadorias e serviços até fevereiro. Os dados acumulados apontam um aumento de 20,3% no primeiro bimestre em relação ao mesmo período de 2017.

Apresentaram taxas de crescimento consideráveis a importação de carnes, bebidas e cereais. Em valores, os grupos de produtos que mais contribuíram foram: produtos químicos, com uma movimentação de US$ 478,5 milhões; petróleo e derivados, que acumulou US$ 291,2 milhões; material de transportes, com importações no total de US$ 240 milhões; e materiais elétricos e eletrônicos, que representam US$ 140,7 milhões.

Os Estados Unidos foram o país que mais vendeu para o Paraná. A relação de compra de óleos de petróleo movimentou US$ 265,5 milhões. A China vendeu US$ 157,5 milhões em adubos. O Paraná comprou veículos de transporte de mercadorias da Argentina, que acumulou US$ 40,5 milhões. Por último, a compra de milho paraguaio movimentou US$ 21,3 milhões.

Os dados são do relatório Desempenho do Comércio Exterior Paranaense, elaborado pela Federação das Indústrias do Estado do Paraná (Fiep) com base em informações do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços.