Centro da crise: JBS é alvo de várias investigações

Mariana Ohde


Nesta semana, Joesley Batista, dono da JBS, se tornou o centro da crise política nacional: o empresário gravou uma conversa com o presidente Michel Temer, na qual ele, supostamente, daria aval para a compra do silêncio de Eduardo Cunha, ex-presidente da Câmara dos Deputados preso na Operação Lava Jato em outubro de 2016.

As denúncias de Joesley também envolveram o senador afastado Aécio Neves que, ontem (18), foi alvo de uma operação da Polícia Federal (PF).

A JBS, empresa do grupo J&F, é dona de marcas de peso no agronegócio, entre elas a Friboi, Seara, Big Frango, entre outras. Com mais de 200 mil colaboradores, a JBS está presente em 20 países. Mas, no Brasil, o cenário é nebuloso: este não é o primeiro escândalo em que a empresa se envolve nos últimos meses.

Denúncias e crise política

As denúncias divulgadas nesta semana são resultado de um acordo entre Joesley e seu irmão Wesley Batista com as autoridades. Em troca de sua colaboração nas investigações, ambos não serão denunciados criminalmente pelo Ministério Público Federal (MPF). Com isso, eles não serão presos e poderão seguir com suas atividades em suas empresas.

Em delação, os donos da JBS disseram à Procuradoria-Geral da República que gravaram o presidente Michel Temer dando aval para comprar o silêncio do deputado cassado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), enquanto ele já estava preso. A revelação foi feita pelo O Globo. Segundo o jornal, o empresário Joesley Batista entregou uma gravação feita em março deste ano em que Temer indica o deputado Rodrigo Rocha Lourdes (PMDB-PR) para resolver assuntos da JBS. Posteriormente, Rocha foi filmado recebendo uma mala com R$ 500 mil, enviados por Joesley.

Em outra gravação, também de março, o empresário diz a Temer que estava dando a Eduardo Cunha e ao operador Lúcio Funaro uma mesada para que permanecessem calados na prisão.

No material entregue pelos delatores, o senador Aécio Neves (PSDB) também foi gravado pedindo R$ 2 milhões a Joesley. O dinheiro foi entregue a um primo do presidente do PSDB, numa cena devidamente filmada pela Polícia Federal. A PF rastreou o caminho dos reais. Descobriu que eles foram depositados numa empresa do senador Zeze Perrella (PSDB-MG).

Joesley relatou também que Guido Mantega era o seu contato com o PT. Era com o ex-ministro da Fazenda de Lula e Dilma Rousseff que o dinheiro de propina era negociado para ser distribuído aos petistas e aliados. Mantega também operava os interesses da JBS no BNDES.

Joesley revelou também que pagou R$ 5 milhões para Eduardo Cunha após sua prisão, valor referente a um saldo de propina que o peemedebista tinha com ele. Disse ainda que devia R$ 20 milhões pela tramitação de lei sobre a desoneração tributária do setor de frango.

As denúncias culminaram na deflagração, nesta quinta-feira (18), da Operação Patmos, que teve como alvo principal Aécio Neves, que acabou afastado do cargo de senador. Com a repercussão e a crise de imagem, o presidente Michel Temer, pressionado, fez um pronunciamento no final do dia em que disse que não deve renunciar. Além disso, um inquérito foi aberto para investigar o presidente.

Operação Sépsis

Mas a onda de crises relacionadas à JBS começou antes: há cerca de um ano. Em julho e 2016, a empresa já havia sido alvo de investigações na Operação Sépsis, um desdobramento da Lava Jato.

As investigações se basearam na delação premiada de um ex-vice-presidente da Caixa Econômica Federal, Fábio Cleto. Ele teria recebido R$ 680 mil em troca de um aporte de R$ 940 milhões do FI-FGTS (Fundo de Investimento do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço) na produtora de celulose Eldorado Brasil, que faz parte do grupo J&F. Na época, a Eldorado afirmou que captou recursos do FI-FGTS “para financiar obras de logística, saneamento e infraestrutura de sua primeira linha produtiva em Três Lagoas (MS), inaugurada em 2012”.

“Todo o procedimento seguiu estritamente as regras do FI-FGTS”, afirmou.

 

Operação Greenfield

Em setembro, na Operação Greenfield, a Justiça bloqueou bens e afastou Joesley e Wesley Batista de atividades empresariais do grupo J&F. A operação investigava um déficit bilionário nos fundos de pensão Previ (do Banco do Brasil), Petros (da Petrobras), Postalis (dos Correios) e Funcef (da Caixa Econômica Federal). As irregularidades envolviam a Eldorado Brasil Celulose, do J&F.

Ainda em setembro, os irmãos fecharam acordo com a força-tarefa da Greenfield. Eles voltaram ao comando do grupo e tiveram os bens desbloqueados. Em troca, deveriam depositar em juízo R$ 1,51 bilhão em seguro-garantia ou em títulos públicos federais. Em março deste ano, a Justiça acolheu manifestação do MPF, que afirmava que o executivo descumpriu o acordo.

Na época, Joesley afirmou que “não descumpriu o termo de ciência e compromisso anteriormente firmado” com o MPF e homologado pelo juiz. A J&F afirmou que Joesley iria “cumprir as medidas cautelares requeridas pelo MPF [Ministério Público] e deferidas pelo juiz”.

Operação Carne Fraca

Mas um das maiores operações envolvendo a empresa até então havia sido a Operação Carne Fraca, deflagrada em março deste ano. A ação investiga fraudes na venda de certificados sanitários e pagamento de propina a fiscais e agentes de inspeção para que frigoríficos continuassem atuando ilegalmente.

A operação investigou 50 empresas. No caso da JBS, as marcas Seara e Big Frango estavam entre os alvos.

A JBS chegou a dar férias coletivas aos funcionários de 10 de suas 36 unidades de abate de bovinos no Brasil para ajustar a capacidade da empresa por causa da crise causada pela operação. Na época, a empresa divulgou nota onde afirma que o ministro da Agricultura, Blairo Maggi esteve na “única instalação da JBS citada na investigação e constatou o rigor nos processos industriais”.

A empresa disse que “nenhuma das unidades da companhia foi interditada e não foi identificado nenhum problema em seus produtos”. “A JBS ressalta que não compactua com qualquer desvio de conduta de seus funcionários e tomará todas as medidas cabíveis”, afirmou em nota.

Operação Bullish

Outra operação da PF, a Operação Bullish, deflagrada na sexta-feira (12), investiga fraudes e irregularidades em aportes concedidos pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), por meio da subsidiária BNDESPar, ao grupo JBS.

Entre os alvos da operação, estão o empresário Joesley Batista e o ex-presidente do BNDES, Luciano Coutinho.

Segundo a PF, R$ 8,1 bilhões teriam sido liberados por meio de influência no governo. A liberação ocorreu a partir de 2007 para que o grupo comprasse empresas do ramo frigorífico, inclusive no exterior. As transações foram executadas sem a exigência de garantias e com a dispensa indevida de prêmio contratualmente previsto, gerando um prejuízo de aproximadamente R$ 1,2 bilhão aos cofres públicos.

O dinheiro teria permitido à empresa se tornar uma das gigantes mundiais de processamento de carne.

Por causa das investigações, os donos da JBS estão impedidos de fazer mudanças societárias na empresa, além de não poder criar outras companhias no Brasil e no exterior. O BNDES e a empresa não se pronunciaram sobre as ações.

*Com UOL

 

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Mariana Ohde
Repórter no Paraná Portal