Coronavírus pode mostrar o risco de políticos que desprezam ciência, diz economista

A crise social e econômica acarretada pelo coronavírus poderá ter o efeito colateral de alertar a população para o risco..

Érica Fraga - Folhapress - 18 de março de 2020, 09:24

Reprodução / Cecom Unicamp
Reprodução / Cecom Unicamp

A crise social e econômica acarretada pelo coronavírus poderá ter o efeito colateral de alertar a população para o risco de apoiar políticos que desprezam evidências científicas. O problema é que a pandemia terá um impacto econômico severo, especialmente para grupos mais vulneráveis, que sofrerão com uma queda de demanda.

Segundo Rodrigo Soares, professor da Universidade Columbia, os governantes deveriam estar atentos a essas questões e não minimizar os riscos, como fizeram, inicialmente, os presidentes Donald Trump e Jair Bolsonaro.

Segundo ele, ter grupos no poder "totalmente ignorantes e refratários a evidências" pode ter consequências graves. Apesar disso, Soares vê no Brasil algumas vantagens, como a existência de um sistema de saúde unificado e o fato de que o Ministério da Saúde demonstrou, desde o início, estar atento à epidemia.

Do ponto de vista econômico, segundo ele, cabe aos governos proteger os setores econômicos e segmentos sociais mais frágeis, com medidas como o acesso facilitado ao crédito. Falar em reativar a economia, neste momento, não faz sentido, diz.

"Isto não é uma crise financeira. Como você vai reativar a indústria aérea se a gente não quer que as pessoas voem?"

PERGUNTAS E RESPOSTAS COM ESPECIALISTA

PERGUNTA - Como a economia tem sido contagiada pela crise do coronavírus?

RESPOSTA - Qualquer doença gera um impacto econômico direto. Algumas pessoas doentes não vão trabalhar, vão precisar do hospital. Algumas morrerão. Isso tudo impacta os recursos. No caso do coronavírus, o mais difícil, por enquanto, é o esforço para tentar parar a infecção. Ao fechar fábricas, você está falando que trabalhadores saudáveis não devem ir trabalhar. Está fechando serviços.

Para as companhias aéreas, nem é preciso dizer que isso terá proporções dramáticas. Deverá ser o maior choque da história, porque, na Segunda Guerra Mundial, não havia transporte aéreo como hoje. O fechamento dos voos entre Estados Unidos e Europa continental terá um impacto gigantesco para essa indústria. Eu, honestamente, nunca imaginei que fosse ver isso na minha vida.

PERGUNTA - Isso cria um dilema de política pública?

RESPOSTA - O dilema sempre está presente em qualquer escolha de política pública. Se a reação está sendo exagerada ou não, a gente ainda não sabe. Você tem informações muito díspares. Isso é natural porque é um novo vírus. A reação grande se deve ao entendimento de que a transmissão se dá de forma muito rápida, e os casos da China e da Itália têm mostrado que o impacto imediato sobre o sistema de saúde pode ser, de fato, gigantesco.

Mas as pessoas precisam entender que os impactos de parar viagem, diminuir atividade econômica também serão negativos. Tem gente que será afetada de forma muito extrema, com impacto significativo inclusive sobre sua saúde.

Você está limitando a movimentação das pessoas. A quantidade de bens disponíveis será reduzida.

O acesso a trabalho e renda de pessoas um pouco mais frágeis será reduzido. Isso vai impactar o consumo dessas famílias, o que pode também afetar a saúde delas. Contemplar esse "trade-off" deu a entender que estão pensando em cenários desastrosos, embora ainda tenham uma previsão oficial de crescimento de 2,1%, o que, agora, me parece uma fantasia.

Tendo dito isso, ainda acho que os sustos vão continuar acontecendo. Na Europa, eles estão pensando no pior cenário. O Brasil está apostando um pouco na coisa de o país ser um pouco mais quente. Se isso não ocorrer, é bastante provável que o sistema de saúde sofra uma pressão gigantesca. As pessoas têm de estar preparadas para alguns meses de situações muito extremas, de fato.

PERGUNTA - A situação econômica mais frágil do Brasil limita possíveis ações do governo?

RESPOSTA - Idealmente, é em um momento como esse que você deve estar preparado para dar suporte a quem está sofrendo esse choque. A situação fiscal do Brasil torna isso muito mais difícil. Uma ideia que me parece equivocada é dizer que os governos têm de tentar reativar a economia. O trabalhador não está indo para a fábrica.

A peça que deveria estar indo para a montadora não está chegando da China. Não há o que fazer, porque a economia é real. Isto não é uma crise financeira. É uma crise real. Como você vai reativar a indústria aérea se a gente não quer que as pessoas voem? Não é sobre reestimular a economia.

É sobre criar proteção e acesso a crédito em condições especiais e prazos mais longos para os setores, os indivíduos e as famílias que vão sofrer. É, na verdade, minimizar o impacto desse choque temporário. O setor privado deveria estender linhas de crédito. E fazer isso de uma forma crível para que esses setores não se aproveitem disso no futuro.