Crise política deve afetar commodities

Mariana Ohde


Com INTL FCStone

A repercussão das denúncias envolvendo o presidente Michel Temer, o senador afastado Aécio Neves, entre outros políticos, causou impactos significativos no mercado nesta quinta-feira (18).

O dólar comercial fechou o dia em forte alta, cotado em R$ 3,38 na venda, uma alta de 7,9% em relação ao preço de quarta-feira (17). Em nota, o Banco Central disse que está atuando para manter a funcionalidade do mercado. A Bolsa de Valores de São Paulo (BM&F Bovespa) fechou o pregão em forte queda. O principal índice da bolsa, o Ibovespa, encerrou o dia com retração de 8,8%, com 61.597 pontos. Às 10h21, o pregão registrou queda de 10,47% e foi suspenso por meia hora, mecanismo conhecido como circuit breaker, que paralisa as negociações em fortes quedas.

As ações que mais caíram no dia foram Eletrobras ON (-20,9%), Cemig PN (-20,4%) e Eletrobras PNB (-16,9%). As ações da JBS, cujos donos estavam envolvidos nos escândalos, desvalorizaram 9,68%. O volume de ações negociadas foi R$ 24,5 bilhões.

Agronegócio

No agronegócio, a INTL FCStone divulgou análises dos possíveis impactos nas commodities: milho, soja, algodão e trigo. Com boa oferta mundial e safra recorde no Brasil, os preços do milho e da soja caíram nos últimos meses. Estes produtos, bastante ligados às variações do dólar – o Brasil é o maior exportador de soja e está entre os maiores exportadores de milho – podem sofrer com alta da moeda, que deve incentivar as vendas, com melhora na competitividade internacional.

Já o mercado de açúcar e etanol deve ser mais afetado devido à grande participação brasileira na produção mundial – produção de 23% e exportação de 49%, no caso do açúcar. O contrato #11 na ICE/NY registra forte queda, o que pode se intensificar com a desvalorização do real. De acordo com a INTL, a maioria das usinas nacionais também possuem a opção de destinar sua matéria-prima para o açúcar (majoritariamente exportado) ou para o etanol (vendido em sua maioria no mercado doméstico), levando variações cambiais a afetarem o trade-off entre os dois produtos. Por exemplo: para as usinas do estado de Goiás, a produção de açúcar compensava mais que a de etanol com preços do contrato #11 acima de US¢15,74/lb, considerando preços de ontem. Com o dólar a R$3,40, a equivalência entre os produtos cai para US¢14,54/lb.

No mercado de trigo, a queda do real pode resultar no arrefecimento das importações, que na safra 2016/2017 ficaram acima do volume importado ao longo dos últimos anos. A competitividade do cereal da Argentina foi o principal fator que auxiliou nas maiores importações, sendo que com o dólar cotado à R$ 3,13 o FOB argentino ficaria em torno de R$ 591,57/tonelada, mais barato que os R$ 611,24 cobrados pela tonelada no Paraná. Com o novo patamar do dólar à R$ 3,40, o produto estrangeiro chegaria ao Brasil a R$ 642,6/tonelada, o que deve favorecer as comercializações internas mas não a ponto de inverter a intenção de redução de área para a safra 2017/18, uma vez que os preços correntes não são atrativos aos produtores.

Os efeitos sobre o mercado de algodão devem seguir o movimento das outras commodities. Para o médio prazo, o câmbio desvalorizado deve incentivar as exportações da pluma com a entrada da nova safra, atualmente estimadas em 630 mil toneladas pelo USDA e em 700 mil pela Conab. As exportações podem superar este patamar, uma vez que a produção da safra 2016/17 está estimada entre 1,48 e 1,49 milhões de toneladas. Além disso, a possibilidade de que as reformas institucionais sejam travadas e que os cortes da taxa básica de juros sejam limitados pode implicar em uma revisão dos investimentos planejados pela indústria têxtil local e, consequentemente, do consumo interno de algodão.

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Mariana Ohde
Repórter no Paraná Portal