Empresas perdem R$ 670 bi durante debate sobre precatórios e furo no teto de gastos

O bom humor do mercado doméstico demonstrado com a aprovação da PEC (Proposta de Emenda à Constituição) dos Precatórios ..

Angelo Sfair - 12 de dezembro de 2021, 18:00

Marcello Casal Jr/Agência Brasil
Marcello Casal Jr/Agência Brasil

O bom humor do mercado doméstico demonstrado com a aprovação da PEC (Proposta de Emenda à Constituição) dos Precatórios pelo Senado surgiu apenas na reta final das discussões sobre o projeto que adia o pagamento de dívidas judiciais do governo e permite um drible na regra do teto de gastos.

Ao longo da maior parte dos quase cinco meses de debates sobre o tema em Brasília, as empresas do Ibovespa, índice referência da Bolsa de Valores brasileira, perderam mais de R$ 670 bilhões em valor de mercado, segundo levantamento da Rio Bravo.

O prejuízo compreende a queda de 18,7% acumulada pelo Ibovespa entre 29 de julho, início do debate sobre mudanças no cálculo dos precatórios, até 22 de novembro, quando dúvidas sobre sobre a aprovação do texto pelo Senado ainda provocavam oscilações na Bolsa.

Fatores externos, como a inflação global e o temor de recrudescimento da pandemia de Covid-19, também contribuíram com oscilações que afugentaram investidores -por isso, as perdas não podem ser atribuídas exclusivamente à discussão sobre a PEC dos Precatórios.

Desde que o tema entrou no radar do mercado, porém, as ações brasileiras iniciaram um movimento de queda descolado dos índices de economias emergentes que, assim como o Brasil, estão sujeitas a pressões globais, mostra um cruzamento da evolução do Ibovespa com uma cesta de bolsas composta pelos principais índices de México, Chile, China (Hong Kong), Índia, Rússia e Turquia, realizado pelo economista João Leal e pelo analista Leon Abdalla, ambos da Rio Bravo.

"Avaliar o impacto da PEC dos Precatórios sobre a Bolsa é um exercício difícil, mas comparando o desempenho do Ibovespa com uma cesta de Bolsas de países emergentes, conseguimos ter uma ideia do impacto dos fatores domésticos", relataram os especialistas.

Enquanto a Bolsa brasileira caiu quase 19% no período, a cesta com os demais emergentes subiu 7,2%.No mesmo período, o S&P 500, índice de referência do mercado americano, avançou 6%.

O descolamento entre o Brasil e seus pares aumentou ainda mais após o anúncio da proposta de mudança na regra de cálculo do teto, em 18 de outubro, mostra o gráfico dos analistas, que também revela ligeira desvantagem das ações brasileiras ao longo de 2020.

Segundo Leal e Abdalla, o mercado local reagia naquele período ao pior momento da pandemia de Covid-19 no Brasil.

A Rio Bravo também comparou o avanço do CDS, sigla em inglês para o risco de inadimplência de um país, do Brasil com seus principais pares entre 29 de julho e 29 de novembro.

O CDS do Brasil para cinco anos piorou 50% no período, enquanto os riscos de África do Sul, México e Turquia cresceram 23%, 25% e 34%, respectivamente.

"É fácil ver o quanto a percepção de risco do Brasil se deslocou dos seus pares por conta das questões domésticas", relataram os especialistas. "Isso mostra ainda mais o tamanho do impacto que as questões fiscais tiveram sobre a percepção da economia nacional."

A alteração pretendida pelo governo representou, durante a maior parte do tempo em que ela foi discutida, uma tentativa de ampliar gastos por meio do descumprimento de um compromisso.

Mas, a partir da decisão do presidente Jair Bolsonaro de impor o aumento do Auxílio Brasil, obrigando a equipe econômica a furar o teto de gastos, o mercado passou a avaliar o atraso no pagamento de dívidas judiciais da União previstas para 2022 por meio da PEC dos Precatórios como uma possibilidade de evitar que o governo aumentasse gastos sem contrapartidas.

Desde a aprovação da PEC pelo Senado, em 2 de dezembro, a Bolsa subiu 3,15%. Isso não significa que a recuperação será contínua e, menos ainda, que o patamar pedido a partir de julho será novamente alcançado no curto prazo.

A crise deflagrada pela discussão sobre os precatórios e o Auxílio Brasil já colocou o país em uma nova condição de risco fiscal e inflacionário e, por mais que as questões sejam temporariamente resolvidas, é difícil afirmar como o mercado absorverá esse novo nível de risco, afirmam os especialistas da Rio Bravo.

Além disso, o momento para a recuperação é desfavorável. Enquanto o mercado doméstico afundava, a maioria das Bolsas mundiais avançava devido ao aumento de liquidez proporcionado por medidas de estímulos econômicos criadas durante a pandemia.

Retiradas de medidas restritivas devido ao avanço da vacinação no mundo estimularam o consumo antes da normalização das cadeias de suprimentos, gerando escassez de insumos e inflação global.

Bancos centrais discutem agora o ritmo da retirada de estímulos econômicos e aumento nos juros para combater a alta nos preços.

"Estamos agora em um cenário muito mais contracionista em termos de juros do que antes do início dessas discussões, refletindo diretamente no custo de capital das empresas. Não é possível prever quando e se a Bolsa irá retornar ao nível anterior à discussão."