Governo prepara pacote de medidas contra fuga de investidores por má gestão ambiental

Gustavo Uribe - Folhapress e Danielle Brant - Folhapress

Desmatamento pode contaminar 20% da soja e 17% da carne exportadas à Europa

Com o início da época de seca na floresta amazônica, período de maior incidência de queimadas, o presidente Jair Bolsonaro prepara um pacote de medidas para tentar acalmar investidores estrangeiros preocupados com a gestão ambiental do Brasil.

Sob o comando do vice-presidente Hamilton Mourão, coordenador do Conselho da Amazônia, os ministérios da Agricultura, Meio Ambiente e Relações Exteriores estão organizando um conjunto de iniciativas para tentar melhorar a imagem do país no exterior, sobretudo na União Europeia.

A estratégia é para tentar conter uma eventual fuga de investimentos estrangeiros e gerar um ambiente positivo para que o Brasil atraia recursos externos após a fase mais grave da pandemia do novo coronavírus, esperada para o segundo semestre.

A decisão foi tomada depois que investidores que detêm US$ 3,7 trilhões em ativos administrados ao redor do mundo assinaram uma carta aberta manifestando preocupação com a política ambiental brasileira.

O documento gerou preocupação no presidente, que solicitou à equipe ministerial uma reação imediata ao documento. O Palácio do Planalto também identificou reação negativa no exterior à informação de que a Amazônia tem 23% da floresta em terras públicas não destinadas registradas ilegalmente como propriedades privadas.

Na última segunda-feira (29), para tentar conter o desgaste, Mourão se reuniu, no Palácio do Planalto, com os ministros Braga Netto (Casa Civil), Ernesto Araújo (Relações Exteriores), Tereza Cristina (Agricultura) e Ricardo Salles (Meio Ambiente) para discutir um pacote ambiental.

A ofensiva do governo brasileiro deve incluir uma campanha publicitária na Europa sobre as medidas adotadas para conter o desmatamento na floresta amazônica. A publicidade deve ser elaborada pela Apex (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos).

A equipe de ministros também prepara uma rodada de videoconferências com investidores estrangeiros, entre eles os que assinaram o documento. A ideia é que as conversas sejam promovidas a partir do mês que vem e tenham as presenças de Mourão, Salles e Tereza.

Além disso, o vice-presidente pretende convidar embaixadores da União Europeia no Brasil para sobrevoar a floresta amazônica e verificar o estado de preservação ambiental. Um primeiro convite já foi feito aos representantes da Alemanha e da Noruega, mas eles recusaram por conta da pandemia da doença.

“Nós vamos convidar quando melhorar a questão da pandemia. Eu já convidei da outra vez. Os embaixadores da Alemanha e da Noruega declinaram por causa dos problemas da pandemia”, disse Mourão à Folha de S.Paulo.

O grupo de ministros considera ainda enviar informes mensais às representações diplomáticas do Brasil no exterior com as iniciativas do governo para combater o crescimento no desmatamento.

Em outra frente, o Ministério das Comunicações avalia criar um serviço internacional de notícias na EBC (Empresa Brasil de Comunicação). O objetivo é também tentar fazer um contraponto às críticas da mídia estrangeira ao país na questão ambiental.

Para tentar viabilizar medidas também no Poder Legislativo, Mourão escalou o coronel do Exército Zenedir Fontoura para atuar como articulador do Conselho da Amazônia junto a deputados e senadores.

Neste mês, com o início da temporada da seca, a Amazônia teve nas três primeiras semanas de junho o maior número de focos de incêndio desde 2007. O Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) detectou 1.469, número 30,5% maior do que o de 2019.

Em maio, o presidente autorizou o envio de tropas das Forças Armadas para o combate a queimadas e desmatamento na Amazônia Legal. A tendência é de que o decreto de GLO (Garantia da Lei e da Ordem) seja estendido até o fim do ano.

Anunciada em janeiro com o objetivo de reduzir o desmatamento, a Força Nacional Ambiental enfrenta um entrave financeiro e só será viabilizada a partir do ano que vem.

O efetivo policial foi sugerido pelo presidente em uma tentativa de resposta do governo brasileiro às críticas recebidas no Fórum Econômico Mundial pela dificuldade em controlar, no ano passado, uma série de queimadas na região amazônica.

A expectativa do Palácio do Planalto era de que o novo contingente entrasse em operação no segundo semestre deste ano em um formato parecido ao da Força Nacional de Segurança, um convênio em que os governos estaduais cedem efetivos policiais para a gestão federal.

A falta de previsão orçamentária com a nova estrutura e a crise sanitária com a pandemia -que dificultou o remanejamento de recursos-, levaram o governo federal a adiar a formação da guarda ambiental para o ano que vem.

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