Guedes perde ao menos 16 auxiliares desde o início do governo e fica refém de soluções internas

Fábio Pupo - Folhapress, Bernardo Caram - Folhapress e Thiago Resende - Folhapress

Guedes

O ministro Paulo Guedes acumula, desde que assumiu o cargo, ao menos 16 perdas de auxiliares diretos considerando a debandada de integrantes do núcleo fiscal do Ministério da Economia nos últimos dias diante de discordâncias com as decisões do governo.

Antes adepto a nomes externos para as nomeações, o ministro chega à reta final do ano enfrentando o maior momento de contrariedade de representantes do mercado, o que se reflete em uma pasta cada vez mais dependente de soluções internas e servidores de carreira para executar os trabalhos.

De acordo com integrantes da própria equipe econômica, nenhum profissional de alto nível do setor privado aceitaria entrar na pasta no estágio atual. Isso não quer dizer que os nomes que assumiram agora são vistos como ruins. Ao contrário, a escolha dos novos secretários é vista internamente com entusiasmo.

Ministro Paulo Guedes (Economia) durante entrevista nesta sexta-feira (22) após receber apoio público do presidente De qualquer forma, o cenário contrasta com o começo do governo, quando o Ministério da Economia tinha um time repleto de representantes da iniciativa privada.

Exemplos disso eram Salim Mattar e Paulo Uebel, fundador da Localiza e atual executivo do ramo de saneamento, respectivamente.

Em entrevista nesta sexta-feira (22), Guedes minimizou as baixas em sua equipe e disse que tem tentado fazer substituições que aumentem a qualidade do time.

“Estou absolutamente tranquilo. É interessante, falaram ‘ele perdeu seis pessoas, 18 pessoas’. Tem pessoas que eu não conheço, eles colocam na lista que eu perdi, [dizem que] foi uma perda terrível para mim, eu nem conheço a pessoa”, disse.

As mudanças iniciaram conforme a ala política passou a ganhar as disputas ao longo do governo e a agenda defendida pelo ministro começou a ficar no papel.

Com isso, o organograma do ministério passou a ser alterado em busca de servidores de carreira ou nomes que já estavam na pasta em cargos inferiores.

Na Receita Federal, que teve uma das primeiras baixas do time em meio aos entraves da reforma tributária e à dificuldade de se emplacar a discussão do novo imposto sobre transações, o tributarista Marcos Cintra foi substituído pelo servidor de carreira aposentado do fisco José Barroso Tostes Neto.

As soluções internas foram observadas também em outras ocasiões.

A saída de Mattar levou à promoção de seu ex-subordinado Diogo MacCord. A saída de Uebel demandou chamar Caio Paes de Andrade, ex-presidente da estatal Serpro.

Guedes, antes mesmo de o governo começar, convidou para o comando da área fiscal Waldery Rodrigues, que é servidor do Senado.

À frente do Tesouro Nacional, subordinado a Waldery, estava Mansueto Almeida. Ambos já tinham passado por equipes econômicas anteriores, mas não são servidores de carreira do ministério ou do Banco Central.

A dança das cadeiras de Waldery mudou o cenário na área fiscal ao colocar Jeferson Bittencourt, servidor de carreira do Tesouro, no comando da secretaria.

Para a chefia dele, foi escolhido Bruno Funchal, que havia sido secretário da Fazenda no Espírito Santo. Funchal deixou o posto na debandada desta semana e, no lugar dele, ficará Esteves Colnago, analista de carreira do BC.

Colnago assume o principal cargo da área fiscal do Ministério da Economia na maior crise da pasta até agora, que perdeu seus principais representantes das contas públicas em meio a uma operação do governo para driblar a regra constitucional do teto de gastos e turbinar despesas no ano eleitoral de 2022.

A manobra foi inserida na PEC (proposta de emenda à Constituição) que adia o pagamento de precatórios –dívidas reconhecidas pela Justiça. O texto propõe uma mudança na regra de correção do teto de gastos, que, na prática, expande o limite das despesas federais.

O conjunto das alterações previstas cria um espaço orçamentário para despesas de R$ 83 bilhões no ano eleitoral de 2022, de acordo com o relator da proposta, deputado Hugo Motta (Republicanos-PB).

Em meio à insatisfação do mercado, Guedes recorreu a Colnago. Ele já foi escolhido para um alto cargo antes do governo Bolsonaro, também após o estouro de outra crise.

Durante a gestão de Michel Temer (MDB), Colnago foi promovido de secretário do Planejamento a ministro da pasta em 2018 após a queda do então chefe, Romero Jucá (MDB-RR), e uma posterior dança das cadeiras.

Agora, Guedes vê alguém de carreira do Tesouro Nacional assumir o comando do órgão. Nesse caso, Paulo Valle, atual subsecretário de Previdência Complementar no Ministério do Trabalho e da Previdência e ex-secretário de Dívida Pública, vai assumir a tarefa.

As baixas na equipe de Guedes seguem, em geral, um roteiro de atritos com a classe política, incluindo o presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

Em 2019, Joaquim Levy e Marcos Cintra deixaram, respectivamente, a presidência do BNDES e o comando da Receita Federal após reclamações do presidente.

No caso de Mattar e Uebel, as demissões foram ocasionadas pela falta de avanço nas privatizações e na reforma administrativa por falta de apoio político.

Em julho de 2020, Mansueto Almeida deixou o comando do Tesouro Nacional para entrar no banco BTG, e foi substituído por Funchal.

Apesar de a troca ter sido esperada, foi uma das baixas mais relevantes da equipe de Guedes até então. Mansueto saiu do cargo por prever que os anos seguintes seriam de extrema pressão da classe política sobre a Economia por mais gastos.

Também foram anunciadas as saídas do presidente do Banco do Brasil, Rubem Novaes, e de Caio Megale, que havia sido diretor de programas e assessor especial do Ministério da Economia (e virou economista-chefe da XP).

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