Carne Fraca completa um mês

Mariana Ohde


Deflagrada há um mês, no dia 17 de março, a Operação Carne Fraca teve grande impacto – desconfiança dos mercados interno e externo, centenas de demissões e críticas à investigação da Polícia Federal (PF) marcaram as últimas semanas.

A operação teve como alvo um esquema de fraude na fiscalização da produção de carnes por 21 frigoríficos – 18 deles no Paraná. Carne podre vendida como boa, utilização de produtos impróprios para o consumo humano, de substâncias cancerígenas para maquiagem de itens estragados. A organização criminosa era liderada por fiscais do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) e empresários do agronegócio.

“A verdade é que essas empresas não prezam pela qualidade da carne ou do alimento que vem para a sociedade. Isso, para a gente, ficou muito claro ao longo da investigação”, disse o delegado Maurício Moscardi Grillo em coletiva de imprensa no dia 17 de março.

As revelações acabaram por provocar a desconfiança da população brasileira; má impressão que não demorou a se alastrar para fora, com embargo a importações e pedidos de explicação vindos de diversos países, entre eles, alguns dos principais compradores do Brasil, como China e Hong Kong, que suspenderam totalmente a compra. Hoje, 17 países ainda mantêm restrição total à importação de carne brasileira. China, União Europeia e Emirados Árabes Unidos, entre outros grandes compradores, mantêm uma restrição apenas aos 21 frigoríficos investigados.

Apesar da repercussão negativa em todo o mundo, a retomada gradual das importações pelos países nas semanas que seguiram ajudou a manter as exportações em alta. Segundo o Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (MDIC), a exportação de carnes de frango, bovina e suína somaram U$1,34 bilhão, alta de 9% em relação ao ano passado.

A recuperação dos mercados foi resultado, também, de esforços do Mapa para tranquilizar o mercado. Após a operação, o ministério deu início a uma série de ações de retomada, ressaltando, sempre, que a investigação tratava de problemas isolados causados pela má conduta de poucos. Além disso, diversos pontos passaram a ser rebatidos: as práticas tratadas como inadequadas, por exemplo, seriam normais no setor e teriam sido mal interpretadas por falta de conhecimento técnico específico.

Em visita ao Paraná, o ministro Blairo Maggi cobrou mais cautela da PF. “As investigações devem e precisam prosseguir, mas com um pouco de conhecimento técnico para saber se aquilo que o investigador tem na mira é de fato um ilícito ou se nosso regulamento permite e em que percentuais permite fazer as coisas”.

Em meio à repercussão, sobrou preocupação para o Paraná, um dos maiores exportadores de carne do país. O secretário Norberto Ortigara chegou a revelar que denúncias de corrupção já seriam conhecidas de longa data, com falta de ação federal para coibir a prática. “Ouvia zum zum zum há muito tempo, mas a gente não tinha condições de provar nada. Esses processos já corriam há muito tempo, foi muito demorada a ação, entre a denúncia formal e a resposta à sociedade”, disse.

Entre as unidades investigadas, três chegaram a perder o Serviço de Inspeção Federal (SIF), um selo obrigatório para produtos de origem animal. São elas: Peccin Agro Industrial, unidades de Curitiba (PR) e de Jaraguá do Sul (SC), e Central de Carnes Paranaense, com sede em Colombo (PR). Três frigoríficos localizados Região Metropolitana de Curitiba e em Curitiba, e que foram alvos da operação, demitiram, juntos, cerca de 600 funcionários – o Peccin e dois frigoríficos do Central de Carnes Paranaense.

Apesar disso, análises indicaram problemas pontuais, segundo o Mapa. Após a operação, foram recolhidas e analisadas 302 amostras de produtos, das quais 31 (10,2%) apresentaram problemas de ordem econômica, como a não observância de questões técnicas. Oito amostras (2,6%) tiveram problemas capazes de afetar a saúde pública – sete tiveram confirmada a presença de salmonella e uma de estafilococos.

Indiciados na Carne Fraca

Neste sábado (15), 63 pessoas foram indiciadas pela PF no âmbito da Operação Carne Fraca. Com isso, o Ministério Público Federal (MPF) tem o prazo de cinco dias para oferecer denúncia. O relatório final é assinado pelo delegado Maurício Moscardi Grillo.

Os indiciados devem responder por uma extensa lista de crimes: advocacia administrativa, concussão, corrupção ativa e passiva, crime contra a ordem econômica, emprego de processo proibido ou de substância não permitida, falsidade de atestado médico; falsificação, corrupção, adulteração ou alteração de substância ou produtos alimentícios; ainda organização criminosa, peculato, prevaricação, uso de documento falso e violação de sigilo funcional.

Segundo a PF, há farta materialidade e variadas provas de autoria dos crimes citados. De acordo com o relatório, os indícios e provas colhidos ao longo da operação “permitem concluir pela existência de uma organização criminosa atuante dentro da estrutura do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, tanto no Estado do Paraná como em outros Estados”.

Haveria, ainda, fortes evidências das mesmas práticas pelo menos nos estados de Goiás e Minas Gerais.

Ainda de acordo com o inquérito, as práticas delituosas consistiam no conluio com empresários submetidos à fiscalização para “facilitar condutas, posicionar fiscais indicados pelas empresas e até mesmo fazer vistas grossas a irregularidades na fabricação dos produtos. Também foram detectadas solicitações e exigências de valores ou favores, para viabilizar procedimentos de competência do Ministério.”

Nas conclusões apresentadas, a PF fala em necessidade imperiosa de revisão dos processos que envolvem o setor econômico, afirmativa feita em decorrência das falhas apontadas nas 21 empresas fiscalizadas na operação, todas elas com demonstração de claro risco à saúde pública.

IBGE registra queda nos preços

Em primeiro levantamento após a Operação Carne Fraca, dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que o preço da carne caiu 0,96% em março. O levantamento foi medido pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que analisa a inflação oficial brasileira, e divulgado nesta sexta-feira (7). Fígado (-2,43%) e contrafilé (-1,84) foram os itens que tiveram as maiores quedas.

O custo do frango inteiro teve queda de 0,5%. Entre os processados, a salsicha (-0,49%), linguiça (0,59%), salame (-2,47%) e hambúrguer (-1,49%) apresentaram quedas significativas.

Por outro lado, a carne de porco, que não foi citada da operação, teve alta de 1,43%. O mesmo acontece com os peixes, que tiveram alta de 3,43% nos preços.

A inflação brasileira perdeu o ritmo e marcou 0,25% em março, leve queda em relação a fevereiro, quando marcou 0,33%. Com isso, o primeiro trimestre de 2017 fechou acumulado em 0,96%. A inflação oficial acumula 4,57% nos últimos 12 meses.

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Repórter no Paraná Portal
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