PIB: crescimento da agropecuária puxou outros setores

Mariana Ohde


A Agropecuária registrou a maior expansão no primeiro trimestre de 2017 e alavancou o Produto Interno Bruto (PIB) que, no período, registrou avanço de 1% – resultado que, tecnicamente, tira o país da recessão.

Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgados nesta quinta-feira (1º), o PIB da Agropecuária cresceu 13,4% na comparação com o último trimestre do ano passado. O índice representa o melhor desempenho em termos trimestrais desde 1996. Apenas entre janeiro a março, a setor gerou R$ 93,402 bilhões em riqueza, ante os R$ 52,871 bilhões registrados no trimestre anterior. Na comparação com o primeiro trimestre do ano passado, a Agropecuária cresceu 15,2%.

“O crescimento é representativo porque quebra a sequência de oito quedas trimestrais consecutivas. Tecnicamente, quebra a condição de recessão”, afirma Christian Bundt, membro do Comitê Macroeconômico do ISAE. Segundo ele, o crescimento de 1% do PIB já era esperado. Os indicadores que causaram surpresa foram os dados setoriais: Agropecuária (13,4%) e Indústria (0,9%) tiveram índices maiores que o esperado e Serviços (0%) menor.

Crescimento acelerado no primeiro trimestre

Para Christian, a Agropecuária foi o único setor que cresceu de fato, com expressividade e reflexos nos demais setores, em função da metodologia de cálculo. Com isso, foi também o que mais participou no crescimento total (0,8 de 1% é creditado ao Agronegócio).

“Algumas das principais culturas do país, como soja, arroz e milho já tiveram boa parte da colheita no primeiro trimestre de 2017. Portanto, os efeitos do agronegócio são maiores no primeiro trimestre. Daqui para frente diminuem os efeitos do agronegócio sobre o PIB. Dentre as commodities com expressão econômica, ainda teremos, em 2017, a safra da cana de açúcar, trigo e do café. A pecuária também tem maior volume no segundo trimestre de cada ano”.

O crescimento do setor agropecuário se deve a vários fatores, na avaliação do especialista. Os principais são o clima, que se manteve favorável neste ano; a produtividade, que também é afetada pelo clima, e o preço e a projeção de preço das commodities, assim como a previsão de produção em outros países.

Participação do Paraná é “fundamental”

Destaque na produção de grãos, o estado teve papel importante no resultado, segundo Christian. “No estado, a cadeia do agronegócio representa aproximadamente 30% do PIB local. O Paraná é o segundo produtor de soja do Brasil. Sendo a soja o principal produto agrícola brasileiro, inclusive para exportação, a participação do nosso estado nesse 1% de crescimento do PIB no primeiro trimestre de 2017, comparado com quatro trimestre de 2016, é fundamental”, afirma.

No Paraná, a safra de grãos de verão 2016/17 está com a colheita praticamente encerrada e totaliza 24,8 milhões de toneladas – 23% a mais que a anterior. O carro-chefe é a soja, que contribui com 19,5 milhões de toneladas, um recorde de produção. Os dados foram divulgados na segunda-feira (29) pelo Departamento de Economia Rural (Deral), da Secretaria Estadual da Agricultura e Abastecimento (Seab). Os números se referem ao relatório mensal do mês de maio.

No Brasil, a projeção é de que a colheita chegue a 232 milhões de toneladas, aumento de 24,3% em relação à temporada passada, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).

“Se o preço do câmbio beneficiar a exportação e forem melhoradas as condições de armazenagem e qualidade de transporte, o PIB paranaense será proporcionalmente maior que o do Brasil”, ressalta.

Terra preparada para plantação no Paraná
Foto: Rodolfo Buhrer/Paraná Portal

Influência sobre outros setores

Segundo o especialista, os resultados setoriais estão ligados e tanto Serviços quanto Indústria foram diretamente influenciados pela Agropecuária.

“Vimos algumas reportagens considerando a possibilidade do crescimento do PIB da Indústria ter sido motivada pela formação de estoques e não pelo aumento da demanda. Discordo dessa tese, pois observando a Sondagem da Indústria, realizada pela Fundação Getulio Vargas, os níveis de estoque decresceram na comparação entre o primeiro trimestre de 2017 e o quarto trimestre de 2016. Se o que houve foi formação de estoque, isso deve conter a produção no próximo trimestre”, explica.

Christian atribui o crescimento da Indústria no período ao crescimento do agronegócio. “No cálculo do PIB, a agroindústria está computada para Indústria e não para a Agropecuária. Portanto, o crescimento da Agropecuária causa reflexos no PIB da Indústria”, afirma.

O especialista também ressalta que, da mesma forma, os serviços ligados ao agronegócio estão computados para o setor de Serviços e não para a Agropecuária. Desta forma, o crescimento da Agropecuária também causa reflexos no PIB do setor de Serviços. “Isto, com certeza, foi fundamental para a estabilização do comportamento do setor de Serviços”, diz.

Demanda cai com a falta de confiança

Ainda segundo Christian, os números da demanda interna foram piores que o esperado.

O crescimento da Agropecuária entre o último trimestre de 2016 e o primeiro de 2017, pela ótica da oferta, causa reflexos nas exportações na ótica da demanda, segundo Christian. Em sua avaliação, o grande desafio do agronegócio em 2017 é a manutenção de um câmbio favorável para manter exportações das commodities em alta, além do transporte e armazenagem.

“A decepção grande foi pela ótica da demanda. Nenhum dos indicadores ficou positivo. A demanda das famílias, do governo e o investimento em máquinas, construção e pesquisa diminuíram na comparação entre o quarto trimestre de 2016 e o primeiro trimestre de 2017. Aqui reside o grande problema. Falta de confiança, cada vez mais abalada pelos fatos políticos. E é justamente a falta de confiança que freará o crescimento que estava previsto para 2017, que já não era expressivo e agora será menor”, explica.

“Sem confiança não há consumo, não há aumento de produção, nem de empregos. E, por conseguinte, a economia não cresce sustentavelmente”, avalia.

Maggi ressalta recuperação das perdas

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Para o ministro da Agricultura, Blairo Maggi, o bom desempenho do setor no resultado do PIB está relacionado à recuperação das perdas do ano passado. Em entrevista concedida em Castro, no Paraná, o ministro ressaltou que, não fosse a redução dos preços, o resultado poderia ter chegado a 17%.

“É fácil explicar. Primeiro, o agronegócio é a parte da economia que mais tem crescido nos últimos anos. O crescimento de 13,4% basicamente é a recuperação do que perdemos no ano passado”, afirmou.

Segundo Maggi, as perdas em 2016, só na agricultura, foram de cerca de 30 milhões de toneladas, em razão de problemas relacionados ao clima. A agricultura é responsável por 5,5% do PIB, mas somada a pecuária e agroindústria, o setor chega a responder por 25% do produto interno bruto brasileiro.

“Então, quando você tem mais volume de mercadoria, fretes maiores, mais consumo de combustíveis, de pneus, são pessoas empregadas, serviços. Então, indiretamente, a agricultura impulsiona a economia, porque tem um volume maior de produção, até com os preços menores que no ano passado”, disse.

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Repórter no Paraná Portal
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