Recurso francês contra aquecimento global diminui dependência do BRDE

Narley Resende


A assinatura de um memorando em Curitiba nesta quinta-feira (14) para captação de 50 milhões de euros oriundos do Acordo de Paris, assinado em 2015, é o primeiro passo para diminuir a dependência que o Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE) tem de créditos do retraído Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Os créditos do BNDES são responsáveis atualmente por mais de 90% dos empréstimos repassados pelo órgão regional.

Os recursos da Agência Francesa de Desenvolvimento (AFD) foram possíveis após o BRDE apresentar um programa de Produção e Consumo Sustentável (PCS), que gera financiamentos para empreendimentos com características socioambientais. O programa captou o recurso da iniciativa baseada no acordo universal para luta contra as mudanças climáticas e o aquecimento global em Paris.

De acordo com o diretor-geral da Agência Francesa Rémy Rioux o PCS viabilizou a cooperação financeira entre as duas instituições. “Para negociação do acordo de Paris sobre o clima, porque é preciso mobilizar todos os financiadores públicos e privados para fazer os financiamentos certos para as infraestruturas sustentáveis para lutar contra o aquecimento global. Não é apenas um assunto para órgãos internacionais, mas para órgãos como o BRDE, muito importante nessa perspectiva”, afirma Rioux.

O programa PCS do BRDE atendeu às demandas da agência francesa. De acordo com Rioux, a parceria não é apenas financeira.

“Entendemos que o BRDE queria se lançar no financiamento sustentável e está desenvolvendo um produto, uma linha chamada PCS (Produção e Consumo Sustentável) e é esse produto que vamos financiar através da nossa linha de crédito. Estão por trás resultados esperados em que poderemos apresentar juntos. Mas a parceria não é apenas financeira, mas para compartilhar tudo que aprendemos nos cem países em que estamos atuando, visando acompanhar com o BRDE nesse nova estratégia de desenvolvimento com sustentabilidade”, disse o diretor da AFD nesta quinta-feira.

Foto: Divulgação BRDE
Foto: Divulgação BRDE

Demandas sustentáveis

A linha do BRDE dedica os investimentos às iniciativas voltadas à produção e consumo sustentáveis e de combate às mudanças climáticas. De acordo com o diretor de planejamento do banco regional, Luiz Corrêa Noronha, a partir de novembro as primeiras iniciativas já devem ser beneficiadas com os recursos franceses. Ele destaca cinco principais áreas de atuação que estão sujeitas ao financiamento.

“Inclui pelo menos uso eficiente e racional de água, agronegócio sustentável, energias limpas e eficiência energética, cidades sustentáveis, dentro do BRDE Municípios, e qualquer tipo de disposição adequada de dejetos. Esses cinco grandes componentes e mais todo e qualquer investimento que tiver o viés da sustentabilidade e de combate às mudanças climáticas é sujeito a financiamento com esse recurso da agência francesa”, explica.

Noronha confirma a estratégia do BRDE de diminuir a dependência do BNDES. A parceria com o banco francês é o primeiro grande passo rumo a uma independência maior.

“A agência aqui do Paraná já fez duas operações do FGTS com a Caixa Federal – não tão expressivos. Mas são operações específicas para o ‘Refrota’, para transporte. Como passo efetivo (para independência do BNDES) a gente pode dizer que sim. Faz parte de um planejamento estratégico que a gente está colocando em funcionamento para fugir um pouco dessa dependência. Sem dúvida nenhuma instituição do mundo é bom depender de uma outra apenas. Por mais que seja uma instituição parceira, confiável e tudo, não é estratégico depender 90 e tantos por cento de uma única fonte”, avalia.

O tamanho da fatia do banco federal também faz com que o BRDE tenha pouca flexibilidade para optar sobre os setores favorecidos, hoje pautados pelo BNDES. Para continuar nesse caminho, o órgão regional pleiteia créditos também junto ao Banco de Desenvolvimento da América Latina, ao Banco Europeu de Investimento (BEI), e ao banco alemão KfW. Iniciativas domésticas como a liberação de recursos do FGTS pela Caixa Econômica Federal já foram consolidadas.

Nova presidência

Já cotado pelo governador Beto Richa (PSDB) para assumir a presidência do BRDE em novembro, o atual vice-presidente, Orlando Pessuti, afirma que vai manter a política de independência do banco.

“Isso sempre esteve presente, desde que eu entrei no banco há dois anos e meio. Estamos nos ajustando a uma nova realidade, inclusive que o próprio BNDES está submetendo a todos nós. Está encurtando os repasses e os limites, não só para nós, mas para todas as instituições de fomento e desenvolvimento”.

“Entre 2017 e 2018, conforme já proposto na lei de diretrizes orçamentárias que está sendo votada, o BNDES terá que devolver mais de 100 bilhões de reais ao tesouro. Em dois anos o BNDES retirou da sua carteira de financiamento 200 bilhões. Isso repercute nos nossos limites e prejudica, evidentemente, o espaço para nós fazermos os financiamentos”, aponta.

Federalização 

O banco responsável por investimentos no setor produtivo do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. A direção, assim como o governador Beto Richa, descartam a possibilidade de federalização do BRDE, como chegou a ser proposto por representantes do Rio Grande do Sul.

“Quando o Rio Grande do Sul procurou o governo federal para fazer os seus ajustes, ele pediu o Banrisul (Banco do Estado do Rio Grande do Sul S.A.), pediu o Badesul (Desenvolvimento – Agência de Fomento/RS) e pediu o BRDE. Então surgiu o comentário de que o RS poderia propor a federalização do banco BRDE. Mas de imediato os paranaenses, representados pelo governador, as federações, se manifestaram contrárias; Santa Catarina também se manifestou e o assunto foi zerado”, garante Pessuti.

 

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