Redes 5G estreiam no Brasil sem entregar potencial da conexão

De acordo com a Anatel, poucos modelos de smartphones disponíveis no mercado suportam a tecnologia do "5G puro".

Julio Wiziack - Folhapress - 28 de julho de 2022, 10:41

Marcello Casal Jr./Agência Brasil
Marcello Casal Jr./Agência Brasil

A telefonia de quinta geração vai chegar a mais três capitais nesta sexta-feira (29) sem que a Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações) possa enquadrar as operadoras pela qualidade do serviço prestado. Os entraves técnicos dão margem para que, na prática, os usuários usem um serviço que não chega ao potencial prometido pelo 5G.

Em Brasília, primeira cidade a receber a tecnologia no país (no início de julho), o serviço segue instável e com as velocidades prometidas oscilando e, muitas vezes, se equiparando às do 4G devido à falta de cobertura na capital. Nesta semana, está prevista a entrada em operação em Belo Horizonte (MG), João Pessoa (PB) e Porto Alegre (RS).

Técnicos da Anatel consultaram fabricantes de chips e de aparelhos de quinta geração para saber o que está ocorrendo e descobriram que poucos modelos funcionam hoje com a tecnologia chamada de "standalone", a do "5G puro".

Na rede standalone, o tempo de resposta para o celular receber os dados é inferior a 1 milissegundo -tempo conhecido como latência. O "não-standalone" oferece latência maior.

Além das redes standalone e não-standalone, há as chamadas redes DSS (Compartilhamento Dinâmico de Espectro, na sigla em ingês), que simulam a velocidade do 5G - mas por antenas de 4G. A latência também é maior que a do 5G.

Muitos aparelhos precisam ter seus chips trocados para usar o 5G puro, como o iPhone. A Apple já avisou a Anatel que seus aparelhos precisam de chips 5G para funcionarem em standalone.

No entanto, há falta de chips de quinta geração no mercado. Por isso, segundo os fabricantes, as teles ainda não lançaram planos que operam realmente com o 5G -a única operadora que separou as redes com planos próprios para o 5G standalone foi a TIM.

Os aparelhos hoje exibem o sinal do 5G na tela, mas em grande parte eles funcionam na rede DSS -que simula a velocidade do 5G- ou na 5G não-standalone.

O ministro das Comunicações, Fábio Faria, disse nesta quarta-feira (27) que vai para a Califórnia, nos EUA, pedir para que a Apple atualize seus iPhones.

"Hoje, o iPhone só está apto a ter 5G não-standalone", disse Faria. "Para ter standalone que funciona [com] internet das coisas precisa baixar atualização [da Apple]. As operadoras já estão conversando [com a Apple]."

O ministro afirmou que a ideia é ter essas atualizações disponíveis pela Apple e demais fabricantes -Motorola e Samsung- até o final de setembro, prazo máximo para que as antenas 5G estejam funcionando em todas as capitais do país.

Dados preliminares em posse da Anatel indicam que, no caso da Apple, somente os modelos iPhone 13 (os mais recentes lançados pela empresa americana) permitirão o 5G puro. Eles devem ser homologados em novembro. Mesmo assim, a Apple terá de disponibilizar um software específico. Não há prazo previsto para o lançamento.

Já os modelos da Samsung e Motorola operam nas redes standalone sem necessidade de troca de chips. São eles: S21, S21Plus, S21Ultra, A52s, S21FE, A535G, A335G -todos da série Galaxy, da Samsung; Edge20, MotoG200, Edge300Pro, Edge30, MotoG82, da Motorola.

Os demais modelos da Apple, Samsung e Motorola vendidos como 5G só funcionam nas redes não-standalone.

Até a atualização dos aparelhos e a chegada dos chips 5G, a Anatel não tem como exigir o cumprimento da qualidade do serviço porque, ainda segundo relatos dos técnicos da agência, as operadoras não começaram a venda de planos exclusivos 5G (com chip novo).

Todas anunciam pacotes 5G, mas simplesmente migraram os clientes de um serviço para outro por meio das redes de quarta geração, que simulam a velocidade do 5G, ou nas redes novas não-standalone.

A Superintendência de Cumprimento de Obrigações da Anatel já está monitorando essa situação e, a partir de setembro, quando todas as capitais deverão ter as redes 5G instaladas, passará a exigir qualidade na prestação do serviço.

Segundo o presidente do Gaispi (Grupo de Acompanhamento da Implantação das Soluções para os Problemas de Interferência), o conselheiro da Anatel Moisés Moreira, outras capitais estão avançadas com a instalação da rede 5G.

Salvador (BA), Curitiba (PR), Goiânia (GO) e Rio de Janeiro (RJ) devem ser as próximas a terem sinal verde para o início do serviço, na reunião prevista para 10 de agosto.

São Paulo ainda enfrenta dificuldades devido ao número de antenas a serem instaladas. Moreira informa que as operadoras conseguiram realizar metade do trabalho até o momento.

No caso de Belo Horizonte, João Pessoa e Porto Alegre, segundo o Gaispi, houve a completa desocupação da faixa de 3,5 GHz (Gigahertz) -principal frequência da telefonia de quinta geração.

Frequência é uma avenida no ar por onde as operadoras fazem trafegar seus sinais. Fora delas, ocorrem interferências.

Pelo plano original, todas as 27 capitais deveriam ter o serviço em funcionamento em julho. No entanto, o cronograma foi adiado por dois meses devido à falta de equipamentos vindos da China, que foi obrigada a decretar lockdown com uma nova onda da pandemia.

Por isso, a agência concedeu prazo até o final de setembro para que todas as capitais tenham antenas de 5G. A meta definida é de uma antena a cada cem mil habitantes por operadora.

Os equipamentos vindos da China são filtros, fundamentais para evitar interferências na faixa de 3,5 GHz, que vinha sendo ocupada por empresas de satélite.

Com a migração desse uso para a telefonia celular, o Gaispi coordena uma força-tarefa para instalação de filtros em antenas parabólicas -que antes captavam principalmente a programação de TV via satélite- para evitar interferências.

Apesar do contratempo, as operadoras que conseguirem comprovar a limpeza da faixa (com a instalação dos filtros) para o Gaispi podem pleitear o início da operação antes de setembro.

A Conexis, associação que representa as empresas do setor, disse que a rede 5G, na frequência de 3,5 GHz, foi ativada recentemente em Brasília e terá crescimento gradativo na cobertura móvel na cidade.

"Não há registro de qualquer problema no que diz respeito às redes das prestadoras. Para ter mais informações e tirar dúvidas sobre as condições de uso e aparelhos compatíveis com a tecnologia 5G, o usuário pode consultar o site da sua operadora", disse a associação.