Risco de racionamento dobra para 10% e deve pressionar ainda mais inflação, diz Itaú

Douglas Gavras, Folhapress

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O risco de um racionamento de energia no país, por conta da crise hídrica que afeta o nível dos principais reservatórios das hidrelétricas aumentou de 5% para 10%, segundo projeções da equipe de macroeconomia do Itaú Unibanco.

A crise hídrica, com chuvas abaixo da média desde abril, tem levado o país a um cenário preocupante, o que aumenta os temores de um racionamento, lembra Mario Mesquita, economista-chefe do banco.

Isso fez com que o Itaú aumentasse as projeções para um risco de racionamento e, mesmo que a crise não escale para esse patamar, não é possível descartar que algumas regiões tenham períodos de escassez generalizada.

Nesse cenário de maior pressão sobre o setor elétrico, com nova elevação da tarifa de energia pela Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica), o banco prevê que a inflação pelo IPCA (Índice de Preços ao Consumidor – Amplo) possa chegar a 8% este ano –ante a previsão atual de 6,9%, já bem acima do teto da meta para 2021, de 5,25%.

O novo valor da bandeira tarifária deve ser anunciado pelo governo nesta terça-feira (31). O aumento servirá para bancar a operação de usinas térmicas, mais caras, e há uma expectativa de que o valor seja elevado em ao menos 50%.

“O IPCA já está elevado e disseminado e com a crise hídrica há um viés de alta para este ano”, diz Mesquita. Segundo ele, os preços continuam pressionados ainda por conta de gargalos na indústria. E a inflação de serviços deve se manter persistente, com a recuperação paulatina do mercado de trabalho.

A restrição na oferta de componentes na indústria também faz com que os analistas antevejam uma recuperação mais lenta para o PIB (Produto Interno Bruto).

Ele também apontou que o impacto da crise de energia no PIB vai depender do tamanho do racionamento ou da redução forçada da demanda. Segundo o banco, para cada redução de 1 ponto percentual na demanda é esperada uma perda de 0,2 ponto no PIB.

Os economistas lembraram que a maioria dos países latinos vê uma queda no contágio e recuperação da atividade econômica. Todos os países que têm meta de inflação estão com o índice acima da meta.

“Este ano, o lado fiscal é menos expansionista, mas ainda estamos convivendo agora com as consequências da política monetária de juros baixos no começo do ano. Há também uma mola comprimida do setor de serviços e que está sendo descomprimida”, completa Mesquita.

Para 2022, a maior parte desses motores não terá o mesmo efeito sobre a atividade econômica, e o crescimento esperado pelo Itaú Unibanco para o PIB do ano que vem é de 1,5%.

“O Brasil cresce mais quando os juros aqui estão baixos e o mundo está crescendo. Ano que vem, o lado fiscal vai ser mais contracionista, o mundo vai crescer menos e a normalização dos setores após as medidas de isolamento, em boa medida, já vai ter acontecido.”

O Itaú também vê uma recuperação mais firme do emprego formal, a partir dos dados do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados), mas a ocupação que inclui os trabalhadores informais, medida pela Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) Contínua ainda distante do patamar de antes da pandemia e do pleno emprego antes da crise de 2015 e 2016.

Nesta terça-feira, o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) divulgou que a taxa de desemprego do país pela Pnad Contínua recuou para 14,1% no segundo trimestre deste ano. Apesar de uma redução ante o trimestre anterior, o Brasil ainda tem 14,4 milhões de desempregados.

No cenário externo, a perspectiva de retirada de estímulos do Fed (o banco central norte-americano) tem feito os países emergentes anteciparem a alta de juros.

Já para a China, o cenário tende a ser mais desafiador no segundo semestre, lembra a equipe do banco. O país precisa conviver com novas restrições decorrentes da Covid-19 e vai ser necessário usar mais medidas de restrição de circulação como estratégia para conter o vírus.

As exportações chinesas devem perder força e também podem impactar nos resultados da economia do país o aumento na regulação das empresas de tecnologia e o aperto de crédito e de regulação.

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