Startup paranaense leva produtos da roça para a mesa dos consumidores

Mariana Ohde


Os cafés especiais do Norte Pioneiro, a bala de banana de Morretes, o queijo de Witmarsum. Os alimentos típicos se confundem com a história do Paraná e de outros estados. Muitos deles, inclusive, são tão característicos que recebem “selos” especiais, como o registro de Indicação Geográfica (IG), conferido pelo Sebrae/PR.

Mas essa história só é possível porque está nas mãos deles: os pequenos produtores. Não existem dados exatos sobre quantos atuam no Paraná, segundo a Secretaria da Agricultura e do Abastecimento (Seab), pois muitos atuam informalmente. Porém, a Emater estima que existam, hoje, cerca de 4 mil. Só no programa Fábrica do Agricultor, que oferece capacitação e orientação, são 1.380 produtores em busca da formalização e expansão dos negócios.

Além da formalização da atividade, outra dificuldade no mercado de produtos coloniais – produtos regionais produzidos artesanalmente – é a divulgação e o acesso a mercados maiores. “O dia a dia dos produtores é na produção, na colheita, no preparo. Por serem pequenos, de base familiar, acredito que falta capacitação e recursos para se dedicaram também à divulgação. O negócio deles gira em torno da comunidade onde vivem e de indicações boca a boca”, explica Jeferson Jess, empresário e idealizador da Caixa Colonial.

A startup paranaense, que iniciou suas atividades neste ano, é inspirada em um modelo negócio em expansão: as caixas por assinatura. Todos os meses, Jeferson seleciona produtos coloniais de diferentes cidades brasileiras e as envia para os assinantes. As três primeiras edições – de abril, maio e junho – trazem produtos de Morretes e da Colônia Witmarsum, ambos no Paraná, e de Joinville, em Santa Catarina.

Os produtos são comercializados com o nome e o contato do produtor, para que os sócios possam comprar direto com eles. “Divulgamos também a história e os atrativos da região através do site e do encarte que acompanha a caixa, estimulando o turismo e movimentando a economia local”, afirma.

Da roça para a mesa

Jeferson conta que a ideia de criar a Caixa Colonial surgiu de um trabalho anterior, em uma empresa especializada em oferecer experiências de day use em ambientes rurais como sítios, chácaras, hotéis fazendas. “Viajando bastante pelo interior, percebi que muitas localidades tinham grande potencial para day use, mas a essência de quem morava ali não era de receber pessoas e lidar com o turismo e, sim, cuidar da roça e fazer o melhor queijo, salame, doces, biscoitos, receitas e tradições que o morador do campo cultivava de geração para geração”, conta.

“Apesar de criarem produtos de alta qualidade e de forma artesanal, muitos produtores não tinham visibilidade fora da comunidade onde viviam, pois não possuíam estrutura nem expertise para cuidar da venda, transporte, marketing desses produtos”. Foi então que o empresário resolveu apostar no modelo de negócio, com o objetivo de valorizar o trabalho dos produtores e conectá-los com os consumidores.

A primeira viagem para conhecer as diversas regiões do Brasil foi feita em março, na Serra da Mantiqueira e sul de Minas Gerais. “Uma vez por mês, reservo uma semana para viajar em busca de novos produtos e produtores. Começamos escolhendo destinos próximos a Curitiba, para entendermos melhor a logística envolvida no negócio. Procuramos variar os locais de acordo com a cultura e o ecossistema de cada região, diversificando assim os produtos de cada mês”, conta Jeferson.

Os produtores são escolhidos de acordo com os produtos típicos e mais representativos de cada região. Morretes, no litoral do Paraná, por exemplo, é referência na produção de cachaça de alambique e banana in natura.

“Nossa preferência é por produtos orgânicos, artesanais, de agricultura familiar, naturais e sem conservantes. Todos os produtos são degustados e procuramos conhecer a história desses produtores, como são produzidos, etc. Eles se tornam parceiros para atender a caixa daquele mês e demandas menores de forma avulsa. Não existe um compromisso de parceria fixa, podemos no futuro quem sabe fazer outras edições do mesmo local dando espaço para novos produtores de qualidade participarem também”, explica Jeferson.

Em outubro, o empresário planeja uma segunda expedição colonial pelo Sul do Brasil. “A ideia é continuar se estruturando, investir em conteúdo, oferecer caixas de regiões mais distantes. Outra forma de inovar é ficar atento a opinião dos sócios, pois o clube só existe por causa deles”, diz.

Tradição e histórias

Todo produto colonial tem uma história e, segundo Jeferson, todas elas têm algo em comum. “A maioria das histórias que encontramos são de pessoas simples, mas apaixonadas pelo que fazem, mesmo em momentos de dificuldades”, conta.

“Uma história curiosa está na caixa deste mês [julho], de Prudentópolis, Paraná. Na região há uma congregação de irmãs missionárias que vieram da Ucrânia muitos anos atrás. Para aumentar a renda do colégio onde elas vivem, começaram a fazer biscoitos para serem vendidos nas feiras da cidade. São receitas centenárias, saborosíssimas, em prol de uma causa nobre, mas que nunca eram vendidas fora da cidade e que agora estarão disponíveis para os sócios da Caixa Colonial”, relembra.

As irmãs missionárias Olga Truch e Mira Derkacz, de Prudentópolis.
As irmãs missionárias Olga Truch e Mira Derkacz, de Prudentópolis.

Geleia de vinho de Joinville

Outra história curiosa é a de Denir Mariana Neitzel, de Joinville, Santa Catarina. Ela produz uma geleia de vinho, muito conhecida na região, uma ideia que surgiu de um jeito inusitado.

“A gente tem que estar sempre inovando, porque são muitos produtores fazendo as mesmas coisas”, explica. Com isso em mente, Denir enviou uma colaboradora a uma feira em Florianópolis, para pesquisar a geleia de vinho, produto sobre o qual já havia ouvido falar, mas não sabia como fazer. Porém, o plano foi frustrado – por motivos religiosos, a senhora não quis trazer a receita, feita com bebida alcoólica, de volta para casa.

Mas a ideia não foi descartada. Algum tempo depois, Denir recebeu uma encomenda para fazer doces para um casamento. O vinho usado em uma das receitas – produzido em Nova Trento, também em Santa Catarina – sobrou e ela decidiu tentar fazer a geleia. Que foi um sucesso. “A geleia de vinho me tirou do vermelho”, comemora.

Denir e a geleia de vinho produzida em Joinville (SC).
Denir e a geleia de vinho produzida em Joinville (SC).

Hoje, Denir já oferece outros sabores ao vinho, como morango, abacaxi e hibisco em flor – “não daqueles secos que as pessoas compram”, explica. Outro sabor que deve sair em breve é o de pétala de rosas. Denir comemora a encomenda da Caixa Colonial. “Ele falou comigo e depois ligou dizendo que tinha um problema: precisa aumentar”, brinca. Para ela, é uma ótima oportunidade para divulgar seu trabalho, juntamente com as feiras e festas tradicionais das quais ela costuma participar.

Cerveja de Witmarsum

Em Witmarsum, no Paraná, outra empresa que participa do projeto: a UsinaMalte. A produção de cerveja começou em dezembro de 2014 e a entrada no mercado veio em janeiro de 2017, com o registro da fábrica no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), como conta o sócio Ferdinando Schmeider.

Hoje, são cinco produtos fabricados por Ferdinando e seu sócio, Aldecir Isbrecht. “Uma pilsen que fornecemos exclusivamente para a Confeitaria Kliewer aqui de Witmarsum e que leva o nome de Kliewer. Uma Americam Pale Ale, uma Weiss, uma Oktoberfest e uma Imperial Stout”, lista. “A cerveja que foi para a Caixa Colonial foi a Weiss, à escolha do Jeferson, que provou todas”, explica Ferdinando.

UsinaMalte

Para ele, a participação do projeto trouxe vantagens. “Primeiro, por sermos novos no mercado, mas, principalmente, por chegar à casa dos consumidores”, conta. Segundo ele, são pessoas que buscam produtos diferenciados em qualidade e por serem produzidos em menores quantidades e em localidades pouco exploradas e conhecidas pelos grandes centros, “que apenas conhecem produtos distribuídos pelas grandes e megas industrias”.

“Outro motivo é que a Caixa Colonial nos levou para localidades distantes que, possivelmente, não iríamos conseguir atingir com nosso formato de venda e logística”, afirma. “Ela leva não só o nosso produto, mas vários produtos da nossa região, o que valoriza nossa localidade, tanto para este consumo especifico do kit mensal, mas para outros negócios futuros”. Além da Caixa, a UsinaMalte investe apenas na participação em ferias locais, na divulgação em redes sociais e promoção junto a clientes que servem o produto.

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Mariana Ohde
Repórter no Paraná Portal