União Europeia é forte em valores, mas fraca na prática, mostra pesquisa

Folhapress

A Comunidade Europeia nascida na ressaca da Segunda Guerra (1939-45) propunha o estabelecimento de um consórcio de cooperação econômica ancorado em noções como liberdade, democracia, direitos humanos e Estado de Direito. Da interdependência viria a paz, a concórdia entre ex-inimigos.

Mais de 50 anos depois, o retrato acima só corresponde parcialmente àquele que se faz da União Europeia (UE), sucessora da comunidade, em dez dos principais países do bloco -Polônia, Espanha, Alemanha, Itália, França, Hungria, Reino Unido, Suécia, Grécia e Holanda. É o que mostra um estudo do Instituto de Pesquisa Pew divulgado nesta terça-feira (19).
Se, por um lado, uma maioria confortável dos entrevistados ainda associa o grupo transnacional à promoção de paz, valores democráticos e prosperidade, por outro, a UE também é vista pela maior parte como uma instância distante, insensível às necessidades e demandas mais prementes de seus cidadãos -e pouco eficiente.

Quando o levantamento se debruça sobre temas específicos, a avaliação é igualmente dura. Por exemplo, a forma como o bloco lida com problemas econômicos só é vista com bons olhos por 40% (mediana dos dez países) dos ouvidos.  Na Itália, que há pouco perigou sofrer processo disciplinar por apresentar um orçamento com previsão heterodoxa de déficit, apenas 20% aprovam a gestão financeira da UE.

A condução do brexit (desligamento do Reino Unido) pelo grupo, que monopoliza a agenda europeia há quase três anos, também é alvo de críticas. Só 38% a endossam, e nem são os britânicos os que mais a criticam. O muxoxo vem com mais intensidade de gregos (32%), italianos e húngaros (ambos com 31%).   Ainda mais aguda é a desaprovação à resposta da UE à crise migratória, que teve seu auge em 2015. Apenas 23% dos entrevistados acham que a instituição atua como deveria.


Mais uma vez, a aversão à política europeia nessa seara é especialmente intensa na Grécia (7% de aprovação), na Hungria (15%) e na Itália (16%), o que ajuda a entender a força eleitoral dos partidos de direita que adotam discurso anti-imigração nos dois últimos.  “O apoio à UE é em um sentido mais genérico, responde a uma ideia que ela encarna, não a políticas pontuais sobre este ou aquele assunto”, explica Jacob Poushter, diretor associado do Pew.

Ele chama atenção para dois pontos do levantamento: o entusiasmo com a Europa cai à medida que a faixa etária dos entrevistados sobe e também à medida que as amostras se deslocam para a direita no espectro de identificação político-partidária.   No cômputo geral, a economia aparece como uma das frentes mais vulneráveis da EU. Metade das pessoas ouvidas acha que seus conterrâneos vivem atualmente em situação pior do que 20 anos atrás, e 58% preveem vacas ainda mais magras quando as crianças de hoje forem adultas -na França, o pessimismo bate nos 80% e, segundo Poushter, chegou a 90% em 2013.

A relação algo contraditória que os cidadãos dos dez países que integram o estudo nutrem com a Europa encontra eco na maneira como eles encaram os imigrantes. Para a maioria dos entrevistados, os estrangeiros que decidem se radicar em solo europeu contribuem para fortalecer o lugar onde chegam e não devem ser mais responsabilizados do que outros grupos ou segmentos por crimes.

Porém, os europeus se ressentem do que se convencionou chamar de “comunitarismo”, ou seja, o fato de muitas colônias de estrangeiros não buscarem se integrar na sociedade em que estão instaladas, vivendo em grupos fechados, segundo valores que por vezes se chocam com os do exterior de sua bolha.

A pesquisa também mostra como um estigma pode se tornar perene: 57% das pessoas acreditam que os imigrantes fazem aumentar o risco de atos terroristas em seu país de aterrissagem.
As conclusões paradoxais do levantamento confirmam a dificuldade de fazer prognósticos sobre as eleições para o Parlamento Europeu, que acontecem no fim de maio, nos 27 países do bloco (e talvez ainda no Reino Unido, 28º). Imigração, economia, democracia e brexit estarão na ordem do dia, mas qual (ou quem) será o fiel da balança?

Por Lucas Neves

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