Clube afasta ex-treinador da seleção de ginástica após relatos de abuso

O ex-técnico da seleção brasileira de ginástica Fernando de Carvalho Lopes foi afastado nesta segunda-feira (30) de toda..

Folhapress - 30 de abril de 2018, 20:49

Foto: Ricardo Bufolin/CBG
Foto: Ricardo Bufolin/CBG

O ex-técnico da seleção brasileira de ginástica Fernando de Carvalho Lopes foi afastado nesta segunda-feira (30) de todas as atividades profissionais no Clube de Campo Mesc.

A decisão foi anunciada pelo clube de São Bernardo do Campo em comunicado, após reportagem veiculada pelo Fantástico, da TV Globo, no domingo (29), com relatos de ginastas e ex-ginastas que acusaram Lopes de abuso sexual.

Falaram ao programa 42 pessoas que disseram ter sido vítimas de abuso físico, moral ou sexual pelo ex-treinador.

Lopes já enfrentava na Justiça uma acusação feita em 2016 pelos pais de um menor de idade que havia trabalhado com ele no Mesc.

De acordo com a denúncia, o técnico teria cometido mais de um abuso contra o jovem. Ele nega todas as acusações.

Afastado do trabalho com atletas desde que a denúncia foi feita, Lopes coordenava modalidades no clube, onde trabalha há 20 anos.

A reportagem da TV Globo partiu de um comentário feito no Facebook pelo ginasta Petrix Barbosa, ouro nos Jogos Pan-Americanos de Guadalajara, em 2011, indicando a ocorrência de casos de abuso na ginástica brasileira.

De acordo com os relatos, os casos aconteceram ao longo de 15 anos, entre 2001 e 2016, a maior parte deles no clube de São Bernardo do Campo.

Petrix, hoje treinando nos Estados Unidos, disse ter sido vítima de tentativas de abuso desde quando tinha dez anos. Segundo o ginasta, que disse ser um dos que mais sofreram com Lopes, o técnico tomava banho com ele e chegava a dormir na mesma cama.

"Já acordei com ele, não sei quantas vezes, com a mão na minha calça, e eu conseguia tirar e dormir porque não ficava parado", relatou.

"Toda vez que eu ia dormir, na casa dele ou no hotel, eu ia dormir no chão. E ele falava: 'não, fulano vai para o chão, e o Petrix vai dormir na cama comigo'. Era uma coisa comigo, e eu ficava sufocado, sufocado, sufocado", contou.

Petrix afirmou também ter sido prejudicado pelo técnico quando este passou a fazer parte da comissão técnica da seleção brasileira masculina de ginástica.

"Ele já me disse pessoalmente que, nas reuniões de treinadores, era o primeiro a não me defender ou votar por mim. Já chegou, meses antes da Olimpíada, a dizer que me via abandonado (nos treinos). Só para me abalar antes da Olimpíada", relatou o ginasta.

Segundo depoimentos de atletas, que preferiram não se identificar, o treinador tocava nos genitais dos menores e pedia que se masturbassem, alegando querer saber o nível de desenvolvimento de hormônios para fazer os treinos dos ginastas.

Vítimas também disseram que outros treinadores sabiam sobre os abusos, mas nada faziam para interrompê-los.

Algumas afirmaram inclusive ter sofrido bullying, relacionado aos casos, quando se mudaram para o centro de treinamento de São Caetano do Sul, outro forte polo do esporte no estado de São Paulo.

O coordenador técnico de ginástica do Brasil, Marcos Goto, foi apontado por duas vítimas como um dos que mais faziam piadas sobre o caso.

Nos últimos dois anos, algumas vítimas voltaram a se falar e chegaram a criar um grupo no WhatsApp com o objetivo de pedir justiça contra os abusos.

De acordo com a reportagem, a investigação não avançou, e a acusação na Justiça ainda não chegou a ser formalizada.

Até o momento, foram ouvidas 15 testemunhas do caso e ao menos outras 13 pessoas citadas no processo ainda deverão prestar depoimento, segundo a TV Globo.

Por telefone, o ex-treinador Fernando de Carvalho Lopes negou ao Fantástico as acusações e disse estar com a consciência limpa.

"Nunca fui um técnico legal. Eu fui sempre muito rigoroso, às vezes até demais. E acho que, por outro lado, eu tive um problema de ser um cara que muitas vezes misturei, de achar que eu era mais do que um técnico", afirmou.

"Acho que eu podia ser um amigo, podia ser um pai, que podia ser qualquer outra coisa. Então, isso talvez tenha dado uma margem de interpretação errada para cada um deles. Mas a ponto desse tipo de acusação, eu não tenho o que falar, eles vão ter que provar."

Em julho de 2016, a menos de um mês da Olimpíada do Rio, a CBG (Confederação Brasileira de Ginástica) já havia desligado o técnico, então treinador do ginasta Diego Hypolito na seleção brasileira masculina de ginástica artística.

Lopes também havia sido afastado do clube ADC de São Bernardo do Campo. A secretaria de Esportes e Lazer da cidade disse que encerrou o vínculo do treinador assim que a atual gestão tomou posse, em janeiro de 2017.

Em entrevista ao UOL, o advogado do ex-técnico, Luís Ricardo Davanzo, rechaçou comparações da denúncia contra Lopes com o escândalo que levou o médico norte-americano Larry Nassar à cadeia.

Nassar foi condenado em fevereiro deste ano a até 360 anos de prisão por abusos sexuais contra pelo menos 265 ginastas americanas.

"No caso do médico, havia consumação do ato, introdução. Pela lei, hoje, o tipo de crime sexual é muito aberto, se tocou já é considerado estupro. É diferente o caso em que houve introdução de dedo ou penetração", argumentou.

Em nota divulgada nesta segunda (30), a administração do Mesc afirmou nunca ter recebido reclamação ou denúncia relacionada à atuação de Fernando de Carvalho Lopes nos 20 anos de sua colaboração com o clube.

O Mesc informou também que, há dois anos, quando surgiram as acusações, o treinador foi transferido para serviços administrativos, não mantendo mais contato com atletas da ginástica ou de qualquer modalidade esportiva.

Procurado pela reportagem, Fernando Lopes não foi encontrado para responder às acusações. A Confederação Brasileira de Ginástica também não se manifestou sobre o caso.