Contra Real e Barcelona, Pelé marcou gols e enfrentou Di Stéfano e Cruyff

Bruno Rodrigues - Folhapress


Barcelona (ESP) e Real Madrid (ESP) se enfrentam neste sábado (24) por LaLiga, no Camp Nou, em mais um capítulo da rica rivalidade do clássico espanhol. Pelé, que completa 80 anos nesta sexta-feira (23), não vestiu nenhuma dessas duas camisas, mas construiu parte de sua trajetória no Santos com excursões ao exterior.

E na primeira vez que viajou à Europa com o clube, teve a oportunidade de enfrentar o Real de Di Stéfano, além de golear o Barça na Catalunha. Foi em 1959 que o time da Vila Belmiro estreou no continente europeu. Campeão do mundo com a seleção brasileira no ano anterior, Pelé, apesar dos 18 anos, era o grande chamariz da turnê alvinegra.

A equipe comandada pelo técnico Lula fez seu primeiro jogo no dia 23 de maio e realizou sua última partida em 5 de julho. Nesse período de 43 dias, o Santos disputou 22 jogos -média de aproximadamente um a cada 48 horas. Os santistas enfrentaram combinados locais, seleções nacionais e alguns dos mais tradicionais clubes da Europa, como a Inter de Milão (ITA). Na final do Troféu Naranja, em Valência, o Santos goleou os italianos por 7 a 1, e Pelé marcou quatro.

Mas o jogo cercado de mais expectativa da excursão foi o embate com o Real Madrid de Alfredo Di Stéfano. A partida era uma espécie de tira-teima para eleger o melhor time do mundo e foi disputada duas semanas após a quarta conquista consecutiva dos espanhóis na Champions League, então chamada de Copa dos Campeões. No dia 17 de junho de 1959, o Santos entrou em campo de uniforme branco com: Lalá; Pavão e Dalmo; Getúlio, Ramiro e Zito; Dorval, Álvaro, Pagão, Pelé e Pepe.

“Eu sou do Paraná, nunca tinha ouvido falar em Real Madrid. Percebi que era um jogo diferente porque entramos no estádio e as luzes estavam todas apagadas. Perfilamos no meio do campo, mas ninguém via ninguém. Quando acenderam os refletores, os dois times estavam de branco. Eles tiveram que usar a roupa de treino”, conta Carlos Pierin, o Lalá, goleiro do Santos na excursão. O paranaense aproveitou a lesão de Laércio, o titular da meta santista, ainda no início da viagem, e assumiu a posição até o fim da turnê.

Pelé e Coutinho juntos na década de 60 (Site oficial Santos)

Pelé abriu o placar aos 10 minutos de jogo, em chute de fora da área. O gol do camisa 10 parece ter despertado o Real, que jogou de uniforme azul. Embora fosse um amistoso, o que estava em jogo era o reinado simbólico do futebol mundial. E as arquibancadas do Santiago Bernabéu acabaram por exacerbar o caráter competitivo do campo.

“Eu jogava na ponta esquerda, na beirada do campo, próximo ao alambrado. Segundo os torcedores espanhóis, o bandeirinha teria errado em um lance e jogaram uma garrafa nele, mas acertou na minha cabeça. Me fez um galo na parte de trás, fui medicado e continuei jogando”, diz Pepe.
Mateos, aos 36 minutos do primeiro tempo, já havia marcado três vezes para virar a partida e colocar os espanhóis na frente.
No início da etapa final, Pelé invadiu a área e foi derrubado por Santamaría. Pepe foi para a cobrança e diminuiu, mas Puskás, que substituiu Mateos, saiu do banco de reservas para anotar o quarto.
“Eu tive uma atuação muito boa, mas o Mateos, centroavante deles, foi muito feliz. Quando substituíram o Mateos, pensei: agora vai amenizar um pouco. Aí entrou o Puskás. Saía o diabo e entrava o demônio”, recorda Lalá, que lamenta o fato de Pelé não ter tido uma jornada das mais inspiradas em Madri. Coutinho ainda descontou e recolocou o Santos no jogo, porém Gento fez o quinto e deu números finais à partida.

“Até hoje não me conformo com aquela derrota. Éramos, na época, os dois melhores times do mundo. O Real Madrid ganhou e nunca mais quis jogar com o Santos. A bronca é essa, que eles nunca mais deram chance. Eu sempre brinco, quando encontro o pessoal [do Real]: ‘Agora podem jogar, eu já parei'”, brincou Pelé, em depoimento ao livro “Primeiro Tempo”, publicado em 2011.

Doze dias depois de perder para o Real, o Santos foi à Catalunha enfrentar o Barcelona, então campeão espanhol. Lula escalou a equipe com: Lalá, Getúlio, Pavão e Mourão; Ramiro e Zito; Dorval, Jair Rosa Pinto, Coutinho, Pelé e Pepe. Dorval e Pelé, com dois gols cada um, e Coutinho marcaram na goleada de 5 a 1 dos santistas sobre o Barça -Evaristo de Macedo descontou para os catalães. Neste jogo, os donos da casa foram reforçados por dois jogadores do Espanyol (Bartolí e Recamán), o seu rival local.

“O Barcelona tinha no ataque Koczis e Czibor, dois dos magiares da Hungria. Foi uma das grandes atuações minhas pelo Santos. Os caras jogaram em cima o tempo todo”, lembra Lalá. Pelé enfrentaria o Barcelona outras três vezes na carreira, e perdeu todas. A última delas em 1974, contra um Barça emblemático, capitaneado pelo astro holandês Johan Cruyff. A essa altura, o Santos já era global. Havia jogado na África, na Oceania e na América do Norte, além de novas visitas à Europa levado por seu principal garoto-propaganda.

Na última viagem de Pelé ao continente europeu com a camisa do Santos, o time paulista participou da disputa do Troféu Ramón de Carranza. Na estreia, diante do Espanyol (ESP), perdeu por 2 a 0. No dia 1º de setembro de 1974, a equipe alvinegra entrou em campo para enfrentar o Barça na cidade de Cádiz com: Wilson; Vicente, Marinho, Carlos Alberto e Wilson Campos; Léo e Mifflin; Mazinho, Clayton, Pelé e Edu.

Pelé faz 80 anos
Ricardo Stuckert/CBF

O holandês Neeskens, companheiro de Johan Cruyff na seleção vice-campeã mundial daquele ano, abriu o placar. Asensi, pouco antes do intervalo, anotou o 2 a 0. Na etapa final, Neeskens e Asensi marcaram novamente e ampliaram a vantagem para 4 a 0. Já nos instantes finais, Pelé cavou um pênalti e ele mesmo cobrou para descontar, em seu último gol na Europa pelo clube. “Posso ser um novo Di Stéfano, mas não posso ser um novo Pelé. Ele é o único que ultrapassa os limites da lógica”, disse Cruyff, certa vez, sobre o Rei.

No dia 2 de outubro, o camisa 10 fez a sua última partida o Santos. Diante da Ponte Preta, na Vila Belmiro, o time alvinegro venceu por 2 a 0 e Pelé ajoelhou no campo, em sinal de adeus ao clube e ao futebol brasileiro. De certa forma, a trajetória de 15 anos de turnês pelo mundo pode ser contada a partir do Real Madrid de Di Stéfano, que o recebeu para um tira-teima mundial, e encerrou com o Barcelona de Cruyff, em sua despedida dos grandes palcos antes da aventura americana com o Cosmos. Sorte da Espanha, que, pelo menos por duas gerações, pôde contemplá-lo de perto em seus gramados.

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