Curitiba Vôlei começa Superliga em busca de patrocínios para seguir vivo

Jorge de Sousa

Curitiba Vôlei - Gisele Miró - Superliga


O Curitiba Vôlei estreia na Superliga nesta terça-feira (12). Logo em seu primeiro compromisso a única equipe do sul do Brasil na competição vai medir forças contra o SESC-RJ, comandado pelo treinador bicampeão olímpico Bernardinho.

Mas enfrentar desafios tem sido comum para Gisele Miró, presidente do Curitiba Vôlei. Miró foi tenista profissional e chegou a conquistar a medalha de ouro em simples nos Jogos Pan-Americanos de Indianapolis em 1987. Só que como dirigente, a curitibana tem sentido na pele e no bolso como é difícil trabalhar com esporte no Brasil.

Em entrevista exclusiva ao Paraná Portal, Miró comenta como tem administrado com recurso próprio a equipe, suas expectativas para a próxima Superliga e também um pedido. Sem ajuda do poder público ou de patrocinadores o voleibol profissional pode novamente deixar Curitiba.

Paraná Portal: Como você avaliou o interesse dos curitibanos em ter uma equipe profissional de vôlei durante a última Superliga?

Gisele Miró: Meu objetivo hoje é trazer o melhor voleibol do mundo para Curitiba. O vôlei é um esporte que me permite isso.

Um esporte que tem 16 milhões de praticantes, o segundo do público em preferência e o primeiro entre as mulheres. No jogo nós vemos muitas famílias, do neto ao avô. Esse lado de ver a criançada tendo a oportunidade de ver as melhores jogadoras do mundo em sua frente.

Se você pegar o tênis, que foi o esporte da minha vida. Eu nunca tive a oportunidade de ver um Federer, um Nadal aqui em Curitiba, até porque eles nunca vieram.

Já o vôlei, nós tivemos 13 medalhistas olímpicas na última competição (Superliga). Esse ano temos novamente bicampeãs olímpicas, campeãs olímpicas, os melhores técnicos e as próprias estrangeiras, com algumas sendo campeãs mundiais.

Curitiba Vôlei - Gisele Miró - Superliga
Gisele Miró utiliza recursos próprios para manter o Curitiba Vôlei em atividade. Foto: Valterci Santos

PP: A Superliga tem crescido ano após ano e hoje é uma das principais ligas nacionais do mundo. Quais os desafios de montar um elenco para uma competição desse nível?

GM: Como gestora do time eu tenho pé no chão. O mesmo patrocínio que eu tinha na época do tênis, que era “paitrocínio”, é o mesmo de hoje. Quem patrocina a equipe hoje sou eu, então está muito difícil. Mas eu acredito que a gente vai conseguir chegar a essa ideia do esporte, não só de Curitiba, mas dentro do Paraná sendo forte.

Temos uma presença muito forte de crianças e nós distribuímos ingressos para muitos projetos sociais e temos todos os jogos lotados, com muita gente ficando de fora. E essa é uma oportunidade que os governos não estão enxergando através do esporte.

Se pegarmos mundialmente, se investe muito em esporte. E aqui eu estou sozinha, quebrando a cabeça e fazendo de tudo para o time dar certo e para que Curitiba tenha um dos maiores eventos do esporte em sua cidade.

Hoje o Curitiba Vôlei é o único time do sul do Brasil na Superliga e por isso estamos nos preparamos no Campeonato Mineiro, com times de maior investimento que o nosso. Se compararmos em termos de futebol, o Praia Clube é o Barcelona e o Minas é o Real Madrid.

O vôlei consegue estar em um altíssimo nível, se comparado a outros esportes. E eu gostaria muito de ver as outras modalidades se expandindo aqui no Paraná e venho tentando isso. Eu mandei um ofício para o Governo do Estado e para a Prefeitura de Curitiba pedindo uma parceria para trazermos o melhor voleibol do mundo para a cidade e transformar o esporte em um espelho para as novas gerações.

Hoje estou tirando muito dinheiro do bolso, mas eu acredito que se aguentar mais uma temporada o pessoal vai se mobilizar. Nós tivemos um retorno de marketing espontâneo de R$ 23 milhões. Eu acho que é algo bem razoável de se pensar. Se conseguirmos investir um pouco conseguimos montar um time ainda melhor e continuar trazendo o melhor voleibol do mundo para Curitiba.

Mas com o investimento que temos hoje, nós temos que ter o pé no chão e saber que não brigamos pela Superliga, mas fazemos o melhor papel possível para representar o Paraná dentro da competição.

Por exemplo, em nossa estreia na Superliga teremos a presença do Bernardinho. E vamos buscar fazer o jogo mais demorado possível para que nossa plateia possa aproveitar o espetáculo e agitar a cidade.

Curitiba Vôlei - Gisele Miró - Superliga
Waleskinha (8) foi campeã olímpica em Pequim e traz maior experiência ao vestiário do Curitiba Vôlei. Foto: Valterci Santos

PP: Como é a parceria do Curitiba Vôlei com a Universidade Positivo?

Algumas atletas de nível de seleção têm me procurado para negociar e vir jogar aqui em Curitiba. Muito disso é pela nossa estrutura com a Universidade Positivo.

O projeto só está sendo possível isso porque a Universidade está dando essas condições para recebermos os jogos, porque os encargos são muito grandes e nos deixaria fora por vários motivos.

Os custos com iluminação, vestiários, nós nunca conseguiríamos fazer sozinhos. Hoje a Superliga tem um alto nível de organização, comparável a uma Copa do Mundo da modalidade.

A Universidade entra com toda a infraestrutura, sendo uma das melhores do Brasil. Todos os outros times nos elogiam e querem que deem certo o projeto. Além disso, todas as nossas atletas estão estudando, se não em uma graduação, em um curso de inglês.

Quando eu me reuni com o Paulo Cunha (presidente da área de Ensino do Grupo Positivo), expliquei para ele que uma universidade norte-americana como Stanford e Harvard tem mais medalhistas olímpicas que todo o esporte brasileiro.

E para mim esse é o caminho. Aliar o esporte e a educação para ajudar na questão da saúde e melhorar vida das pessoas.

Mas assim, eu estou sozinha e acho que a cidade poderia se envolver um pouco mais. Além de mim, tem outras pessoas na equipe que também estão ajudando dessa forma.

O pessoal da fisioterapia que são profissionais caros e que atendem o time em qualquer horário, assim como nosso médico, Dr. Álvaro Chamecki (coordenador médico do Coritiba). São pessoas que querem contribuir para que isso dê certo.

Curitiba Vôlei - Gisele Miró - Superliga
Duda Nunes chega em Curitiba com a experiência de um título da Superliga conquistado em Minas. Foto: Valterci Santos

PP: O que falta para o poder público e empresariado realizarem investimentos no esporte?

GM: Eu vou dar o exemplo do time de Taubaté. Que é o atual campeão da Superliga (masculina). A prefeitura da cidade está fazendo com seus parceiros também trabalhem com a equipe. E o sucesso do time está colocando em foco o nome da cidade também.

O poder público investe no esporte em todas as principais potências mundiais. Nos Estados Unidos não é somente o alto nível que recebe esse investimento, mas a base como um todo. Estamos lutando para isso e temos a confiança que os empresários vejam que somos uma boa opção de marketing e que podemos gerar muitas oportunidades para eles.

Eu não sou uma pessoa que fica sentada e esperando as coisas acontecerem. Hoje, por exemplo, entrei em contato com uma concessionária de carros para tentar fechar parceria. As empresas para fechar patrocínio precisam de retorno e eu quero fazer algo que seja bom para todo mundo. Mas todos temos que começar a fazer alguma coisa.

Fazia 15 anos que não tinha um time de Superliga aqui em Curitiba (Paraná Vôlei Clube foi campeão brasileiro feminino em duas oportunidades antes de se mudar para o Rio de Janeiro), sendo que o último cara que conseguiu fazer isso foi o Bernardinho.

A hora que eu pifar e acabar com o time de voleibol em Curitiba, vai ser uma ducha de água fria. Talvez leve mais 15 anos para voltar outro time. Só que eu preciso de ajuda. Até mesmo em divulgação.

Ano que vem temos Olimpíadas, pode ter uma atleta ou ex-atleta nossa convocada para a competição. Temos que ir para a frente com todo mundo se ajudando. Se pegarmos um dos times mineiros, somente o Praia Clube tem R$ 10 milhões em investimentos, com uma atleta deles tendo valor do nosso time inteiro.

PP: Como o Curitiba Vôlei entra nessa edição da Superliga?

GM: Eu acho que somos um time bem competitivo. Nosso objetivo é chegar entre os oito melhores mais uma vez, mas esse ano está ainda mais difícil. Nós temos o Flamengo que entrou e está investindo alto e será um time que vai complicar para a gente. O próprio São Paulo que foi campeão paulista e entrou forte nessa parceria com a equipe de Barueri.

As equipes de futebol estão vendo o voleibol como forma de divulgação de sua marca. Porque é um público diferente, principalmente com as mulheres. Em uma época em que tratamos cada vez mais do empoderamento feminino, precisamos também olhar para o esporte feminino e o vôlei tem essa vantagem de termos um altíssimo nível de atletas.

Eu não acredito que a gente possa ser a grande surpresa, mas vamos fazer jogos em que vamos surpreender muitas pessoas. Porque não podemos fugir de que só tem os melhores atletas, quando se tem os melhores investimentos.

Por isso, tentamos suprir essa questão com outros fatores. Como com um técnico (Duda Nunes) que trabalhou dois anos com o Minas e foi campeão da Superliga e que trouxe algumas atletas com ele.

Eu sou muito grata ao Clésio (Prado, comandou o Curitiba Vôlei em 2018), por ele ter levado o time aonde chegou. Ele foi uma pessoa super-importante nesse processo.

Mas o meu sonho é ganhar a Superliga. Até porque se eu não mirar esse título, eu vou ficar pelo caminho. E isso foi algo que eu não tive na caminha carreira no tênis. Por exemplo, eu queria disputar o Torneio de Wimbledon, mas eu deveria ter desejado ganhar Wimbledon.

Por isso é importante você se cercar de atletas que tenham esse perfil. Você ter uma Waleskinha (campeã olímpica em Pequim 2008) do lado e ela poder contar sobre sua trajetória, por exemplo.

É muito difícil gerir uma equipe na Superliga. Porque existe a cobrança, existem os momentos de dúvida, então com o Duda eu fico tranquila com essas questões, até pela experiência dele dentro do esporte. Hoje temos e expertise do time do Minas, que foi campeão.

Nós montamos uma equipe melhor, mas todas as outras equipes também cresceram. O Rio de Janeiro, por exemplo, é uma seleção. Mas chegar nesse nível é o nosso objetivo, eu quero chegar lá um dia. Mas hoje temos que ter os pés no chão.

Por exemplo, nós viemos para o Campeonato Mineiro sem fisioterapeuta. Diferente dos outros times que tem todo um staff e isso no esporte de alto rendimento é fundamental.

Curitiba Vôlei - Gisele Miró - Superliga
Folha salarial do Curitiba Vôlei fica na casa do R$ 1 milhão. Média da Superliga é de R$ 5 milhões. Foto: Valterci Santos

PP: Com esse cenário, você avalia que falta uma cultura de esporte no estado?

GM: Recentemente eu fui na Copel, que esteve conosco na última temporada, mas nesse ano por algum motivo não estão mais ao nosso lado. Mostrei para eles os resultados de mídia espontânea e oportunidade das crianças ingressarem no esporte, aumentando sua presença nas escolinhas. Mas não conseguimos manter a parceria.

Porque o resultado que temos que observar é o número de atletas olímpicos paranaenses presentes em uma Olimpíada. Tenho certeza que o número de presentes no Rio de Janeiro vai ser maior em comparação a Tóquio em 2020.

Não é a questão da falta de investimento e sim, a melhor distribuição desses investimentos. É preciso olhar para o alto rendimento, que tem uma maior pressão por resultados, mas que é o objetivo máximo de cada atleta.

Por exemplo, aqui no Paraná se investe muito na base, que é algo muito correto e não pode parar, só que quando o atleta chega aos 15, 16 anos chegam estados como Minas Gerais e levam esse atleta embora, para treinar nesses locais.

Citando novamente os Estados Unidos como exemplo. Eles vêm um potencial no esporte que nós não vemos. Pensamos que é muito difícil ou pelo time não conseguir ser campeão não vale o investimento. E eu penso que trago o melhor do esporte para Curitiba e não consigo apoio para isso.

O esporte é a cara de um país, de um governo. Quando eu falo que o Curitiba Volei perdeu para o Rio, quero dizer que o Paraná como um todo perdeu para o Rio. Eu acho que precisamos começar a se mexer. Hoje tocamos nossa equipe com 1 milhão, sendo que a maioria investe de 5 milhões para cima.

Mas se reunirmos dez empresários, nós conseguiríamos realizar o nosso investimento. Não é uma verba absurda, pelo tamanho do retorno que nós estamos trazendo, fora a parte social. O esporte pode ser um caminho para tantas coisas boas e é por isso que eu estou lutando.

E essa falta da cultura do ídolo no Brasil é um problema. Quando eu chego na alfândega em outros países, percebo que o esporte desperta um grande carinho. Porque nós representamos um país inteiro.

O Governo pode estar patrocinando uma equipe de alto nível e com isso nós vamos puxando a base para nós. Além disso, estamos trazendo algumas meninas do Paraná de volta para o estado como a Mari Aquino, a Mariana Galon e a Geórgia.

Além delas, eu tenho contato há dois anos com a Fernanda Garay para jogar com a gente. Imagina o impacto que uma outra campeã olímpica como ela atuando aqui, sendo o espelho de uma oportunidade para as crianças daqui.

Não basta apenas dar uma quadra e colocar um professor para criar uma cultura de esporte. Você precisa de espelhos. E eu não vejo essa dificuldade em São Paulo, no Rio e aqui em Minas.

Curitiba hoje tem apenas o Athletico e o Curitiba Vôlei na elite de seus esportes. Dentro do estado temos a única medalhista olímpica aqui no Paraná.

O Lipe (ponteiro do Taubaté e ouro nas Olimpíadas do Rio de Janeiro 2016 com a seleção brasileira) está tentando trazer um time de vôlei masculino aqui para Curitiba, mas também tem encontrado as mesas dificuldades que eu.

É importante um esporte forte para o país. Se lembrarmos do Rexona, durante o governo Jaime Lerner, mesmo com vários problemas, o voleibol ia bem e aí ajudava a apaziguar isso..

Se não tivesse o Curitiba Vôlei como poderíamos ter o Bernardinho e todas as atletas que temos na Superliga aqui na cidade?

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