De olho nas olimpíadas, brasileiros invadem mundial de muay thai na Tailândia

Narley Resende


Narley Resende e Fernando Garcel

Com o maior número de participantes da história, equipes brasileiras enviaram mais de 50 lutadores para o mundial de Muay Thai deste ano, entre os dias 13 a 21 de março, em Ayutthaya, na Tailândia. O torneio ocorre em meio a um festival nacional no país asiático, o World Thai Martial Arts Festival, que celebra a cultura local e a arte marcial milenar. Nesta edição, foram conquistados dois títulos mundiais brasileiros na categoria profissional, ambos de atletas paranaenses.

A categoria olímpica, porém, que exige equipamentos de proteção, com regras que diminuem a violência do esporte, é que atraiu o número recorde de atletas.

De olho na possibilidade do esporte se tornar modalidade olímpica, as organizações brasileiras se mobilizaram para inscrever o maior número de atletas possível. Para participar do mundial, os lutadores foram indicados pelo Instituto Brasileiro de Artes Marciais Tailandesas (IBAMT).

O presidente do instituto, e também representante da Associação Instituto de Artes Marciais Tailandesas (AITMA) no Brasil, mestre Adriano Tigre, afirma que o próprio mundial estimula as categorias para atletas mais jovens para possibilidade olímpica.

“As competições são mais voltadas ao profissional, mas agora vão focar um pouco mais no amador porque o muay thai teve esse reconhecimento pelo COI (Comitê Olímpico Internacional), provisioriamente, como modalidade olímpica. Vai participar ainda dos jogos abertos, com algumas adaptações, para que possa se tornar modalidade olímpica. Estamos no caminho certo agora”, confia.

Adriano também está na Tailândia há duas semanas. Como técnico, acompanhou dois atletas gaúchos que voltaram vitoriosos neste ano. Entre os gaúchos, o atleta Juliano Pistore, de Caxias do Sul (RS), é campeão mundial na categoria olímpica (amador), de 71 kg, após vencer por nocaute Djozaeu Asadullo, do Uzbequistão; e o atleta Bruno de Sousa, de Tramandaí (RS), é vice-campeão mundial na categoria olímpica (63 kg). Eles conquistaram o título no dia 19 de março.

“Os atletas que têm esse título mundial no profissional e no amador serão fortes candidatos a nos representar nas olimpíadas futuramente”, acredita o treinador.

Defensor do muay thai tradicional, Adriano pretende trazer técnicas ainda não praticadas no Brasil. “A gente tem como meta reproduzir o verdadeiro muay thai que acontece na Tailândia. O que a gente treina no Brasil é bem diferente do que a gente vê aqui. O pessoal resiste, é um trabalho de formiguinha”, conta.

“Capital do muay thai”

O grupo de paranaenses que participou do mundial sagrou dois campeões na categoria profissional. O curitibano Emerson Olímpio, conhecido como “Bruce Lee”, da categoria 67 quilos; e Luiz Henrique Wilson, 25 anos, da categoria 65 quilos, de Pontal do Paraná, foram campeões mundiais de 2017.

Atletas curitibanos do torneio olímpico também foram destaque e reforçaram a imagem da capital paranaense como referência internacional do muay thai fora da Tailândia. Kleverton Luis Sviech, de 36 anos, foi campeão mundial também na categoria amador (85 quilos). E Pollyana Miiller, de 14 anos, foi vice-campeã amadora (51 quilos). Pollyana é forte candidata ao sonho olímpico.

Curitiba é sede da renomada academia Chute Boxe, fundada em 1979 por Rudimar Fedrigo, cujo muay thai aprendeu com o mestre Nélio Borges de Souza, o Naja, assim como Rafael Cordeiro e Fabio Noguchi, que diretamente ou por meio de alunos, ajudaram a forjar grandes nomes do muay thai e do MMA mundial como Anderson Silva, Mauricio Shogun, Wanderlei Silva, Cris Cyborg, Murilo Ninja, José Pelé Landy, dentre outros.

Campeão profissional

Ex-aluno do lutador do paulista radicado em Curitiba Anderson Silva, que é dono da maior sequência de vitórias e de títulos defendidos do UFC (Ultimate Fighting Championship), o curitibano Emerson Olimpio, de 33 anos, conhecido como Bruce Lee, conquistou o mundial após 15 anos de treinamento.

Emerson conta que o torneio tem profissionais que lutam desde criança. “Aqui na Tailândia eles começam a lutar muito cedo. Então, pega menino de 16, 15 anos, que já tem mais de 60 lutas. Peguei um rapaz que já era muito mais experiente de luta do que eu”, ressalta o lutador.

Bruce Lee acumula no currículo os títulos de campeão paranaense, em 2010, e campeao brasileiro, em 2012. A luta que o consagrou campeão mundial foi contra Kyaw Min Naing, de Myanmar ou Birmânia.

Foto: colaboração / Paraná Portal
Kyaw Min Naing após a derrota para Emerson Olimpio, o Bruce Lee. Foto: colaboração / Paraná Portal

Lenda

O país de origem do adversário de “Bruce”, como é chamado pelos amigos, incrementou ainda mais a conquista do brasileiro. O torneio é um dos mais tradicionais do mundo, chamado de “Nai Khanom Tom”, que faz parte de um festival, e tem esse nome em referência ao guerreiro do Reino do Sião, capturado pelos birmaneses na cidade de Ayutthaya em 1767.

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Monumento de Nai Khanom Tom em Ayutthaya, na Tailândia.

Nai Khanom Tom é um dos maiores símbolos do muay thai, por ter, justamente, vencido lutadores birmaneses com suas técnicas peculiares que fizeram da arte o que ela é hoje na Tailândia. A arte marcial teria sido criada pelo do ano 1000.

Em 1773, por determinação do rei birmanês Mangra, Nai Khanom Tom, segundo a lenda, teve de lutar com vários guerreiros birmaneses e venceu todos por nocaute utilizando-se das técnicas de muay thai. Em uma das lutas venceu os nove guerreiros. Atualmente, em memória deste feito, no dia 17 de março de cada ano é comemorado o “Dia Nacional do muay thai” na Tailândia.

O festival, World Thai Martial Arts Festival, começou nesta data, e conta com apresentações culturais e diversas vertentes da arte marcial. O campeonato mundial é entre 19 e 26 de março.

“A gente fica totalmente concentrado para a luta. Esse torneio dura uma semana inteira. Tem a abertura, o festival, com cerimônias. O festival conta a história desse guerreiro tailandes, que lutou contra os birmaneses e venceu lutando muay thai. Envolve toda uma cultura. Os mestres entram montados em elefantes. Uma sensação incrível, uma experência muito boa”, conta.

“Faltando três dias para acabar o festival, começam as lutas. Tem lutas de amadores, semi-profissionais, os profissionais e, depois, vem as finais do torneio”, explica.

Sem patrocínio, com ajuda de amigos

Os atletas tiveram que pagar pela viagem. Sem condições, muitos deles contam com ajuda de amigos e familiares. A própria Confederação Brasileira de muay thai, em seu site oficial, informa que cada atleta teve que arcar com suas despesas como passagem aérea (R$ 3,5 mil cada), hotel, inscrição da competição, alimentação e eventuais gastos pessoais da viagem.

Um dos atuais treinadores de Bruce Lee, Eduardo Carneiro Leal, dono da Acadmia HIT Hard Intensive Training, conta que os alunos do lutador se mobilizaram para lhe garantir a participação no torneio. “Ele conseguiu, inclusive, com a mãe de um aluno dele a passagem. Eu, não a academia, também ajudei. Outros alunos e amigos também fizeram uma caquinha para ajudar”, conta.

“A gente chegou aqui sozinho. Sem ninguém para auxiliar a gente em um país diferente, com fuso horário, a questão da alimentação totalmente diferente”, descreve Bruce.

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Porta aberta

Uma visita do grão-mestre tailandês Narong Wongsoonthon criou uma ponte para que os brasileiros participassem do torneio tradicional. “Temos um atleta ou outro que que foi lutar na Tailândia. Mas (com campeões federados) de Paranaense, Brasileiro e Mundial foi a primeira vez que aconteceu”, conta Rafael Pereira, da academia Tai Naja, que organizou a ida de curitibanos em 2014 e 2015.

“É um sonho que sempre tive, quando eu era lutador, e não consegui. Soube da vinda ao Brasil do mestre Narong e fui ao Rio Grande do Sul para conhecer ele. Aí ele me convidou para levar meus atletas para a Tailândia”, conta.

Os atletas curitibanos ainda estão na Tailândia e devem voltar separadamente. Alguns deles vão ficar até abril para treinar técnicas tradicionais.

Apesar do destaque para os campeões do Paraná e Rio Grande do Sul, lutadores de São Paulo, Santa Catarina, Distrito Federal e Pará também disputaram o torneio.

A Confederação Brasileira de Muay Thai não tem informações oficiais consolidadas de quantos e quais são os atletas que disputaram o torneio mundial. No Brasil, diversas entidades reivindicam a representação do esporte. Alguns títulos, mesmo que de torneios reconhecidos, não são contabilizados pela Confederação.

 

 

 

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