França no topo e hexa adiado: o sucesso da Copa do Mundo em 2018

Vinicius Cordeiro


A Copa do Mundo de 2018, realizada na Rússia em junho e julho desse ano, foi um sucesso. O maior evento esportivo do ano aconteceu em 11 cidades e abriu as portas do país europeu, presidido por Vladimir Putin, como nunca antes. A festa tomou conta também na esfera esportiva, já que a Rússia chegou nas quartas de final – caindo para a Croácia nas penalidades.

A boa organização fez com que todos voltassem as atenções para a disputa esportiva, que ainda contou com a inovação do árbitro de vídeo (VAR), recurso tecnológico que tenta dar ao futebol a sensação de justiça. Foram 17 lances que o juiz da partida recorreram à ferramenta, sendo um pênalti na grande decisão entre França e Croácia.

Apesar de nenhum dado oficial ter sido divulgado, a Kantar Ibope Media apontou que a final foi assistida por mais de 20 milhões de telespectadores nas 15 principais regiões metropolitanas do Brasil.

A França conquistou o título pela segunda vez. 

Com apenas 19 anos, Mbappé igualou Pelé e fez história na Rússia. Foto: Getty Images/Site FIFA

Rápido, habilidoso e carismático, Mbappé foi a estrela da equipe. Ele se igualou a Pelé como segundo jogador a marcar um gol na final com menos de 20 anos. Em 1958, o Rei do Futebol tinha apenas 17 anos e marcou duas vezes na decisão contra a Suécia.

Já no banco de reservas, o técnico da conquista deste ano foi Didier Deschamps, volante e capitão da seleção campeã em 1998. Ele se igualou a Zagallo e ao alemão Franz Beckenbauer, os únicos campeões mundiais sendo atleta e treinador.

Deschamps se juntou a Zagallo e Beckenbeuer. Foto: Getty Images / site FIFA

Caminho até o título

A França não teve dificuldades para liderar o Grupo C. Passou por Austrália e Peru e empatou sem gols com a Dinamarca com seu time misto. No mata-mata, a equipe cresceu de produção. Nas oitavas de final, venceu a Argentina por 4 a 3 em um dos grandes jogos da competição. Griezmann abriu o placar de pênalti, mas os argentinos conseguiram a virada com Dí Maria e Mercado. Para azar dos hermanos, a estrela de Mbappé brilhou e o camisa 10 acabou marcando dois gols. No fim, já nos acréscimos, Aguero ainda descontou.

Ao lado de Mbappé, Griezmann terminou a Copa como o melhor jogador da final. Ao longo do torneio, foram quatro gols e duas assistências. Foto: AFP/ site FIFA

Já nas quartas, a França pegou o Uruguai e controlou o jogo inteiro, tornando o confronto complicando em seu duelo mais fácil na competição. Griezmann deu assistência para Varane e depois contou com falha do goleiro Muslera.

Na semifinal, os franceses encararam a Bélgica e contaram com o zagueiro Samuel Umtiti para definir o confronto depois do escanteio batido por Griezmann. Vale ressaltar que os belgas tiveram mais posse de bola (64% contra 36%), mas finalizaram menos ao gol adversário (3 a 5).

Na grande decisão, a França venceu a Croácia por 4 a 2 em um confronto foi eletrizante. O atacante Mandzukic marcou contra e teve que contar com seu companheiro Perisic para empatar. O VAR apareceu no jogo por causa do árbitro argentino Néstor Pitana, que acabou dando um pênalti aos Bleus. Griezmann balançou as redes ainda no primeiro tempo e viu Pogba e Mbappé ampliarem. No final, o vilão Mandzukic acabou diminuindo em falha grotesca do goleiro Lloris.

Pogba e Kanté comemoram o título. Foto: AFP/site FIFA

O triunfo dos Bleus fez o país voltar ao topo do mundo futebolístico após 20 anos, superando a grande desconfiança por ser a seleção mais jovem do torneio – a média foi de 25,8 anos. Os três mais velhos tinham 31 anos: o goleiro Hugo Lloris, o volante Blaise Matuidi e o atacante Oliver Giroud. Já Antonie Griezmann e N’Golo Kanté, aos 27 anos, e Paul Pogba, 25, também foram essenciais ao time.

Tite: salvador ou culpado?

Tite apresenta ótimos números na seleção. Foto: Lucas Figueiredo / CBF

O Brasil chegou embalado e confiante para conquistar o hexa. Desde que Tite assumiu o cargo de técnico da seleção brasileira, em junho de 2016, até o Mundial, ele conquistou um aproveitamento de 85,7%. Em 21 jogos, foram 17 vitórias, três empates e apenas uma derrota.

Tamanho sucesso nos resultados e a melhora no futebol apresentado depois de Dunga e Mano Menezes, o comandante virou uma espécie de salvador da pátria. Sua imagem era tão venerada que foi garoto propaganda de diversas empresas durante o Mundial.

Tite teve participação essencial na recuperação da confiança dos brasileiros após a tragédia do 7 a 1 no Mineirão, mas acabou pecando em alguns momentos.

Em sua lista, o treinador optou por levar os “homens de confiança”, mesmo não estivessem em seu auge físico. Fágner substituiu bem Danilo nos jogos da fase de grupos, mas mostrou a diferença de níveis no jogo mais decisivo. Também era mais esperado mais de Renato Augusto, assim como de Paulinho. Fred, Danilo e Douglas Costa, machucados, não puderam mostrar seu potencial. Já Taison, o nome mais polêmico na lista, não jogou um minuto do Mundial e comprovou que o treinador poderia ter feito opção melhor para o banco de reservas.

Gabriel Jesus não apresentou seu melhor futebol no Mundial da Rússia. Foto: Lucas Figueiredo / CBF

Já Gabriel Jesus entrou para a história ao não ter marcado nenhum gol nos cinco jogos do Brasil neste Mundial. Antes dele, apenas um camisa 9 da amarelinha deixou uma Copa do Mundo sem marcar – Alcindo, em 1966. De quebra, Roberto Firmino, em ótima fase, ficou com o status de reserva.

 

O próprio Tite reconheceu alguns equívocos. “A Copa do Mundo te dá a necessidade de mais rapidamente modificar seu plano geral, quer seja durante o jogo ou pelo momento técnico de uma atleta ou outro”, disse em agosto.

No geral, o Brasil fez uma boa participação. Classificou-se (com susto, é verdade) em primeiro lugar do Grupo E, à frente de Suíça, Sérvia e Costa Rica. Nas oitavas de final, derrotou o bom time do México.

Caiu no duelo diante a Bélgica por 2 a 1, sofrendo com as ótimas atuações do meia Kevin De Bruyne e dos atacantes Eden Hazard e Romero Lukaku. Comandados por Roberto Martínez e seu auxiliar, Thierry Henry, os belgas poderiam ter sorte melhor, mas conquistaram o terceiro lugar do Mundial – a melhor posição da história do país.

Os carismáticos 

Islândia e Panamá também marcaram história em 2018. Os dois países fizeram tiveram participações muito dignas na Rússia mesmo sendo eliminadas na fase de grupos.

Torcida da Islândia fez bonito na Rússia. Foto: Site FIFA

Os islandeses já tinham sido uma das sensações da Eurocopa. A celebração, que é chamada de “Haka Viking”, “Viking Thuder Clap” ou “canto do trovão” foi uma das grandes cenas da Rússia. O ritual deu certo na estreia: o empate com a Argentina por 1 a 1 deu mais destaque ao país e principalmente ao goleiro Halldórsson, que defendeu um pênalti de Lionel Messi durante a partida. Infelizmente, as derrotas para Nigéria e Croácia, na sequência, eliminaram os nórdicos do Mundial.

Enquanto isso, o Panamá também figurou uma das cenas mais marcantes do torneio. O experiente Felipe Baloy, zagueiro de 37 anos que já defendeu Grêmio e Athletico Paranaense, marcou o primeiro gol do país na história das Copas. O lance foi comovente: o zagueiro foi às lágrimas em meio a festa de todos os jogadores e torcedores panamenhos.

Gol histórico de Baloy foi muito celebrado. Foto: Site FIFA

Sabe de Kane?

O artilheiro da Copa foi o inglês Harry Kane, com seis gols. O atacante disputou seu primeiro Mundial e já se juntou a Gary Lineker, goleador da Copa de 1986, como os únicos ingleses que se tornaram artilheiros do torneio. Além disso, Lineker é quem mais marcou pelo English Team em Copas. Foram 10 bolas na rede – seis em 1986 e quatro em 1990. Considerando que Kane ainda tem 25 anos, é plausível pensar que o jogador do Tottenham pode fazer mais história pela seleção inglesa.

Harry Kane foi o artilheiro da Copa. Foto: site FIFA

Festa croata

A campanha croata rendeu boas histórias, inclusive do fanatismo da presidente Kolinda Grabar-Kitarović em acompanhar as partidas de seu país.

Dentro de campo, o jogo coletivo foi marcante para, por exemplo, o triunfo categórico diante a Argentina na primeira fase. O grupo foi recheado de ótimos jogadores, como Rakitic, Perisic e Mandzukic fazendo companhia ao excelente Luka Modric, premiado pela FIFA como o melhor jogador do ano.

Jogadores croatas foram recebidos com muita festa em seu país. Foto: AFP/Site FIFA

Vale lembrar que a Croácia disputou a prorrogação em todos os jogos do mata-mata, garantindo emoção até o fim. Isso também ajudou na vitória francesa. Além de atuar 90 minutos a mais que o rival na final, os croatas percorreram 118 km a mais que os franceses no trajeto rumo à decisão. Mesmo assim, é para aplaudir essa campanha histórica.

As decepções

As favoritas ao título, Alemanha, Argentina e Espanha decepcionaram. Campeões em 2014, os alemães fizeram feio na fase de grupos: perderam para o México na estreia, ganharam de virada da Suécia no último minuto (evitando a eliminação com antecedência) e selaram sua despedida com uma derrota para a Coreia do Sul. O gol de Toni Kroos diante os suecos parecia ser uma retomada do futebol bávaro, mas a campanha do time treinado por Joaquim Low foi longe do esperado.

Messi lamentando gol da França na eliminação da Argentina. Foto: Getty Images/site FIFA

Já a Argentina, comandada por Jorge Sampaoli, caiu para a Franças nas oitavas de final e mostrou, mais uma vez, que a zona da Associação do Futebol Argentino (AFA) reflete nos resultados dentro de campo. Além disso, Lionel Messi colecionou mais uma decepção defendendo seu país e ficou aposentado da seleção nesse resto de ano.

Por fim, a Espanha foi o destaque antes da competição iniciar por decisões que podem ser consideradas amadoras dentro do futebol de alto nível. Dias antes da estreia da Fúria no Mundial, o técnico Julen Lopetegui acertou vinculo com o Real Madrid. O presidente da Federação Espanhola não aprovou a negociação, demitiu Lopetegui e, às pressas, deu o cargo para Fernando Hierro, diretor esportivo da seleção até então. A mudança não deu certo e os espanhóis foram eliminados nas oitavas de final ao perder na disputa de pênaltis para a anfitriã Rússia.

Cai cai

Se tem alguém que mudou sua imagem foi Neymar. O craque brasileiro sofreu muitas críticas e passou por um processo amadurecimento. Apesar disso, Tite sempre demonstrou plena confiança no jogador e ainda lhe deu a faixa de capitão após o Mundial. O camisa 10 do PSG precisa agora recuperar a boa forma e ser decisivo no futebol europeu para ser valorizado novamente.

Neymar foi muito criticado na Rússia. Foto: Getty Images/Site FIFA

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